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Mais 4 informações úteis sobre friendzone

 

Friendzone não existe!

 

Não vai rolar, Mario
Não vai rolar, Mario

Ainda que você possa escutar uma ou outra garota mencionando a ideia de ser vítima de uma amizade com um cara, é fácil perceber que a ideia de friendzone é, assim como o patriarcado e a banheira do Gugu, outro desses típicos conceitos masculinos em que as mulheres são involuntariamente lançadas e, depois, responsabilizadas.

Mas a verdade é que, por mais intrigante que o conceito pareça, por mais que você consiga identificar nele experiências da sua juventude e por mais que eu adore aquele episódio de Friends, já é hora de admitirmos. Na prática, a zona da amizade não existe.

Há apenas alguém que gosta de você, mas não do jeito que você gostaria e as desculpas que inventa pra culpar essa pessoa por isso.

Isso porque o que chamamos de friendzone é uma tentativa de racionalizar de forma elaborada um processo natural e puramente emocional. Além de buscar responsabilizar e -- vamos lá -- até mesmo demonizar alguém que teve como única falha não retribuir nossos sentimentos e intenções exatamente da maneira como gostaríamos.

Ou seja, é basicamente nossa incapacidade de lidar com a ideia de que, mesmo sendo o mais legal, simpático e divertido que consigamos, ainda podemos ser rejeitados apenas porque ninguém tem a obrigação de querer ninguém, por mais que o outro se esforce (ou ache que está se esforçando).

 

A vida não é como The Sims

 

É um pouco mais complicado do que isso
A barra de carinho já encheu. Vamo transar?

Imagine que você mora em um prédio e, nele, exista um porteiro.

Um dia o porteiro abre a porta pra você. No outro ele segura o elevador. Depois ele te ajuda com as compras. Uma outra vez vocês conversam sobre futebol. No outro sábado, ele traz uma pizza. Na semana seguinte, a sua cerveja favorita. E aí, numa sexta-feira boba, ele te cerca no elevador e fala que já tá na hora de rolar um sexo. Você diz que isso é um absurdo e aí ele fica nervoso, chateado, te chama de frígido e posta no Facebook que os porteiros bonzinhos nunca se dão bem e os condôminos legais só querem os porteiros safados.

Sim, eu sei, a situação parece bizarra e você possivelmente vai querer carregar suas próprias compras de agora em diante (ou não). Mas a verdade é que, a grosso modo, é mais ou menos assim que funciona a lógica do cara que acredita estar na friendzone, já que ele conclui que a simples prática cumulativa de atitudes agradáveis ou gentis torna obrigatória algum tipo de recompensa física ou emocional posterior.

Afinal, você tratou ela bem, não tratou? Você ouviu os problemas dela, não ouviu? Você tomou conta do peixe dela naquelas férias de 30 dias na Europa e realmente contou os grãozinhos de comida do Beta ao invés de apenas jogar tudo na água, não é mesmo?

Bem, isso foi gentil, claro, mas não te dá absolutamente nenhum direito, a não ser, talvez, o de esperar o mesmo tipo de gentileza da parte dela, da mesma maneira que funcionaria com qualquer ser humano.

Pessoas não funcionam na vida real como no jogo The Sims e, depois de se conhecerem, você não pode apenas encher a barra de carinho e então pedir em namoro.

Mas veja o lado bom, também são baixas as chances de alguém te cimentar dentro de um cômodo no meio de uma festa e você virar um fantasma.

Bem bizarro aquele jogo se você pensar direito.

 

Ninguém tem a obrigação de ler mentes (e você também não é uma criança)

 

A estatística prova que as chances de você gostar de uma garota que leia mentes são bem pequenas
 

Um dos grandes problemas da vida humana é o fato de que, com certa frequência, ocorrem imensas distorções entre a forma como percebermos subjetivamente os fatos e a forma como eles objetivamente se desenrolam.

O cara do rádio disse que a bola passou raspando mas ela saiu pela lateral, sua irmã disse que ficou lindo o bolo mas na verdade ele parece um bolo normal que se envolveu numa briga com dois outros bolos muito maiores.

Você acredita que ela sempre soube que você era apaixonado por ela, mas ela, na verdade, achava que vocês eram apenas bróders de boliche e por isso você era o cara perfeito na hora de conversar sobre um ex-namorado.

E nisso vem uma frustração muito comum dos caras que se dizem friendzoneados. A visão de que a pessoa em questão não percebeu o interesse de que era alvo ou percebeu e usou isso a seu favor, com a intenção de extrair favores, benefícios ou apenas não precisar nunca mais trocar uma resistência de chuveiros.

Para isso existem duas respostas óbvias, claro.

A primeira é que ninguém tem a obrigação de saber coisas que você não informou. Por mais que você acredite ter indicado, insinuado, dito ironicamente no chat do Facebook no meio da madrugada depois de seis desperados com limão, se você quer alguém e essa pessoa não percebe, você inevitavelmente vai precisar dizer com todas as letras e arcar com as consequências, se isso for mesmo importante pra você.

E a segunda é que, bem, se tem alguém de quem você gosta e que, ciente disso, vem te manipulando para conseguir favores, vantagens, dinheiro e serviços domésticos, não se trata mais de friendzone, mas sim de exploração. De você sendo feito de bobo e possivelmente tema de uma música do grupo Molejo.

 

Só não existe amizade entre homem e mulher se eles não forem amigos

 

Porque as pessoas duvidam de amizade entre homens e mulheres mas acreditam nos documentários sobre sereias que passam na TV
Porque as pessoas duvidam de amizade entre homens e mulheres mas acreditam nos documentários sobre sereias que passam na TV

E também existe a ideia da amizade apenas enquanto caminho para um relacionamento ou sexo. Afinal, todos nós queremos alguém que, além de parceiro nas noites loucas envolvendo chantilly, champagne e outros apetrechos e acepipes mencionados em clipes do Naldo, também seja nosso amigo.

Mas esse não é o único desfecho aceitável para uma amizade e definitivamente viveríamos num mundo muito esquisito se ele fosse.

 

“Roberto, venho frequentando a sua casa desde moleque, mas nem te curto. A intenção era te comer mesmo, cara. Vai rolar? Porque, se não for rolar, eu quero minhas manetes do PS3 de volta”.

Exatamente por isso, considerar que ser amigo é uma “punição” ou resultado de uma “propaganda enganosa” é uma forma de subestimar o valor da amizade como um todo, transformando em instrumental algo que é importante por si só.

Uma amizade que tem um objetivo e que não vale a pena se esse objetivo não é atingido não é exatamente uma amizade.

Homens podem sim ser amigos de mulheres que não querem pegar e mulheres podem sim ser amigas de caras que não sentem vontade de levar pra cama e duvidar disso é metade desconhecimento de mundo e metade demonstração de imaturidade.

E vocês sabem que de imaturidade eu manjo porque usei o termo “subestimar o valor da amizade”, como em um desenho das Sailor Moon.


publicado em 23 de Julho de 2013, 10:00
Selfie casa antiga

João Baldi Jr.

João Baldi Jr. é jornalista, roteirista iniciante e o cara que separa as brigas da turma do deixa disso. Gosta de pão de queijo, futebol, comédia romântica. Não gosta de falsidade, gente que fica parada na porta do metrô, quando molha a barra da calça na poça d'água. Escreve no (www.justwrapped.me/) e discute diariamente os grandes temas - pagode, flamengo, geopolítica contemporânea e modernidade líquida. No Twitter, é o (@joaoluisjr)


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