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Malabarize-se: para aprender malabarismo

Nota de Luciano Ribeiro: No texto "Bill Watterson: conselho de um cartunista", tivemos muitos relatos bem legais e, em especial, me chamou a atenção um, do Lucas, no qual ele falava que tinha se inspirado pelo texto a se dedicar mais ainda ao seu projeto. Perguntei qual era e ele apresentou seu canal de Youtube, o Malabarize-se. Achei tão legal que pedi para ele escrever a respeito no PdH.

Tenho um canal chamado Malabarize-se no Youtube desde 2006. No começo, postava alguns trabalhos do colégio e depois alguns truques de malabares filmados de forma amadora apenas para trocar com outros malabaristas e tirar dúvidas.

Desde que comecei a malabarizar, queria que a arte fosse valorizada, que as pessoas vissem que malabarismo é trabalho duro. Aplico essa ideia no Malabarize-se. Meu objetivo com o canal é desenvolver e popularizar o malabarismo e o circo mundialmente.

Gostaria de compartilhar a história do canal e como cheguei até aqui.

Uma tarde de truco dos bróders
Uma tarde de truco dos bróders

O abandono da faculdade

Minha paixão pelo malabarismo começou em outubro de 2007, quando minha irmã comprou um diabolô. Na época, ainda no 1º colegial, tinha muito tempo livre e fiquei obcecado pela coisa. No início, treinava mais de 5 horas por dia.

Três anos depois, comecei a praticar bolas e malabarismo de contato. Aprendi tudo que sei por meio da internet e trocando informações com outros malabaristas. Após entender os conceitos básicos, também aprendia pesquisando e treinando sozinho.

Ao terminar a escola, o malabarismo já havia tomado grandes proporções em minha vida. Tinha viajado para algumas convenções e eventos de malabares pelo Brasil e conhecido muitos artistas fantásticos, já trabalhava com malabarismo, dando aulas e me apresentando eventualmente, mas não me passava pela cabeça me dedicar integralmente.

Acredito que os valores tradicionais ainda estavam muito enraizados em minha mente após a escola, o único caminho que parecia aceitável era terminar o ensino médio e seguir para uma universidade.

Chego e todos com o copo na cabeça
Chego e todos com o copo na cabeça

Queria passar numa universidade pública, pois não via sentido em pagar educação duas vezes se existia uma opção boa e gratuita de curso superior. Ia bem na escola e após um ano tranquilo de cursinho – no qual matava as aulas de biologia para treinar 5 bolas – passei no curso de administração da Universidade de São Paulo (USP).

Eu tinha a característica básica de 90% dos alunos de minha turma: gostava de muitas coisas e não sabia bem o que queria fazer da vida.

Depois de 6 meses no curso de administração, já não aguentava mais, não via o ponto de decorar conceitos em livros e vomitá-los nas provas, sentia que estava jogando minha vida no lixo.

A universidade me oferecia outras coisas interessantes como interagir com alunos de outras faculdades, assistir palestras sobre temas que me atraiam e ir a festas, mas não era o suficiente se comparado com minha depressão dentro da sala de aula.

Na época, não queria largar uma vaga numa universidade pública para entrar em outro curso que talvez não gostasse, e muito menos voltar para o cursinho enquanto pensava no que fazer, na dificuldade de tomar uma decisão, permaneci onde estava, mesmo que totalmente decepcionado.

Youtube e o salto

Com o crescimento da plataforma e o aumento da verba investida na internet, surgiu o programa de parceiros do Youtube, no qual alguns criadores poderiam exibir anúncios em seus vídeos e gerar renda produzindo conteúdo.

Em setembro de 2011 meu canal foi aceito como parceiro. Eu ainda não tinha uma câmera – usava câmeras emprestadas de amigos – e não produzia conteúdo em alta qualidade, mas tinha uma ideia: investir em um canal com vídeos de malabarismo e tutoriais. O Youtube acreditou na proposta e aprovou meu pedido de parceria.

Hoje qualquer pessoa pode monetizar seu conteúdo e se tornar parceiro do Youtube mas lá atrás, em 2011, isso foi motivo de grande alegria. Vislumbrei a possibilidade de trabalhar com algo que gosto e não viver escravo de empregos tradicionais.

Uma vitória, mas ainda não era forte o suficiente para me fazer dar o salto e largar a universidade. Não tinha uma câmera e as visualizações dos vídeos não rendiam nem 10 dólares por mês. Para piorar, tive a câmera de um amigo furtada em novembro e gastei todas as minhas economias em uma câmera nova para o cara. O sonho de viver fazendo algo que amo parecia muito mais distante.

Essa depressão não durou muito. Em dezembro de 2012 foi anunciado o concurso Youtube Next Up Brasil que premiaria 15 parceiros do Youtube com 20 mil reais para cada um desenvolver seus projetos e 4 dias na sede do Google em SP, onde poderíamos conhecer uns aos outros e fazer um curso básico de produção visual. Me virei do avesso para conseguir uma câmera emprestada, dei o meu melhor e fui um dos selecionados.

Link Youtube | Minha participação no concurso. Bom lembrar

A premiação foi em Maio de 2012.

Na semana em que voltei do Google em SP, eu estava eufórico. Larguei a faculdade e tirei esse peso gigantesco de minhas costas, a alegria de ver meu nome na lista, ao entrar na USP, nem se comparou com o prazer de deixar para trás um curso que trazia tanta insatisfação.

O Malabarize-se como é hoje ainda não existia, estava apenas em minha cabeça. Muitos amigos e familiares não entenderam bem meus motivos. Alguns me acharam corajoso por desistir de algo pelo qual tinha batalhado tanto.

Para mim, perseguir essa possibilidade única de mudar não era questão de coragem, mas de sensatez.

Malabarize-se

Essa euforia durou meses.

Comprei o equipamento que precisava, aprendi em uma semana como lidar com uma câmera DSLR, comecei a estudar edição mais a fundo e suguei os tutoriais do videocopilot para entender como usar o After Effects. Até hoje continuo aprendendo e tento utilizar conceitos diferentes em cada novo projeto.

Me cobrava muito para que as coisas dessem certo. Em junho, voluntariamente deixei minha vida social de lado para me dedicar 100% ao canal. Dormia pouco e respirava tutoriais de malabares. Neste mês lancei 29 vídeos novos – quase um por dia – e descobri que amo produzir vídeos tanto quanto o malabarismo.

A partir de agosto comecei a viajar para produzir vídeos com youtubers e malabaristas que já conhecia por conta dos eventos. Fui para o interior de São Paulo, Curitiba, Goiânia, Rio de Janeiro, Florianópolis e Minas Gerais.

Atualmente o projeto se estrutura em três pilares: vídeos-arte, tutoriais e "muito mais e muito melhor".

Link Youtube | Showreel Malabarize-se 

Link Youtube | Um dia equilibrado – 6 dias de gravação em Florianópolis – SC

Link Youtube | Aprenda a fazer malabarismo com 5 bolas – confie em mim, você também pode fazer isso

Aprender malabares é muito mais fácil do que parece, estou certo que qualquer pessoa consegue, se for minimamente dedicada.

O canal já conta com mais de 30 vídeos compartilhando conhecimentos e técnicas para jogar bolas, diabolôs, fazer malabarismo de contato, bastões e até girar uma bola no dedo.

Link Youtube | Bolas Verdes Fritas

Vídeos de entretenimento, eventos e encontros de malabarismo, time-lapse de barbas crescendo e muito mais. Não há limites para as criações do canal.

Rio de Janeiro e o PROFAC: a vida hoje

Em fevereiro desse ano me mudei para o Rio de Janeiro para estudar no PROFAC (Programa de Formação do Artista Circense), um curso de circo que dura 3 anos. Em paralelo, trabalho no Youtube. Lanço no mínimo um vídeo por semana, todas as terças às 18h00.

Todos os dias recebo mensagens e comentários de pessoas que estão aprendendo malabarismo com os tutoriais. Tive a oportunidade de trabalhar com um malabarista e videomaker francês, Raphael Caputo, no projeto Visual Juggling 2.0, que contém os melhores vídeos-arte que já fiz até hoje, fui convidado pela convenção europeia de malabarismo para produzir vídeos em Toulouse, sul da França, em julho desse ano, e namoro há 6 meses uma garota incrível que conheci por causa de um tutorial do canal.

Agora encontrei um equilíbrio melhor entre o trabalho e minha vida pessoal, posso dizer que malabarismo, circo e videomaking mudaram minha vida para muito melhor. É apenas o começo.

O projeto tem 1 ano e 4 meses. Ainda há muito o que explorar e isso me deixa bastante entusiasmado.

Também tenho um perfil no Patreon, site de financiamento colaborativo para pessoas que criam conteúdo com frequência. Funciona num esquema de mecenato, há uma contrapartida de acordo com o valor doado. Para apoiar o Malabarize-se, é só clicar aqui.

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Eu, minha barba e, ao fundo, minhas ferramentas de trabalho

Para saber mais:

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publicado em 12 de Setembro de 2013, 15:08
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Lucas Gardezani Abduch

Um malabarista com uma câmera. Come gengibre, fica de ponta cabeça e enrola seu bigode regularmente. Produz vídeos para o Malabarize-se e tweets em @lucasgabd.


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