Martin Scorsese, anseios masculinos e seu novo filme, o Lobo de Wall Street

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O que faz de Martin Scorsese um diretor foda não é apenas a sua genialidade. Isso já seria motivo suficiente para colocá-lo na mesma constelação de Kubrick, Allen e Coppola.

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Mas o que o destaca de todos os outros gênios do cinema americano é a visceralidade com que retrata os conflitos, paixões e ambições do homem moderno.

Cada um de seus filmes representa um aspecto do mundo masculino. Quando nos deparamos com um dilema ou uma situação desafiadora, é como se dentro de nossa cabeça, todos os protagonistas de seus filmes sentassem em uma mesa redonda para tentar nos influenciar, representando um elemento que precisamos considerar em nossas escolhas: dinheiro, poder, amor, ética, agressividade, malandragem, fidelidade, compaixão, ambição, loucura.

E cada um desses personagens defende seu ponto de vista da situação: devemos ser ambiciosos ou prudentes? a solução é atacar ou negociar? Você deve arriscar tudo por seus sonhos ou seguir um caminho mais seguro e acomodado?

Estão todos lá, na mesa redonda que representa nossos conflitos. Está lá, na mesa redonda em sua cabeça, o Travis Bickle de , um cara prestes a explodir diante da sensação de que é um peão descartável de um mundo corrompido. Ao seu lado temos Newland Archer, de , o cidadão responsável que vive o dilema entre o compromisso do casamento e o desatino de uma paixão transgressora.

Está lá, como parte de todos nós, o Touro Indomável, impulsivo e vigoroso, mas emocionalmente imaturo, respondendo com agressividade às situações de insegurança. E esse sujeito detesta a serenidade daquela outra parte de nós, o homem sábio que anseia pela evolução espiritual e quer optar pelos caminhos pacíficos.

E quando ambicionamos o sucesso a qualquer custo, sempre há algo em nós de Rupert Pupkin, o , sussurrando "é melhor ser rei por um dia do que um otário a vida inteira". E, discordando dele, sussurra também em nosso ouvido Paul Hackett, o protagonista do , trabalhador certinho e responsável que ama a segurança de seu modesto emprego e teme o descontrole da vida boêmia.

E tentando malandramente equilibrar esses dois lados, a transgressão ambiciosa e a segurança de obedecer as regras sociais, está também lá na mesa redonda um Henry Hill de Os Bons Companheiros.

Inclusive, mesmo nosso lado mais obscuro Martin Scorsese retratou em , aquela parte de nós ressentida e desejosa de impor ao mundo sua própria lei como se fosse um semideus.

Falando em divindade, até mesmo ao retratar Cristo, o diretor criou um personagem no qual percebemos o conflito entre nossa natureza humana e nossa aspiração ao divino, entre aquela parte de nós que só quer aproveitar as boas coisas mundanas e aquela que busca dar um sentido à vida através de alguma missão que a preencha de significado.

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Não é possível esgotar em um breve texto todos os protagonistas de Scorsese. Nem é possível falar de tudo aquilo que um homem comum possui de visionário, apaixonado, competitivo, compassivo, combativo e transgressor em poucas linhas.

Mas é importante lembrar que até mesmo o menino que há eternamente em nós, e que constrói o homem adulto com sua coragem e capacidade de sonhar, Martin Scorsese retratou fielmente em uma de suas mais recentes obras.

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E agora temos um novo participante da mesa redonda em que se disputam as nossas escolhas.

A próxima obra de Scorsese, The Wolf of Wall Street, vai estrear em breve e seu segundo trailer foi divulgado há poucos dias.

Nesse filme, seremos apresentados Jordan Belfort, um personagem interpretado por Leonardo Di Caprio e inspirado na história real de um homem que, como um lobo ganancioso, atacava onde quer que pudesse fazer verter dinheiro ao invés de sangue.

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E talvez essa comédia sirva para olharmos com simpatia o nosso lado mais ganancioso. Talvez nos ajude a ver o que há de ingênuo nas teorias que encaram o dinheiro como a fonte de todos os males, enquanto ele é apenas uma das formas pelas quais o poder e o êxito pessoal se materializam no mundo.

Talvez esse novo participante da mesa redonda em que se debatem nossas escolhas dirá, quando chegar sua vez de defender seu ponto de vista, que a ambição não é um pecado, mas uma característica humana cuja utilidade é tão necessária quanto ambivalente.

E sua história nos fará perguntar até que ponto podemos ceder à ambição sem sacrificarmos nossa própria liberdade – isso porque o lobo em nós, predador que obtém presas através da força, pode ser vítima de raposas que lhe roubam as presas através da astúcia.


publicado em 01 de Novembro de 2013, 22:00
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Victor Lisboa

Não escrevo por achar que tenho talento, sequer para dizer algo importante, e sim por autocomplacência e descaramento: de todos os vícios e extravagâncias tolerados socialmente, escrever é o mais inofensivo. Logo, deixe-me abusar, aqui e como editor no site Ano Zero.


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