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"Tudo dava sinais que ia dar certo". A gente gosta de se enganar? | Do Amor #79

O quanto a gente tenta encontrar razões e esperanças pra fazer algo que dá errado dar certo

Um cacto. Procurou na lojinha de flores a bolota verde com espinhos que julgou ser a mais fofa e levou para a casa dela. Era sua forma de pedir desculpas. “Para lembrar que eu sou meio seco, mas também embelezo a vida”, ele escreveu em um bilhetinho e deixou ambos em cima da mesa dela que ficava ao lado da janela. “A mocinha da loja disse que era para pegar bastante sol direto que um dia ia dar flor”, ele comentou depois de puxá-la pela cintura e roubar um beijo que ela queria receber, mas não deixava para ainda mostrar que estava brava. Geniosa ela sempre foi, mas em pouco tempo ele já havia descoberto como amolecer aquela couraça. Ela adorou a lembrancinha e enfeitou o vasinho marrom com uma fita rosa. Deu lacinho e tudo. Disse que agora era esperar para um dia ver brotar a flor e ele disse que estava esperando por ela há mais tempo, que aguardar o desabrochar da flor seria moleza. Eles transaram no chão da sala naquela mesma tarde. Foi forte. Doeu. Mas eles gostavam assim, machucando. Gostavam de deixar marcas para o outro se lembrar.

Ele namorava e ela também. Cada um inserido em um outro casal. Se conheceram no trabalho e começaram a se pegar escondidos, pra ninguém ver. Uma vez ele a fez gozar com os dedos, encostados contra uma porta da saleta vazia, e na semana seguinte, sempre que ela passava, ele fingia se tremer para imitar o jeitinho que ela tinha chegado ao orgasmo nas mãos dele. Mas, de repetir a anedota, de se dedicar demais à zombaria, ela acabou ficando puta da cara e brigou com ele. Não se falaram uns três dias, mas ele deu o braço à torcer e foi até a casa dela pedir desculpas com um vestido vermelho debaixo do braço. E tinha um porque. Quando eles ainda estavam na fase da troca de joguetes, dizendo com outras palavras o que queriam de fato dizer, ela foi à uma festa com um vestido vermelho e mandou uma mensagem abrindo mais as confissões: “Vou aproveitar que bebi, se não jamais vai sair”. Ele ficou uns minutos segurando o telefone, esperando uma continuação que não vinha, ansiando uma conclusão, e nada do desenlace. Na madrugada, chegou um vídeo dela dançando com umas amigas, de vestido vermelho, cantando uma canção brega sertajena que mandava o recado da maneira mais direta: “como é que a gente fica?”. Mais uns minutos e ela o contatava novamente com o pesar dos ébrios, dizendo “não estraga o seu relacionamento por mim que não vale a pena”.

Mas tudo já havia sido jogado para os ares. No dia seguinte eles passaram a colar um no outro, um passar de braços nos corredores, um farejar no pescoço alheio, abraços de “oi” e “tchau” mais demorados, o convite para irem ao apartamento em que ela morava sozinha para ver como havia ficado o quadro que ela pendurou na parede com fita adesiva dupla-face, dica que ele havia dado, as mordidas, o sexo, a troca de carinhos e afagos, o chamego e a necessidade imediata. Ela morava perto do trabalho, então ele esperava dez minutos depois de ela sair e rumava na mesma direção. Lá, faziam um recorte do dia e iam para uma outra realidade, uma dimensão única em que tudo podia entre eles, em que nada mais existia se não o cheiro um do outro, uma aproximação curta e primitiva. Não mediam esforços, levavam-se à exaustão, colecionavam troféus de carne sob as unhas. Sabendo disso, conhecendo bem o potencial destrutivo do tesão deles, ele levou o vestido vermelho como mimo, mas não deixou ela experimentar. “É pra quando estivermos em público. Eu quero desfilar com você nesse vestido. O vestido que é meu com a mulher que é minha dentro dele”. Dias depois ela comentou que o namorado encontrou o vestido dentro do armário e achou bem bonito, “provocante demais”, segundo palavras dele. Ela disse que, mesmo assim, não usou, já que era um presente a ser usado só com ele, já que era o vestido dele, que deveria ser usado com a mulher dele dentro. Ela deu uma piscadinha e disse que já tinha data para usá-lo: a festa da firma.

Chegaram separados, mas não se desgrudaram. Caminharam juntos, um do ladinho do outro, ele pegava bebidas para ela, deixaram de disfarçar tanto e dançaram colados. Ele comentou que informou à namorada que era uma festa mais interna do trabalho para poder ficar só com ela, para poder chegar perto dela. Lá pelas tantas, depois de mais uma taça, ela disse o “eu te amo” e ele não se manifestou de volta. Ela não levou a mal, ao contrário, disse entender demais as precauções dele, que esperaria serena, que sabia já ser recíproco. Os olhos dele só acompanhavam os movimentos que ela fazia com as mãos para se justificar da não necessidade de resposta para sua declaração e a maneira que ele julgou ser a mais potente para retribuir foi puxando-a com força e tascando um beijo na boca dela. Estavam em um corredor, não sabiam se alguém do trabalho estava de passagem, mas naquele segundo ele não se importava. Queria que todos soubessem, que ela soubesse. Que ele estava amando de volta. Só que o perigo não combinado deixou sua companhia agressiva e zangada. Ela xingou palavrões, empurrou-o umas três vezes, foi embora e ele a seguiu. Brigaram na rua, ela não deixou ele subir em seu apartamento, ambos vararam a noite sem dormir e ele apareceu na manhã seguinte com o cacto e os pedidos de desculpas. Ela foi no quarto e voltou com o vestido vermelho. Estavam os dois atirados no tapete quando ela reparou que a flor do cacto havia desabrochado. Era um botão rosáceo que estava todo exibido e apontando para a janela, berrando por mais sol. “Não tem mais como dar errado. Não tem mais volta”, ele sussurrou na orelha dela apontando com um dos dedos para o aviso da planta de que a vida é foda de bela.

O feriado chegou e ele passaria quatro dias com a namorada. Precisava resolver com ela a difícil tarefa do término, da separação, do cada um ir cuidar da sua vida. Ficava quieto em casa, deixando uns filmes passando na televisão, mas sem prestar muita atenção, servindo de fantasma para seu relacionamento já moribundo. No terceiro dia, puxou oxigênio e coragem para ter com ela, mas recebeu mensagens trazendo notícias. Era sua escolha dizendo que havia feito uma escolha, que tinha novidades para ter com ele. Mais uma vez, então, se calou. Na volta, ela não foi para o apartamento dela com ele. Pediu para se encontrar num café. Lá, comentou que no feriado ela viajara para uma cidade há duas horas dali para uma conversa, e que havia sido convidada para trabalhar em um emprego muito promissor, dando continuidade na sua carreira.

Ela estava de mudança.

Duas semanas e não havia mais apartamento e nem encontros furtivos. Ela tinha pedido uns dias para se aprumar na nova cidade, no novo trabalho, se cercar de tranquilidade nessas áreas para poder, enfim, seguir com a trama não resolvida dos dois. Quinze dias sem contato, ele levando sua vida de sempre, agora sem machucados e marcas pelo corpo, sem as conversas, uma pequena abstinência de dores provocadas por ela, de preocupações sobre o que esconder, como esconder. Era só trabalho, rotina, nenhuma aventura. Estava estranhamente pacato. Percebeu sentir-se incomodado no sossego. Queria a estabilidade da angústia. Mais duas semanas e nada. Um mês passado. Entrou no carro e dirigiu até a cidade nova em que ela se encontrava. Marcou um almoço e ela apareceu com quarenta minutos de atraso. Disse que estava dentro do carro, na esquina, decidindo se aparecia ou não. Estava com um novo corte de cabelo, deu um abraço fraternal nele, mas nada íntimo demais. Comentou sobre o novo emprego, peculiaridades da nova cidade, zanzaram num papinho que evitava chegar onde se precisava ir. E chegou. Ela comentou que não foi atrás dele porque muita coisa aconteceu. Ela estava tentando voltar a se entender com o namorado, ele estava finalizando os planos de mudança para ir atrás dela, ela não sabia ao certo se queria, mas não disse que não queria. Ele tentou um beijo e ela se esquivou. Disse que tinha conhecido um cara nesse meio tempo, mas jurou com os pés juntos que não tinha tido nada com ele. Ainda.

Foi para casa em prantos. Era para deixar escorrer mesmo, gastar o que tinha ali dentro. Ela pediu para ele não voltar lá, mas não disse que estava tudo acabado, não comentou que não voltariam mais. Só pediu espaço. O que lhe incomodava era a não conclusão, um não fechamento. Não tinham terminado, mas não estavam seguindo. E ele só queria entender. Só precisava que ela dissesse.

Só que ela não disse. O mundo não disse. Nada nos dias que foram se seguindo disse que havia acabado. A flor que nasceu, o vestido, todas as chances em que ficaram sozinhos no antigo trabalho, facilitando conversas e a aproximação, o apartamento dela ser estrategicamente perto para todas as desculpas para atrasar a chegada em casa, para passar em frente e fazer uma visita. Eram tantos os sinais dizendo que era para dar certo…

Mas, às vezes, o amor só dá errado mesmo.

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O conto de hoje foi baseado em uma conversa real. Foi feita uma entrevista, encontramos a história ideal e eu a escrevi!

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“Quem precisa de ficção quando se tem a realidade?”. A gente brinca, no jornalismo, que as invenções da literatura nunca alcançarão a loucura que é a vida real. A gente cria, fantasia e dissimula, mas a realidade, as histórias de fato vividas, dão de dez a zero.

E é isso que eu quero fazer. Puxar as coisas que aconteceram na sua vida para transformá-las em história. Eu vou te dar uma versão única e exclusiva de algum fato importante e gostoso da sua vida, a visão de escritor que você quer dar a um pedacinho da sua vida.

Cartas de Amor é um projeto que sai do coração. Do olhar, ver e reparar. A gente vai se colocar nesta posição mais atenta para falar de forma genuína, para ouvir mais disponível. Vamos encontrar a faísca e fazer disso, fogo.

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publicado em 13 de Abril de 2018, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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