Maus (Art Spiegelman*) | Livros pra macho #14

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A Segunda Guerra Mundial não durou tanto tempo quanto outras guerras mas em cerca de seis anos causou estragos nunca antes vistos.

De todos os acontecimentos da história recente da humanidade, ela, em especial, talvez seja a que mais foi estudada, além de ser fonte de milhares de produções literárias, acadêmicas, audiovisuais, cênicas etc. Enfim, todos os tipos de registros já recorreram a esse tema, direta ou indiretamente, para representar sua visão.

Sendo ainda tão presente na memória da humanidade e por ter ocorrido em um momento que os meios de comunicação transformavam a informação em um objeto facilmente consumível – grande parte graças às ideias do mestre da propaganda nazista, Paul Joseph Goebbels –, a Segunda Guerra Mundial é repassada de geração em geração como um modelo que não deve ser seguido.

A quantidade de obras feitas a partir desse tema é incontável, sejam romances, poesias, biografias etc, e, por isso, a facilidade de abordá-lo de maneira piegas e clichê é tão grande quanto a de conseguir informações sobre os acontecimentos da época.

Sendo assim, apresento-vos uma obra de arte dos quadrinhos: Maus de Art Spiegelman.

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Escrita e desenhada por um judeu nascido na Suécia – mas radicado nos Estados Unidos –, a graphic novel apresenta ao leitor uma perspectiva diferente dos acontecimentos. Em vez de usar as cenas clássicas de guerra, com aviões bombardeando cidades e tiro pra tudo quanto é lado, a visão que se oferece é fundada na relação de um pai, que foi vítima dos absurdos ocorridos, e um filho, nascido em época de paz e em território vencedor, EUA.

Com o pano de fundo armado, a narrativa começa com a percepção do filho quando entra em contato com as experiências do pai e entende os traumas e hábitos neuróticos que ele carrega consigo, mesmo já estando velho e afastado muitos anos da origem de suas tristezas.

Contudo, para deixar o cenário ainda mais interessante, Spiegelman optou por uma construção diferente de personagens, construção essa que torna a identificação das nacionalidades e das doutrinas políticas mais fácil. Dessa forma, os judeus são ratos, americanos são cachorros raivosos, nazistas são gatos caçadores e os poloneses, nação que segundo a versão do autor se compunha de pessoas medrosas, são porcos.

O interessante para o público brasileiro, especialmente, e que certamente não foi negligenciado pelo quadrinhista judeu é a brincadeira com o título da graphic novel. Maus, se definido pelo léxico latino, proviria de “maldade”. Porém, em alemão, a palavra se refere a “ratos”. Então, o leitor brasileiro, ao se deparar pela primeira vez com uma obra que estampa a suástica nazista na capa, faz logo a primeira associação.

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Maus

Agora voltando ao livro, é importante frisar que, embora os preconceituosos de plantão, com suas definições arcaicas de alta e baixa literatura, não considerem os quadrinhos como membros dignos de uma biblioteca respeitável, é avaliada, sim, como um clássico da literatura moderna. Com pequenos quadros, conseguiu retratar uma história épica, que envolveu o mundo inteiro em barbárie e destruição.

Outro ponto interessante de destacar é essa construção de narrativa com pequenos quadros. Em um mercado que o público faz questão de grandes desenhos, com os músculos dos personagens saltando das roupas, Art Spiegelman preferir trabalhar sua arte de forma simples e com poucos detalhes, fazendo um jogo de luz e sombra fortíssimo, mesmo para a pouca quantidade de traços.

Usando todos os itens que formam uma boa história, Spiegelman conquistou seguidores e discípulos ao redor do mundo.

Porém, muitos não sabem que, de certa forma, ela é verdadeira, baseada em sua própria relação com o pai, um sobrevivente do holocausto que perdeu tudo durante a guerra.

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Maus

Munidos de tão importante informação, tenho certeza que os caríssimos leitores que acompanham essa coluna terão uma experiência completamente diferente quando decidirem abrir a primeira página de e encontrarem um diálogo entre pai e filho em um subúrbio norte-americano, cujo prólogo resume muito bem como será o restante da obra.

Hã? Querem saber como é esse prólogo? Tudo bem, ele é curtinho e acho que não haverá problema se eu disser que ele começa com Artie, o jovem personagem que representa o autor, caindo de patins na frente de casa e alguns rapazes caçoam dele. Choramingando, ele volta para casa e encontra o pai consertando alguma coisa.

É então que o pai, endurecido pelos grandes sofrimentos do passado, pergunta ao filho o motivo para o chororô. Ao escutar do filho que alguns de seus amigos não o ajudaram, ele responde:

“Amigos? Seus amigos?... Se trancar elas em quarto sem comida por uma semana, aí ia ver o que é amigo!...”

Muitas reflexões podem ser tiradas da resposta desse velho pai.

Uma delas é com relação à própria figura do choro, que, para o pai, é desnecessária, já que, comparada à época e ao contexto da Segunda Guerra Mundial, a vida do filho nos EUA é um paraíso.

Outra é por conta da visão que o pai tem de amizade, pois viu muitas delas seguirem seus próprios caminhos egoístas quando foram decretados os guetos de judeus.

Na minha opinião, a reflexão mais forte é sobre a memória, que aos poucos vai se desfazendo na cabeça da juventude que não teve contato direto com a catástrofe vivida pelos antepassados.

Para Artie, o pai era apenas um velho rabugento e neurótico, mas, na verdade, era um homem que, por muito pouco, não desistiu em acreditar na falência do “projeto humano”.

*Art Spiegelman (1948-) nasceu na Suécia mas se estabeleceu em New York EUA, desde jovem. Quadrinhista destacado no cenário underground das décadas de 1960 e 1970, viu sua mãe, uma sobrevivente de Auschwitz, cometer suicídio. Até hoje, é o único autor de quadrinhos a ganhar um prêmio Pulitzer.


publicado em 03 de Agosto de 2013, 21:02
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Filipe Larêdo

Filipe Larêdo é um amante dos livros e aprendeu a editá-los. Atualmente trabalha na Editora Empíreo, um caminho que decidiu seguir na busca de publicar livros apaixonantes. É formado em Direito e em Produção Editorial.


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