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Menos certezas, mais diálogo

Precisamos respirar fundo e conversar para além das nossas reações apressadas

Quando eu era criança, um dos meus jogos favoritos era um quebra-cabeça chinês chamado Tangram.

Só tinha sete peças, mas com elas era possível montar mais de 1700 figuras. As mesmas peças que formavam uma casa em poucos segundos se transformavam em peixe.

No fim das contas, as figuras eram bastante abstratas, porém era exatamente essa fluidez na capacidade de enxergar o que aquelas poucas peças poderiam representar do mundo real que me fascinava tanto no jogo.

Tenho a impressão que os debates que surgem nas redes sociais quase diariamente funcionam um pouco como o Tangram. Recebemos meia-dúzia de informações sobre um evento e em poucos segundos formamos a nossa imagem da realidade, colorimos com nossas crenças e valores pessoais, colamos uma etiqueta e pronto. Acabou o debate! É um peixe e fique longe de mim com a sua imagem de casa!

Fazemos isso quando falamos do comportamento imaturo do Neymar, da falta de educação ao vaiar nas Olimpíadas, da roubalheira do PT ou do golpe do PMDB. A simples forma como qualificamos os eventos já sinaliza o lado que escolhemos no debate.

A partir daí, gastamos muito tempo e energia coletando informações que confirmem nosso ponto de vista. Publicamos um textão e assistimos de camarote enquanto os outros leem e julgam cada palavra. Rapidamente nossos leitores também fazem a sua escolha. Quem é essa pessoa? De onde ela vem? Quem está representando?

A imagem do Tangram, que montamos com tanto carinho, é aceita em bloco (e nos tornamos heróis) ou rejeitada por inteiro (e viramos vilões). Há pouco espaço para o meio termo. Não se reaproveita as partes interessantes.

O caminho de “eles” a “nós”

Como podemos abaixar as defesas e começar a nos abrir de verdade? (Cena do ótimo documentário The Mask You Live In)

Muitas vezes, esse processo parte do nosso umbigo, de nossas experiências pessoais, e vai até o limite da classe que acreditamos representar. Se me considero de esquerda, enxergo o ponto de vista da direita como 100% injusto. Se tenho origem humilde, a classe média imediatamente se torna um bando de alienados. E vice-versa. O exercício de nos enxergar como povo brasileiro (ou raça humana) acaba ficando bem longe do nosso alcance.

Muito mais interessante seria esperar um pouco antes de formar uma imagem, ouvir com atenção e coração aberto o que há na experiência do outro, e de outro, e de outro. Algo como ler opiniões não com a caneta vermelha, que rejeita tudo, mas com o marcador de texto, que ilumina e acrescenta.

Seria acumular essa diversidade de pontos de vista e encontrar serenidade no convívio de ideias aparentemente opostas.

Até porque a verdade (se ela existe) provavelmente não se encontra nos extremos.

Tomemos o exemplo do nadador Ryan Lochte. Podemos concordar com o fato que mentir para as autoridades é inaceitável, ter nosso brio ferido por estrangeiros que acham que nosso país é a terra do oba-oba e achar que uma punição deve ocorrer.

Mas, ao mesmo tempo, podemos também reconhecer elementos de nossa juventude em sua noitada alcoolizada, sentir empatia pela pressão que um atleta de alta performance sofre e considerar os pedidos de retirada de medalhas e o valor das multas um pouco excessivos.

Podemos até reconhecer a ironia por trás da ação eficaz da polícia carioca dado que, um mês antes, a mesma instituição acolhia estrangeiros no aeroporto com faixas de “bem-vindos ao inferno”.

Qual é o valor justo da punição? Não sou especialista em direito nem conheço o estatuto do COI. A minha opinião não importa nesse caso. Ninguém exige ela de mim.

Tenho o privilégio de poder manter essas ideias e valores contraditórios na minha cabeça, de me maravilhar como, no mundo atual, até os eventos mais corriqueiros adquirem toda uma complexidade e deixar a árdua tarefa de se posicionar a um juiz.

* * *

Essa necessidade de compartilhar nossa opinião sobre tudo, de jogar figuras públicas na fogueira ao primeiro sinal de deslize e de julgar em segundos a Verdade (com V maiúsculo) de um evento qualquer me parece ser consequência de um impulso da vida moderna.

Corremos tanto e tomamos tantas decisões diariamente que muitas vezes o caminho mais fácil é passar mais um veredito. Não paramos para nos questionar se alguém realmente se beneficia da nossa opinião.

Mas você tem outra opção.

Na próxima vez que um assunto polêmico surgir e você sentir este impulso, pode respirar fundo e exercitar a empatia. Qual é a experiência de vida desta pessoa que justifica seu comportamento? O que há de verdadeiro em seu ponto de vista? Qual ideia que ela traz que posso acrescentar a minha vida?

Faça perguntas! Saia do seu mundo e mergulhe no dela.

Abra o diálogo em vez de fechá-lo com suas certezas. Reconheça pontos de concordância antes das divergências, porque são eles que mantêm a conversa viva.

E no final, decida. Será que eu preciso dar a minha opinião?


publicado em 01 de Setembro de 2016, 17:50
Avatareduardo

Eduardo Estellita

Inquieto cidadão do mundo. Conecto seres-humanos à autoconsciência, empatia e colaboração em ambientes de alta diversidade. Fundador da genYus @work e do LeadNow! Brasil, programa de liderança para jovens. Organizador do TEDxLouvainLaNeuve.


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