Meu amigo vai ser pai e eu sou um péssimo amigo de pais | Cotidiano #6

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Mesa cheia, a melhor banca do bar todo. Quatro, talvez cinco, meia dúzia de assuntos se misturando, atravessando a cachaça respingada, pulando os restos de pasteizinhos. O pessoal fala alto -- como haveria de ser na birosca --  e foi preciso um ataque cirúrgico pra que a afirmação chegasse a todos os ouvintes.

-- Vou ser pai.

 

 

 

 

 

Primeiro, esse espaço de tempo num vazio sonoro. Cabeças se viram, pupilas se dilatam, o sangue é injetado com mais potência. O  riso da piada quase pronta sai sem que o cérebro tenha tempo de se controlar e saber se trata mesmo de broma ou não. Impávido, o amigo sustenta a certeza e o que poderia ser graça agora é comoção. As pessoas se levantam, os berros agora são focados, "traz mais uma rodada pra todo mundo, garçom!", abraços e sorrisos e provocações de quem será o próximo, de como será -- agora -- a vida do novo papai.

Menos o Jader, que continua travado em sua cadeira sem saber o que dizer.

Foi assim nessa última semana, foi assim há uns 2 anos, quando outro amigo chegou e botou na mesa uma meia de bebê e um potinho de papinha pronta. Oito segundos até ligar os pontos meia-papa-Nicholas-Tati, porra!

Pudera, não seria de outro jeito. Meus amigos não têm filhos. Não porque não querem -- alguns sim, mas não é o caso -- ou porque são espertos demais e não cometem cagadas -- cometem sim, aos montes --, mas apenas porque não aconteceu. Não acontecia. Agora acontece. Vem acontecendo.

Esses são os dois casos mais próximos, claro, tem gente da minha idade que mantenho contato que estão  aí, formando famílias. Nessas duas histórias, mais especificamente, tô falando de gente querida, de pais que eu iria acudir na madrugada. Por isso o choque inicial. Já tive essa conversa com o amigo Ismael, sobre ele querer ter filhos e eu ter o mesmo desejo. Sempre penso em planejamentos e ele quer entregar pra deus. A teoria é a de que nossos pais tiveram filhos com metade ou menos do que temos hoje e -- reza a lenda -- deu certo. O problema da molecada que pode ter filhos hoje é assumir se quer ou não arriscar o padrão atual de vida pra levar adiante a cria de mais uma prole.

Ele deve ter, lá, sua razão.

Eu sinto medo e inveja, matuto na cabeça as contas, o que vem depois do que, como pode mudar, como pode não mudar, o que poderia mudar. Começo a achar que a probabilidade de dar errado é bem grande e que o processo de aprendizado e ensino não vai acabar nunca e desconfio da competência de qualquer um conseguir por tanto tempo se colocar na arte de criar. Lembro de ver os pais cansados nos primeiros meses, as mães em pé de guerra com o corpo, ambos com a difícil tarefa de desapegar para voltar ao trabalho, todo o fardo.

Fico sempre com muito receio de parecer peso morto, outro fardo, o tio chato que fica buzinando, aquele que fica por cima do ombro repetindo "isso vai dar merda" e, quando cai, quando quebra, quando transborda e suja, diz "eu avisei". Até porque não é nada disso. Minha ansiedade e meus traumas não podem servir de aviso. Dou uma afastada inicial pra deixar a coisa correr, meu equilíbrio retornar e que meus préstimos sejam, de fato úteis.

Aí começa a me vir na cabeça a maozinha curiosa, os pés gordos, a gargalhada, os primeiros tudo, a cara do pai, hoje, com a criança já meio crescidinha, o sossego, a certeza. A necessidade da lucidez, a habilidade de cuidar, de nutrir, de botar música boa pro fedelho escutar, a mansidão adquirida diante do adolescente que acha que sabe mais que o adulto, o nocaute orgulhoso do velho que foi, finalmente, superado pelo filho.

É a noção, enfim, da esperteza de Louir Armstrong que, em "What a Wonderful World", se rende em I hear babies cry, I watch them grow, they'll learn much more, than I'll never know (algo como "eu escuto as crianças chorando, as vejo crescer e elas vão aprender muito mais do que eu jamais saberei").

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Lembrei que fui embora sem dar um abraço no amigo que vai ser pai. Hoje, minha maior ansiedade é a de encontrá-lo, colocar a alegria e o medo dele em volta dos meus braços e falar que vai ficar tudo bem. Porque confio nele.


publicado em 23 de Outubro de 2014, 22:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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