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Minha filha é transexual | ID #58

"Tenho medo do que ela pode sofrer na nossa sociedade preconceituosa e hipócrita."

"Tenho 42 anos, casei com uma mulher maravilhosa aos 23 e tive dois filhos incríveis depois dos 25. Alcancei a estabilidade financeira que tanto almejava e estou muito feliz com minha vida profissional. Meu casamento foi construído com muito companheirismo e hoje estamos plenamente satisfeitos em nosso relacionamento.

Mas, recentemente, algo abalou minha segurança: minha filha (que antes eu enxergava como filho) se assumiu transexual.

Depois do baque inicial, depois de inúmeras conversas com minha esposa e de muito refletir sobre o assunto, cheguei à conclusão que a aceito, a amo, e, apesar de tudo, sempre a apoiarei.

Porém, tenho medo do que ela pode sofrer em nossa sociedade preconceituosa e hipócrita.

De uma hora para outra as coisas tomaram uma nova forma: eu comecei a reparar em comentários preconceituosos dos meus amigos, a perceber discursos de ódio de parentes, a enxergar todos os perigosos que podem colocar minha filha em risco.

Fiquei extremamente pessimista.

Talvez por não enxergar dificuldades significativas em minha vida, eu vivia numa bolha de otimismo. Agora tudo parece ameaçador. Sinto que todos estão contra nós (porque também já fui hostilizado por defender minha filha). 

Não durmo bem, o sexo com minha esposa perdeu qualidade, estou sempre preocupado... Meu maior desejo é o de voltar a ser feliz, pleno e satisfeito, mas acho que não conseguirei.

Pai Orgulhoso"
 
Sabe, Pai Orgulhoso, não queria me deter em falar sobre a transexualidade de sua filha. Ela nasceu biologicamente homem, sente-se como uma garota e quer deixar isso evidente em todos os aspectos. Isso é lindo, cada um poder morar na casa que se sente confortável, mesmo que para isso precise mudar a fachada.

Os tipos de preconceito

Porém, sabemos, o preconceito é terrível e parte de uma mistura de ignorância, medo, arrogância e ódio. Em cada preconceituoso um ou mais desses elementos podem se sobressair e é importante você entender que nem todos os preconceitos surgem da mesma fonte e, portanto, temos maneiras diferentes de enfrentá-los.

O preconceito de ignorância é aquele que temos ao nos deparar com alguma tecnologia nova e temos medo de que ela possa nos engolir, dominar e nos tornar insignificantes. Esse tipo de preconceito a informação pode começar a combater e, nesse sentido, algumas pessoas estão, sim, dispostas a entender, ouvir e se transformar.

Quando vem do medo, o preconceito guarda algo de pessimista, como se o objeto do medo pudesse destruir algo significativo que apreciamos, como se fosse contaminar nossas certezas de ambiguidade. Nesse caso, a informação também precisa vir associada de proximidade amistosa, do tipo que permite comprovar que o medo é infundado e que há um ser humano por trás da ameaça potencial.

Se a arrogância for a fonte do preconceito, o processo começa a ficar mais trabalhoso, pois quem se sente superior aos outros passará uma vida toda resguardando as próprias fragilidades numa couraça de certezas e autoengrandecimento. Às vezes, a velhice traz uma boa revisão dessas posturas, outras as doenças e em muitos casos o abandono, a perspectiva da morte sempre é cúmplice de boas reflexões. Alguns casos são irreversíveis, outros mesmo tardiamente revisitam velhos hábitos, cada um ao seu tempo.
 
Quando é o ódio que veicula o preconceito, ele visa simplesmente destruir e neutralizar seu alvo. Nesse caso, é preciso lei, apoio comunitário, mobilização de redes de pessoas para que ele seja desencorajado e faça os arrogantes e medrosos perceberem que a escalada do preconceito tem um limite. Não raro a impunidade transforma os covardes e prepotentes em violentos e a defesa não-violenta, mas ativa e vigorosa podem dar conta do ódio, que em última instância é a cronificação de uma vida desesperada e sem rumo.

Sobre lidar com o preconceito

Jamie Clayton, atriz transexual protagonista de Sense 8

Sua filha vai lidar com o preconceito dependendo do jeito que você também lidar. Por enquanto você ainda diz que “apesar de tudo sempre a apoiarei”, vai chegar o momento que esse “apesar” vai deixar sua fala e isso a ajudará também. 

Essa luta é um aprendizado para todos e não há resposta absoluta para cada investida externa.

É muito fácil pegarmos as projeções de família perfeita que os outros fazem e querer materializar a tranquilidade e previsibilidade que elas precisam. É aí que você se sente triste e impotente: por desapontar a fantasia alheia.

Sua felicidade partia do pressuposto de que todos estavam bem ajustados. A verdade é que, no fundo, ninguém está ajustado o suficiente. Até quando parece estar tudo bem há um custo muito alto.

Sua filha não precisa viver tolhida dos seus sonhos e desejos, nem acreditar que todos a aceitarão sem trabalho e esclarecimento. Ela também não necessariamente vai sofrer com a condição dela, pois isso depende de mais coisas do que o simples ataque externo.

A equação ataque externo + transexualidade não é sinônimo de dor. Às vezes pode vir tristeza, medo, raiva, pois depende de como cada um lida com embates sociais. 

Sua filha, como toda pessoa que já foi alvo de preconceito, tem dois caminhos, se fechar em reatividade e dor ou usar a própria experiência para transformar o olhar das pessoas que a cercam, sem encarnar a heroína que supera tudo, mas sem perder a chance de educar explícita ou sutilmente os outros para realidades que elas desconhecem. Essa história pode ser fonte de criatividade, empatia, abertura, curiosidade, engajamento, propósito de vida, florescimento.

Esse caminho pode ser construído a muitas mãos, inclusive as suas. Ela não precisa de defesa, mas de empoderamento para defender a si mesma da maneira que for aprendendo a dar conta. E isso vem de vocês. Às vezes ela se defenderá contra-atacando (até aprender a navegar mais habilmente), outras se calando (para ganhar fôlego depois de alguma longa jornada), outras fazendo uma inception na mente dos outros e ampliando o olhar. Enfim, em cada fase da vida ela poderá descobrir o próprio caminho e aprender novas formas de lidar com a dificuldade dos outros de conviver com suas contradições internas.
 
Nessa fase de transformação todos estão assustados e a melhor maneira de diminuir esse estresse familiar é vocês mesmos se apoiarem, procurar ajuda de grupos engajados nesses debates e fazer um trabalho corpo a corpo com os familiares. Ao final, ninguém pode garantir que aceitarão incondicionalmente sua filha, mas com o tempo isso pode abrir espaço para mais abertura e afetuosidade.

O caminho é muito longo para que o mundo em que vivemos siga para além das dimensões restritas de gênero, mas é a partir de um caso aqui e acolá que as chances aumentam de melhoras para mais gente.

* * *

Nota: a coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas). É apenas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão ampla, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta, leia as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa. Se ainda assim considerar sua dúvida benéfica, envie para id@papodehomem.com.br. A casa agradece.


publicado em 12 de Maio de 2016, 00:05
File

Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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