Monte um grupo de acolhimento para homens no Whatsapp | Ignição #18

Para além dos memes e mensagens de bom dia, será possível usar o Whatsapp para efetivamente nos sentirmos menos sós?

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Olá, pessoal, cá estamos de volta, na Ignição, a mais querida coluna semanal do Papo de Homem (sim, eu sei que sou suspeito). ;)

Como este é o Ignição mais longo que já publicamos, não vou me alongar na introdução. Vamos à prática.

Monte um grupo de acolhimento para homens no Whatsapp

Anos atrás, o Papo de Homem tinha um espaço de florescimento humano voltado para homens que chamávamos de Cabana. Quando o finalizamos surgiu algum tempo depois um grupo de Whatsapp que agora é chamado de #1987.

Hoje, é um grupo com uma dinâmica interessantíssima. Há muitas conversas profundas, trocas de experiências e, principalmente, acolhimento. Não é raro alguém ali relatar que abriu uma questão para o grupo e isso deu forças para enfrentar a questão, aprender e, assim, passar por aquela situação de maneira menos aflitiva.

Aqui mesmo nas caixas de comentários do PdH, viemos ouvindo falar com uma frequência cada vez maior sobre grupos de Whatsapp que vem surgindo para aprofundar discussões e também para praticar conversas que trazemos aqui mesmo na coluna Ignição.

Então, esses dias, me ocorreu que essa, em si mesma, seria uma ótima prática: criar grupos de Whatsapp para ter conversas mais lúcidas sobre diversos temas.

Porém, ao mesmo tempo, andei pensando nos diversos obstáculos que também surgem em meio a isso. É uma tarefa muito mais complexa do que parece. O contato digital tende a nos fazer mais ansiosos, a desumanizar as outras pessoas que estão na conversa ou até mesmo, fazem com que as conversas fiquem mais superficiais, uma troca constante de memes, piadas e fake news.

Assim, depois de uma conversa com o Guilherme, resolvemos refinar a proposta de um grupo para algo mais factível e com uma proposta bem clara, algo que possa agir em problemas como a solidão, a dificuldade de expressão de emoções e de busca de apoio, problemas bastante típicos de homens: a criação de grupos de Whatsapp de acolhimento para homens.

Como esse não é um tema tão fácil, vou listar aqui alguns pontos principais e recomendar leituras adicionais, além de deixar um exemplo de mensagem introdutória, que clarifique os propósitos e sirvam como guia.

1. Linguagem compartilhada

Um dos primeiros obstáculos é a criação de uma linguagem compartilhada. Um terreno comum, algo que se não puder garantir, ao menos reduza desentendimentos e atritos.

Precisamos lembrar que cada pessoa é um universo. Não é porque ela se interessou pelo grupo que ela automaticamente entra na mesma frequência. Portanto, é essencial que haja clareza na forma como se comunica ali dentro.

Por exemplo, no nosso grupinho no #1987 há um constante cuidado para não entrarmos em uma frequência de descuido. Portanto, sempre que notamos que alguém passou por algo importante e o grupo não agiu ou não prestou atenção, avaliamos o que poderíamos ter feito para melhor acolher. Isso inclui melhores formas de falar e se posicionar. É uma pergunta bem complexa e um tema sensível, mas só de prestar atenção, com o tempo o grupo passa a se expressar de maneira mais precisa e as coisas vão fazendo mais sentido.

Particularmente, recomendo como guia a cartilha de Comunicação Não-Violenta. É um bom começo, expressar-se em primeira pessoa, tomando o cuidado de incluir a dimensão emocional.

No nosso artigo sobre como articular grupos presenciais de homens também há várias dicas sobre isso que vale ver.

2. O que é acolhimento e como se acolhe

É algo que me inquieta e tento pensar diariamente nisso: o que fazer quando alguém me conta algo? Como dar importância sem reificar a crise? Como acolher sem enfraquecer? Como criticar alguma postura prejudicial da pessoa sem soar agressivo ou julgador? Aliás, como julgar menos, ser menos arrogante, menos professorzão?

De novo, não é simples.

Por motivos de espaço não posso me aprofundar como a questão pede, mas aqui alguns itens resumidíssimos pra guiar.

2.1. Ouça, ouça, ouça. Quando achar que ouviu o bastante, ouça um pouco mais. Ouvir não é uma habilidade natural. É bem mais que processar sons ou palavras.

2.1. Veja o outro no mundo dele. Ou seja, evite julgamentos apressados, frases clichês, lugares comuns e oferecer soluções rápidas segundo suas crenças pessoais. Às vezes, o que funciona pra você não vai funcionar pra ele.

2.3. Tente ouvir além das palavras: o que aquela pessoa está sentindo? Raiva? Medo? Ciúme? Como ela escreve? Está apressada? Está chorando? Está sorrindo nervosa? Disfarça a sua própria dor?

2.4. Evite oferecer conselhos e chavões. Se você já tem uma frase pronta, vale se perguntar se você está tentando ajudar ou só se livrar da aflição de ver alguém sofrendo na sua frente. Isso não é sobre você. Isso significa se omitir? De jeito nenhum. Apenas respire, não ceda à pressa e ajude com o que você tem de melhor.

2.5. Ao expressar o que pensa, tente ser menos violento. Muitos conselhos que tentamos oferecer não passam de agressões veladas e pioram o problema. Pode ser bom investigar um pouco sobre CNV a fim de evitar soltar essas farpas sem querer.

E aqui, alguns links:

3. Contato presencial quando possível

Um dos motivos pelos quais o #1987 funciona muito bem, na minha opinião, é o fato de haver encontros presenciais volta e meia. Há uma conexão que se torna muito mais forte e viva quando os presentes se encontram.

Não recomendo que o grupo exista apenas na possibilidade de todos se conhecerem presencialmente (sabemos como é difícil), mas é bom que esse contato exista em alguma medida, pois isso cria um respeito, uma certa reverência a quem está lá e ao próprio espaço de diálogo. 

Pra ter uma noção de como isso importa ali no #1987, caras do Brasil inteiro criam espaço na agenda e se deslocam para se encontrarem mais de uma vez por ano. E sempre que isso acontece, o grupo se foralece muito. É nítido.

Encontro do #1987 no Quiriri.

4. Cuidado constante pra não descambar

Nem preciso ir longe. Basta ver como muitos grupos que costumam ser mais soltos e tem pessoas ali bastante desconectadas entre si acabam se tornando uma fonte de memes, trocas de farpas ou mensagens absolutamente vazias.

É essencial haver a liberdade de exercer críticas saudáveis ao grupo, com a finalidade de melhorar as dinâmicas que ali se estabelecem.

Isso não quer dizer, claro, engessar e tornar o grupo algo chato, cansativo, pesado. É bom brincar, ser leve, comemorar. 

Só vale o cuidado de não deixar a coisa descambar e a possibilidade de uma conexão mais profunda acabar se esvaziando.

Recomendo evitar fala inútil. Exemplos: dar bom dia sem necessidade, correntes e memes desconexos e/ou tópicos polêmicos de maneira gratuita. 

Aqui um artigo bem útil sobre como fazer críticas, caso seja preciso. 

5. Ter clareza sobre o propósito do grupo

Com isso, de novo, não quero dizer pra engessar e bancar o policial. São pessoas ali dentro e eventualmente elas vão conversar sobre assuntos não relacionados.

Ainda assim, é importante ter clareza e reafirmar sempre que possível o porquê de vocês terem se reunido.

Recomendo ter sempre ao alcance do copiar/colar uma mensagem de boas vindas com as boas práticas do grupo.

Vou deixar aqui um exemplinho, como ponto de partida pra vocês usarem nos grupos de vocês.

"Olá, fulano!

Seja bem vindo ao grupo!

Esse é um grupo de acolhimento para homens. Estamos aqui pois gostaríamos de ter conversas mais profundas sobre as questões e desafios da vida que muitas vezes não conseguimos ter no cotidiano, seja em casa ou na mesa de bar.

Temos o compromisso de ouvir e dialogar da forma mais sincera e respeitosa quanto for possível, mas de vez em quando também brincamos e conversamos sobre assuntos mais leves.

Aqui as regras:

1. Não seja rude

2. Quando alguém contar algo, ouça, pergunte, seja curioso.

3. Evite dar conselhos por meio de chavões.

4. Relate em primeira pessoa sua experiência com o problema/questão do outro.

5. Se tiver alguma crítica, certifique-se de ter entendido o ponto do outro. Pergunte, não saia apontando o dedo. 'O que exatamente você quis dizer com X?'

6. Evite memes desconexos, polêmica gratuita ou outras formas de distração.

Espero que o grupo seja tão útil pra você quanto é pra nós."

* * *

Juro que tentei manter a questão tão resumida e curta quanto possível, mas realmente vejo a questão de grupos e comunidades como algo bastante complexo. Certamente cometi omissões pecaminosas, mas o espaço acaba sendo curto pra esmiuçar cada detalhe.

Ainda assim, acho que há bastante a se aprofundar nas caixas de comentários. Fico curioso também pra ouvir como tem sido as experiências de vocês nos grupos que têm mantido, derivados da Ignição.

Me contem aqui nos comentários e vamos conversando. Vamos atualizando esse artigo e tornar ele um item de utilidade pública. ;)

Abraço e até quarta que vem!

* * *

O que é a coluna Ignição?

Resumindo: queremos iniciar processos de transformação por meio de ações práticas.

Aqui no Papo de Homem temos trocentos textos filosofentos falando de tudo. Agora, vamos pra outra abordagem.

Menos papo, mais ação.

Você está perdido e não sabe o que fazer da vida? 

Aqui vamos oferecer um ponto de partida, ações simples que você possa usar como um aquecimento, que coloque seus "músculos" no ponto para você gradativamente começar a lidar com seus problemas de frente.

Como funciona?

Toda semana vamos sugerir ações práticas acessíveis, para que você possa sair da inércia.

Depois, pedimos que venham aqui no artigo e relatem, em detalhes, como foi a experiência. Vale qualquer coisa, inclusive e principalmente, se der tudo errado, pois é nessas horas que a gente precisa de apoio e a coisa de termos uma comunidade mais vai fazer sentido. Nos colocando em movimento vamos começar a descobrir irmãos, amigos, enfim, parceiros de transformação.

Com o tempo, vamos cultivar uma rede de parceiros, dispostos a transformar suas vidas e também conversarem sobre o processo todo como uma forma de se incentivarem e se apoiarem. 

A Ignição é incrível, onde encontro os experimentos anteriores?

Muito fácil! Basta entrar na coleção Ignição.

Já conhece o ebook "As 25 maiores crises dos homens — e como superá-las", produzido pelo PdH?

 

publicado em 19 de Setembro de 2018, 22:48
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Luciano Ribeiro

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Instagram.


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