Não consigo demonstrar carinho e afeto | ID #20

Bom dia, Fred
Sou leitor do PdH há algum tempo, mas só agora criei coragem para escrever e gostaria de compartilhar um pouco de mim, pois acredito que existam vários homens na mesma situação.
Tenho 26 anos, moro com meus pais, trabalho, faço faculdade, tenho meu carro, minha casa, mas falta algo ou alguém. Não sou nem um pouco bom em me relacionar com pessoas do sexo oposto, principalmente quando esse relacionamento tende a ir para um lado afetivo mais íntimo. Não consigo abraçar as pessoas, nem demonstrar afeto, mesmo que sinta e queira.
Há algum tempo venho refletindo sobre isso e cheguei à conclusão (ou criei) que esse meu comportamento é consequência da criação. Não lembro sequer de uma única vez que meus pais dissessem que me amavam, embora tenha certeza disso. Tenho uma irmã que tem quase a minha idade e sempre tivemos um relacionamento ortodoxo, sem muitas demonstrações de afeto. Nossas conversas são sempre casuais.
Na faculdade tenho conseguido me soltar um pouco mais. O fato de me dedicar e ir bem em algumas matérias é um excelente impulso para me aproximar das pessoas, inclusive de mulheres  mas se vejo que esta aparecendo algum interesse de um dos lados pronto. Travo!
Há algum tempo, mais especificamente há um ano tenho amadurecido a ideia de morar sozinho, com objetivo de me soltar um pouco mais, de crescer e amadurecer. Tenho insegurança, claro, diante dessa perspectiva, por estar muito esperançoso. Condições financeiras de bancar até que tenho. Não sei essa seria a coisa certa a se fazer se é que exista coisa “certa”.
Desde já agradeço.
Abraço.

Olá, meu caro,

Que bom que pôde se abrir, pois no caso das pessoas que se percebem com emoções bloqueadas até um pedido de ajuda é sofrível.

O benefício de morar sozinho

"Há um ano tenho amadurecido a ideia de morar sozinho com objetivo de me soltar um pouco mais"

Sair da casa dos pais incide em imensos benefícios, mas o mais desafiador é tirar os resquícios psicológicos dos pais criados em sua mente.

Deixar para trás a escravidão por conforto e condições ideais são apenas algumas das vantagens em pagar as suas contas, se virar com o resultado de suas forças e assumir um espaço no qual se configure com seu estilo de vida.

Amor dos bróders
amordosbróders

Notará que reproduz muitas regras que repudiou nos seus pais, que talvez se torne um autoritário às avessas, daqueles que brigam como abutres pelo direito de liberdade a tal ponto que se tornam tirânicos com os outros e até subversivos sem causa pelo puro suposto direito de fazer o que bem "entende".

Recomendaria que colocasse num papel aquilo que realmente quer construir para a sua vida. Faça um levantamento dos valores que o mobilizam, imagine um planeta que seguirá suas regras e escreva a legislação desse lugar. Isso o ajudará a dar formato para seu novo jeito de ser.

A diferença entre querer e conseguir

"Não consigo abraçar as pessoas, nem demonstrar afeto, mesmo que sinta e queira"

Usamos o verbo "conseguir" com certa frequência, mas sem entender a decorrência filosófica disso.

Conseguir é viabilizar algo possível e praticável. Ao afirmar que não consegue abraçar as pessoas, o que está dizendo é que sente um conjunto de forças internas que o impedem de abraçar, mas tecnicamente, você pode abraçá-las a qualquer momento.

O que ocorre de fato é que você, por inúmeros condicionamentos e micro-escolhas nem sempre perceptíveis, escolheu recuar. Foram escolhas suas, às vezes quase involuntárias, mais ainda assim suas. Você consegue abraçar quem quiser assim que deliberar insistir e brigar com suas próprias restrições e agir.

Para isso, precisará superar três impasses internos:


  • Admitir a vulnerabilidade de precisar de afeto;

  • Se submeter ao outro, já que abraçar é anunciar que dependente do gesto de alguém e sua apreciação;

  • Lidar com o medo de aceitação ou rejeição e a potencial subsequente ferida narcísica.

O que você não desenvolveu é a habilidade de administrar esses receios, logo diz que não consegue, isso mudará quando treinar exaustivamente lidar com sua vulnerabilidade, dependência e medo.

Você quer querer abraçar as pessoas, mas ainda não quer o suficiente para enfrentar esses receios.

O mito da criação dos pais

"Esse meu comportamento é consequência da criação"

Existem 3 fatores que determinam a maneira como agimos: a genética, o contexto e a maneira como reagimos à esses influxos inatos e sociais.

A psicanálise difundiu no começo dos anos 1900 a mentalidade causalista, de que éramos quase determinados por eventos da infância que moldavam nossa maneira de agir por toda uma vida. Seríamos escravos de nossa biografia e incapazes de viver uma existência alternativa àquela que nossos pais nos criaram.

De outro lado as neurociências e os estudos genéticos comprovaram que apesar da importância do contexto e da aprendizagem social, havia algum tipo de predisposição químico-cerebral que não poderia ser subestimada.

Isso quer dizer que não somos uma página em branco ao nascer, mas também não determinados exclusivamente pelo meio.

Viktor Frankl, psicólogo judeu sobrevivente de campos de concentração nazista, difundiu na década de 50 a logoterapia (terapia do sentido da vida). Essa abordagem ressalta que é aquilo que fazemos com as determinações do ambiente que definem o que chamamos de humano. Seria essa brecha entre o biológico e o social que nasceria a escolha. Escolhemos entre uma série de variáveis, mas ainda assim escolhemos.

pai
"Meu pai nunca me levou pra pescar"

Sartre, filósofo francês, também fez uma afirmativa significativa:

"O importante não é o que fizeram de mim, e sim o que eu faço do que fizeram de mim."

Isso devolve a responsabilidade para cada pessoa sobre suas ações. No seu caso, existe um abismo entre o seu hábito de agir friamente e aquele de ser mais caloroso e tátil, então é sua hora de agir e superar o orgulho subjacente.

O efeito da frieza dos pais

"Não me lembro de sequer de uma única vez que meus pais dissessem que me amava embora tenha certeza disso"

Até os vinte e três anos ,me ressenti de uma aparente frieza da minha mãe em relação aos abraços e beijos. Parecia uma certa rejeição que eu não compreendia, pois de outro lado ela era muito prestativa e atenta nos meus comportamentos.

Depois de anos de fechamento, resolvi questioná-la pelos motivos e descrevi as cenas que me vinham à memória. Veio a bomba.

"Quando você tinha cinco anos, tive um problema de saúde e, como sabe tirei um dos rins, mas os médicos me deram cinco anos de vida pela frente. Entrei em desespero e pensei que o mais adequado seria que você se apegasse no seu pai, que sobreviveria, enquanto eu me encaminhava pela despedida."

Chorei como uma criança, pois minha mãe completou setenta anos e meu pai morreu quando eu tinha dezoito. Me dei conta que minha mãe seguiu uma linha de raciocínio para me proteger e que também tinha seus medos.

Os pais são apenas crianças crescidas que pariram seus filhos. Logo, são passíveis de todos os bloqueios e ressentimentos, tanto quanto você.

Essa aparente rejeição cria uma dupla camada de sentimentos na criança, a primeira é de raiva pela recusa e a segunda é de não-merecimento e inadequação pessoal.

Desmontar essa raiva é o primeiro passo para diluí-la e assumir a tristeza original pela perda do afeto. Ao lidar com a tristeza podemos encarar a profunda vulnerabilidade e necessidade de afeto que estaria ocultada por um comportamento durão e impassível.

Não conheço uma pessoa que ache ter recebido amor e atenção suficiente. Somos vorazes e pouco compreensivos com as inúmeras variáveis presentes na criação dos filhos.

O fato de não ter recebido afeto não leva à conclusão de que não tenha méritos ou não seja digno de amor. Como adulto você mesmo pode buscar o amor que necessita, ainda que não tenha recebido o que considera suficiente.

Aprender a lidar com a ausência de amor exclusivo é uma das tarefas do amadurecimento emocional. Você não é e nunca foi único nessa teia de relações da vida. Ser parte do todo não é demérito e se aceitar isso poderá lidar com essa inadequação de quem busca um tipo de tratamento especial e consideração VIP por parte dos outros.

Dicas úteis:


  • Comece se aproximando fisicamente das pessoas;

  • Desenvolva o hábito de olhar nos olhos;

  • Avance para pequenos toques, nas mãos e nos braços;

  • Arrisque abraços mais demorados e depois cumprimente com beijos no rosto;

  • Faça testes em animais de estimação e acaricie o quanto quiser, depois vá gradualmente tentando com pessoas de confiança;

  • Levante pontos positivos das pessoas para terceiros, depois para a própria pessoa e depois faça elogios completos;

  • Se exercitar com as pessoas de modo geral, as garotas serão consequências naturais desse processo, afinal, elas tem os mesmos desejos e receios humanos que você.

Nota importante: A coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas), mas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão livre, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta olhe as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa e se mesmo assim achar que ela beneficiará outras pessoas envie para id@papodehomem.com.br


publicado em 02 de Dezembro de 2013, 08:07
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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