Não me importa quem diabos é o autor

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Li em algum lugar:

"Grandes pessoas conversam sobre ideias, pessoas médias conversam sobre fatos, e pequenas pessoas conversam sobre pessoas".

Discutirei hoje ideias que possivelmente pertencem a algum figurão... um filósofo, um jornalista, um político, Ghandi. Eu poderia procurar a origem disso, mas o ponto é: é importante pro desenvolvimento da minha ideia que a autoria não tenha importância.

Enquanto discutia com uma amiga sobre todo tipo de assunto sobre os quais o senso comum diz que não se deve discutir, (e nossos mais queridinhos são os infames "futebol, política e religião"), ela se irrita:

"Eu tenho minha opinião, mas quem se importa? Quem dá crédito a ela? E nem deve ter crédito... afinal, sou uma menina de dezenove anos que não sabe de nada".

Ela dizia isso sem ironia, sem sarcasmo. Realmente considerava a opinião dela pouco relevante, pela falta de credenciais.

Mas não me interessa quem ela é.

"Por trás dessa máscara há mais que carne. Por trás dessa máscara existe uma ideia, Sr. Creed... e ideias são a prova de bala" (V.)

A ideia é muito maior que ela, eu, ou qualquer um de nós. A ideia tem valor próprio e, depois de expressada, não pode ser contida pelo criador. As redações dos vestibulares chegam anônimas aos corretores. Não interessa quem é o aluno, de que colégio veio. A dialética e a habilidade de argumentar e defender a opinião sobre o assunto reinam. Os grandes pensamentos vivem além de seus progenitores.

E o PapodeHomem? Todos vocês nos leem e concordam, discordam, debatem os textos. Que autoridade tem qualquer um dos escritores para se expressar aqui, senão suas vivências pessoais? Faltaria a algum deles um diploma?

Vivemos num tempo desesperado pela autoria.

Luis Fernando Veríssimo deve ter escrito um terço dos textos e frases publicados na internet com seu nome e todos são envolvidos por um ar de sabedoria. Música ruim é vendida pelo sucesso estrondoso do disco anterior. Continuações medonhas lucram milhões no cinema às custas do sangue azul da película original.

Na academia, um trabalho ou descoberta científica não está menos correto por ter sido feito pelo estagiário, nem é inquestionável por ter apoio do reitor.

Conhecemos os autores e temos expectativas sobre eles. Compreendo a decepção profunda de se assistir a um filme ruim de um grande diretor, como Tim Burton, David Fincher ou Pedro Almodóvar. Mas ele vale alguma coisa mais (ou menos, vale notar) pelas credenciais passadas de seus diretores? O gol de bicicleta na final do campeonato tem menos valor por ter vindo do jogador reserva? Memórias Póstumas de Brás Cubas teria menor valor literário se encontrado manuscrito, sem assinatura, numa caixa de correio?

Obviedades ditas com postura - por Pedro Bial, suponha-se - são mais verdadeiras?

Proponho como exercício:


  • Leia, sem conhecer o escritor

  • Ouça, a canção do compositor que não conhece

  • Assista, o filme sem ler o nome do diretor ou mesmo não sabendo qual filme é

  • Analise ideias sem dar porra nenhuma de importância a seus autores



Em que medida cada um se sobrepõe: o dito, a imagem e a tal da assinatura?


Quem diabos sou eu pra achar que posso dizer isso tudo?

Ninguém, naturalmente.


publicado em 18 de Julho de 2012, 15:48
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Luccas Franklin

Franklin tem 23 anos, é aspirante a jornalista, fotógrafo, e jogador de pôquer, mas escreve pouco, considera suas fotos medianas, e não ganha no pôquer mais do que dinheiro de pinga. Considera videogame uma coisa muito séria, e vive atrasado uns cinco anos em relação ao mundo.


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