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Não minta para seu filho

Constantemente presencio pais “chantageando” seus filhos para conseguir que as crianças façam o que eles querem. Eu mesmo já fiz isso algumas vezes.

“Filho, se você não for tomar banho agora, não vai brincar depois”;

“Se não escovar os dentes, não vai passear”;

“Se você não levantar agora para ir pra escola, vai ficar sozinho em casa”;

“Se você não obedecer a mamãe, vai ficar de castigo”.

As vezes ainda cometo erros assim, mas já faz tempo que me policio em relação a este tipo de comportamento. Gradativamente, tenho obtido bons resultados em relação à educação do meu filho.

Muitos pais não percebem, mas estão ensinando seus filhos a fazer uma coisa esperando algo em troca. E isto não é bom.

O mais grave, na minha opinião, não é a “chantagem” em si, mas o fato de você não cumprir a “ameaça”. O ideal é você não utilizar este método para conseguir que seu filho realize as tarefas que deve fazer.

Uma vez que ele percebe (e percebe) que você fala essas coisas apenas para conseguir que algo que você quer seja feito, vai começar a não te levar a sério. Isso faz com que seu esforço seja cada vez maior e cada vez menos eficaz.

Mais grave ainda é que, a partir de uma certa idade, seu filho também vai começar a te ”chantagear” para conseguir o que quer. Ou seja, você ensinou ele a não acreditar nas suas “ameaças” e ensinou ele a te ameaçar quando você não fizer o que ele quer. 

“Ameaças” não cumpridas são mentiras. E mentiras são ruins para a educação de uma criança.

Veja o seguinte exemplo: você sai para viajar com seu marido (ou esposa) e seu filho de 4 anos (poderia ser uma  criança de qualquer outra idade) para visitar os avós, que moram em outro estado. A viagem deve durar em torno de 6 horas.

Durante o caminho, seu filho, impaciente, sentado na cadeirinha e “amarrado” pelo cinto de segurança, pergunta: “Pai, falta muito pra gente chegar?” e você responde: “Não filho, falta pouco. Estamos quase chegando”. Porém, vocês ainda estão na metade do caminho e você disse isso porque já é a quarta vez que seu filho pergunta. Em outras palavras, você mentiu para fazer seu filho não perguntar mais “quanto tempo falta, papai?”.

Querendo você ou não, seu filho (a partir de uma certa idade) já tem noção de tempo e espaço. Por isso, ele também vai começar a entender que a informação que você passou não é verdadeira; pronto, menos 1 ponto para você.

Ao invés de tentar fazer com que seu filho não repita a mesma pergunta várias vezes, tento induzi-lo a fazer perguntas diferentes ao longo do percurso, ensinando coisas novas a ele como, por exemplo, interpretar as placas de trânsito, os sinais de troca de direção que os veículos emitem, as faixas de divisão de pistas, as marcas e modelos dos outros carros, o nome das cidades e bairros que vocês atravessarem, as partes internas do seu carro, entre outras coisas. Isso fará com ele desvie a atenção sobre o tempo e valorize outros aspectos da viagem. E o mais importante: você não vai precisar mentir sobre o quanto falta para chegar ao seu destino.

As armadilhas da “mentira” não param por aí. Vamos supor que vocês chegaram ao destino, ou seja, na casa dos avós do seu filho, dentro do previsto.

Chegando lá, vocês precisam tomar um bom banho, descansar um pouco e alimentar-se. Só que seu filho também está cansado, um tanto quanto irritado por ter ficado “preso” durante 6 horas dentro do carro (mesmo com as técnicas de aprendizado que citei acima), e decide não tomar banho, pois ele quer brincar e matar as saudades dos avós.

Mas você, como mãe ou pai, insiste que ele tome banho naquele momento, para ficar pronto para o jantar, pois já é tarde da noite.

Para tentar conseguir com que seu filho aceite o banho, você “ameaça”, dizendo que  “se não tomar banho, não vai ganhar os presentes que o avô comprou pra ele” ou “se tomar banho vai sair pra passear no shopping”.

Existem dois erros neste contexto: a “ameaça” e a “mentira”. 

Mesmo que cumpra suas “ameaças” caso ele não concorde em tomar banho, está, novamente, ensinando seu filho a realizar uma tarefa em troca de alguma coisa.

O problema não é exatamente realizar uma tarefa em troca de algo, mesmo porque, quando crescemos, nós geralmente trabalhamos em troca de uma remuneração ou algo parecido. O problema é transformar tarefas que não deveriam ser remuneradas em tarefas remuneradas, ou seja: “para tomar banho, eu ganho algo em troca”; “para escovar os dentes, eu ganho algo em troca”; “para estudar e tirar notas boas na escola, eu ganho algo em troca”.

Tente fazer seu filho entender que este tipo de tarefa não terá uma recompensa externa, que ele não ganhará (ou perderá) alguma coisa para executá-la. Tomar banho, escovar os dentes, estudar e tirar boas notas são tarefas que devem ser executadas para o benefício dele próprio: ele deve tomar banho para ficar limpo, cheiroso, saudável, para que as outras pessoas também gostem de ficar perto dele. Deve escovar os dentes para não ficar com cheiro ruim na boca, para não ficar banguela, para não ficar doente, para que as pessoas gostem de conversar com ele. Ele deve estudar e tirar notas boas para não ficar atrasado em relação aos coleguinhas, para ajudar outros alunos que tenham dificuldade de aprender, para conseguir um bom trabalho no futuro (ou criar uma empresa), para não se sentir desvalorizado, para ser feliz!

De certa forma, são argumentos apelativos, mas não são “mentiras” e nem “ameaças”. São apenas maneiras diferentes de você conseguir que seu filho faça as coisas que você considera boas para ele.

Mais uma coisa super importante: tente também não perguntar se o seu filho “quer” fazer estas tarefas, ou seja, ao invés de falar, “Filho, vamos tomar banho?”, “Filho, quer almoçar?”, “Filho, por que você não faz a tarefa agora?”, diga: “Filho, está na hora do seu banho, suas roupas já estão na cama. Assim que você terminar o banho, vamos jantar, fazer suas tarefas e, em seguida, assistir àquele filme que você tanto queria ver, ou, se preferir, podemos jogar aquele game que você gosta. Beijo filho, já estou quase terminando o jantar”. Algo deste tipo.

Desta maneira, ele não irá focar no banho “chato”, e sim no filme ou no game. O banho, jantar, tarefas, ao invés de serem obstáculos, agora são etapas.

E se, mesmo assim, ele não quiser tomar banho, você continua sua rotina normalmente e deixa claro que a sequência que você “sugeriu” são pré-requisitos para a diversão. Mas não “ameace”, apenas deixe claro que a escolha é dele. Se ele fizer o que você sugeriu, ele terá benefícios. Explique que estes “benefícios” não são recompensas pelas tarefas cumpridas, mas conquistas que ele mesmo alcançará por se esforçar na execução das tarefas.

Vou contar um breve relato: meu filho também enrola para tomar banho. Pior que isso era a enrolação para lavar o cabelo. Mesmo eu explicando como fazer para não arder os olhos, para ser rápido, ele chorava e demorava bastante, isso me irritava.

Resolvi usar uma estratégia diferente: ao invés de ficar tentando convencê-lo em fazer do jeito que eu ensinei, eu pedi pra ele me ensinar um jeito diferente. Foi aí que ele se empolgou e inventou um jeito novo, que não era o meu jeito (sem sucesso) e nem o dele (chorando e demorando). Ele se empolgou tanto em me ensinar, que esqueceu o medo dos olhos ardendo e também não fica mais enrolando embaixo do chuveiro.

Resultado: Sem irritação nos olhos, sem discussões, sem demora, sem estresse.

Se você está tentando lidar com uma situação e a maneira que você escolheu não dá o resultado esperado, mude, use a criatividade, chame a atenção do seu filho para coisas complementares à tarefa “chata” que ele não quer fazer. Faça ele enxergar além daquilo, ver os benefícios posteriores.

Lembre-se: não prometa coisas que não irá cumprir. Não ameace. Não minta. Não intimide. Não mande. Apenas convença de maneira inteligente e eficaz.


publicado em 30 de Novembro de 2016, 12:45
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Eder Cachoeira

É Empreendedor, empresário, professor, pai e ariano legítimo. Formado em Ciências da Computação e dono da Tecmedia, compartilha suas ideias no Facebook, Twitter e nesse site.


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