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Não moramos na Califórnia (ou as dificuldades do transporte alternativo)

Das "finas educativas" às ruas esburacadas, fatores a se levar em consideração

Era mais ou menos uma da tarde quando este pensamento surgiu pela primeira vez. Olhei para o céu e agradeci por já ter passado o verão. Dei mais duas remadas no meu skate e me afastei para o canto da pista.

Um Audi preto estava vindo em minha direção, acho que só queria me dar um susto, mas eu não quis pagar pra ver. Também não quero ser injusto com o Audi, carros de outras marcas também fizeram isso.

Pensei até em ir pela calçada, mas naquele trecho elas não existem. Às vezes não faz tanta diferença assim, já que em áreas com calçadas o fluxo de pessoas costuma ser alto demais para permitir a passagem de longboards ou bicicletas, você pode acabar machucando um pedestre.

Continuei remando por mais alguns metros, mas o asfalto mal feito e destruído não permitiam que minhas rodinhas de 64mm rolassem com eficiência. Continuei com medo dos carros que transitavam próximos a mim, mas agora eu andava com meu skate na mão.

Quando decidi que compraria um longboard para fazer a correria da rotina, nunca pensei que fosse tão perigoso assim. Na minha mente romantizada, as coisas seriam bem mais simples. Lembro de comentar com um amigo “Cara, vou comprar um longboard para ir trabalhar”. A resposta dele foi “Mano, você tá morando na Califórnia?”

Ele tinha razão, não moro na Califórnia.

Urbanização incompleta

Nossas cidades são uma vergonha em termos de urbanização. Em bairros centrais é comum encontrar calçadas e até ciclovias, mas a medida que nos aproximamos dos bairros mais afastados, o descaso com a mobilidade das pessoas é cada vez mais evidente.

Até mesmo em locais onde vemos estes cuidados sendo demonstrados, encontramos carros estacionados em ciclovias, construções e até instalações privadas como placas de propaganda dificultando a mobilidade.

Tenho como exemplo pessoal cidades maiores por onde vivi, mas imagino que em cidades menores a situação não deva ser melhor.

A pessoa que escolhe um transporte mais limpo acaba sendo impedida de seguir com seu plano. São tantos os transtornos em meio ao caos urbano que é impossível não entender a mensagem: a cidade quer que você ande de carro.

O Vlogger Casey Neistat recebeu uma multa em Nova Iorque por andar de bicicleta fora da ciclovia, então resolveu fazer um vídeo mostrando alguns motivos para os ciclistas não trafegarem somente nas faixas dedicadas:

Link Youtube

O perigo existe e não deve ser menosprezado

Sempre que alguém tenta fazer algo positivo, mas que vai contra o comportamento comum, algumas pessoas se sentem ofendidas.

Quando anunciei para alguns amigos que passaria 30 dias numa dieta vegana, recebi algumas reações de ódio que não poderia ter previsto. Por que deixar de consumir alimentos e produtos de origem animal - o que me parece uma atitude bastante nobre - deixou tantas pessoas irritadas?

O mesmo efeito pode ser observado entre motoristas. O ciclista solitário tentando colaborar com o meio ambiente e ganhar um pouco de saúde parece aflorar um ódio irracional em alguns motoristas. É como se, para o motorista, o ecochato estivesse escancarando sua preguiça, egoísmo e falta de preocupação com a natureza.

Qualquer um que utilize bicicleta para andar na cidade pode relatar uma “fina educativa”. Pior ainda, quando o ciclista reclama, normalmente é ameaçado pelo motorista. Nem mesmo os grandes ônibus parecem se importar com o risco que representam jogando seus veículo em cima de seres humanos desprotegidos.

As consequências dessas “brincadeiras” podem ser vistas semanalmente nos jornais.

Um problema cultural

A estrutura das cidades é hostil àqueles que tentam adotar uma forma alternativa de transporte.

Temos a cultura do automóvel enraizada na nossa população. Carros são vendidos como símbolo de status e sucesso profissional. Se você não está de carro, deve ser um fracassado.

A sociedade faz questão de te lembrar disso o tempo todo. Uma grande força contra ir trabalhar de bicicleta ou outras formas de transporte mais saudáveis, é o medo de ser observado como inferior, pobre ou quebrado. Um amigo - certa vez - confidenciou para mim que tem medo de ser visto saindo de casa a pé, por medo do que os vizinhos vão pensar.  O fato dele ter um carro importado na garagem parece não importar, ele tem que sair com ele.

Mesmo adotando uma postura de quem não se importa com isso, essa pressão acaba incomodando as pessoas que optam por não usar automóveis, criando um clima de inimizade entre os dois lados.

* * *

Poluição é um grave problema de saúde. Só no estado de São Paulo, poluição mata mais do que HIV. É um verdadeiro problema de saúde pública, mas que é tratado com descaso pelo governo e pela população. Os problemas listados acima não conseguem barrar alguns corajosos que insistem em utilizar as vias públicas diariamente, se arriscando para fazer o mundo um pouco melhor.

Mudar alguns traços culturais é difícil, mas é algo que precisa ser feito.

Deixo com vocês a palestra do Doutor Paulo Saldiva no TEDx, ele é um dos maiores especialistas em poluição do mundo. Sua palestra apresenta nossa responsabilidade social em reduzir a emissão de poluentes, porque as pessoas que realmente estão sendo afetadas pouco podem fazer quanto a isso.

Link Youtube


publicado em 17 de Maio de 2016, 18:05
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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