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O que aprendi fazendo um evento para 8 mil pessoas

Lidar com a expectativa e a cobrança de tanta gente te impõe um novo patamar de crescimento pessoal e autoavaliação

Outro dia a gente publicou um artigo que falava o quanto as coisas são bonitas pra quem olha de fora. Mas, ainda que a gente se reconheça na fala e até dê um tapinha simbólico nas costas do autor, só sentimos a dor quando o corte é na nossa própria carne. É inevitável.

Foi assim comigo. Durante os últimos onze meses, encarei a missão mais difícil da minha vida. Todo o tempo que não estava sendo gasto como editor do PapodeHomem, estudante da USP, namorado da Julia ou filho da dona Edna e do seu Reinaldo, estava sendo dedicado à organização de um evento universitário anual chamado JUCA ou Jogos Universitários de Comunicação e Artes.

Esse tal de JUCA é, na verdade, um evento gigantesco para quase 8 mil pessoas que jovens universitários organizam uma vez por ano sem ganhar um tostão sequer. Nossas reuniões são feitas semanalmente à meia-noite de terça-feira (único horário possível) e o evento acontece sempre no feriado de Corpus Christi em uma cidade no interior de São Paulo.

Na prática, a organização envolve diretamente umas cinquenta pessoas que cuidam da competição de 18 modalidades esportivas e de duas grandes festas que rolam em noites alternadas durante os quatro dias de evento. Mas o que mais dificulta a coisa toda é que não existe gente especializada sendo paga nem com dedicação exclusiva pra cuidar disso e tampouco infraestrutura preparada para comportar o evento. Inexplicavelmente, ao longo dos últimos 24 anos, sempre aparece alguém querendo assumir a parada e dessa vez o louco fui eu.

A julgar pelo resultado (ninguém morreu e nós multiplicamos por 10 o valor em caixa) pode até parecer que o JUCA deu certo, mas partindo pra perspectiva egoísta da coisa: será que valeu a pena pra mim?

Pra me ajudar a encontrar a resposta, compartilho abaixo um pouco da minha experiência como presidente da gestão 2015/2016 do JUCA e o que aprendi com ele. Sob recomendação do Guilherme, espero voltar aqui daqui um, dez ou cinquenta anos e ver o que o Breno de 22 anos aprendeu que o de 72 já se esqueceu.

Não existe cartilha

Por coincidência ou não, liderar a organização do JUCA coincide com uma fase da vida muito específica da passagem de jovem para adulto. Nessa tal fase, a gente começa a enfrentar problemas de gente grande e descobre que o mundo não é tão cor de rosa como nos contaram.

Se você não fugiu muito à regra, te falaram que você deveria se comportar na escola pra ser um bom aluno. Se fosse um bom aluno, fatalmente teria boas notas. Tendo boas notas passaria no vestibular e entraria numa boa faculdade. Entrando nessa faculdade conseguiria um bom emprego. Conseguindo um bom emprego teria dinheiro suficiente pra comprar uma boa casa. Nessa boa casa você poderia ter filhos e dá-los uma boa condição de vida. Dando isso a seus filhos, eles teriam boas notas, passariam numa boa faculdade, arranjariam um bom emprego, teriam dinheiro, uma boa casa e poderiam dar melhores condições de vida para seus netos.

Mas a vida real não é assim. Não existe cartilha, não existe regras, nem degraus. E eu pelo menos só me dei conta disso agora. E foi um choque.

O êxito em cada uma dessas etapas não garante o avanço para a fase seguinte. Nem existem apenas essas fases. Quando se está a frente de um evento como o JUCA acaba percebendo que essa tal cartilha não te prepara para os desafios de verdade e, bem, agora você já está grandinho e vai ter que se virar sozinho.

Eu não sabia como falar com o prefeito de uma cidade para convencê-lo de que valia a pena receber meu evento. E eu também não sabia o que podia falar para que as pessoas não me matassem porque o tal prefeito não quis nos receber. E uma coisa eu garanto: foram muitos prefeitos e muitas mortes simbólicas.

Faz de conta que essa cartilha é uma horcrux e finca-lhe o dente do Basilisco.

Não há nenhuma garantia

Para minimizar os efeitos negativos ou para, pelo menos, estar mais preparado pra eles, eu te recomendaria estudar muito bem o terreno que vai pisar. Porém, preciso te contar que não importa o que você faça, o quanto estude o terreno ou o que te contem, não existe garantia nenhuma.

Eu topei presidir o JUCA porque gostava muito de esportes e via o evento com um enorme potencial para ser melhor do que ele já é. Acontece que 90% das coisas que acabei fazendo não tinha nada a ver com esportes. E no fim das contas eu já estava tão cansado que não queria que o JUCA fosse melhor, apenas que ele acabasse logo.

A gente pode medir os riscos – continuo recomendando fazer isso –quando topa entrar num novo projeto, mas no fim das contas, esteja certo de que aquilo pode dar muito mais trabalho do que o previsto. Nessa hora, por mais tentador que pareça ser a coisa, é bom se certificar que existe uma saída de emergência e que, em último caso, você saberá lidar com a possibilidade de tudo dar errado.

Nem todos os riscos vão ser tão claros quanto a maçã na mão de uma bruxa. É melhor se preparar

Não adianta querer agradar a todos

Uma das coisas que trabalhar e acompanhar o PapodeHomem ajudou durante o JUCA foi a entender que eu não precisava ser perfeito. Assumir essa postura de "alguma coisa pode dar errado e tudo bem" é profundamente libertadora. E eu garanto: se mais gente tivesse consciência disso, o mundo seria muito melhor. Então, por favor, tenha.

Quebrando as ilusões de uma criança partindo pra vida adulta novamente, sofri ao perceber que não importava o que eu fizesse, nem todo mundo ia gostar de mim, minhas decisões iam ser questionadas sempre e o que parecesse ideal para uns iam parecer absurdo para outros.

Mas custei a aprender isso. E não baixei o sarrafo da minha autocrítica do 100% de aprovação durante alguns meses. O resultado disso o Brandão já explicou: um atraso de muitas semanas na organização. Quando finalmente me dei conta de que não adiantava mais perder tempo com essa questão, que deveríamos avançar agora de uma maneira ou de outra e que sempre ia ter alguém mais prejudicado do que o outro, já estávamos com prazos atrasados e precisávamos correr atrás do tempo perdido.

A verdade é que entender isso é como entender que a democracia é um sistema falho e extremamente complicado (principalmente pra quem lidera). E acredito que meu grande mérito foi ter aprendido isso sem partir pro autoritarismo.

Sempre haverá a solução mais fácil.

Ninguém faz nada sozinho

Sabe aquele velho chavão de que o desempenho de um atleta é muito mais derivado do treinamento do que do talento? Pois é. À frente do JUCA comecei a observar que a maioria das grandes conquistas que tivemos foram muito mais relacionadas à persistência do que à genialidade.

Somos uma sociedade que avança tanto quanto o nível médio dos indivíduos. É claro que temos os expoentes, os percussores, os vanguardistas, mas esses são responsáveis por apresentar fatos novos que só serão realmente creditados quando o resto entende da mesma forma. Não importa se você descobriu que a Terra não é o centro do Universo, se as pessoas ainda acreditarem que ela é, então você corre um sério risco de ir pra fogueira. (Galileu não morreu na fogueira, mas vamos assumir que todos entendemos o exemplo, ok?)

Na prática, depender dos lapsos de genialidade pra encontrar a melhor solução provoca – novamente – um tremendo atraso na organização. Dessa maneira, assumindo que nada vai ser perfeito, é preferível encontrar uma solução intermediária e avançar. Isso é muito mais difícil do que parece e faz parte de um exercício de acreditar no que não podemos ver: a evolução acontece aos poucos e não de uma hora pra outra.

Em determinado momento, tive um problema pessoal grave e fui obrigado a me afastar por cerca de uma semana da organização. Nessa hora, tive que acreditar nos outros e assumir que, bem, as coisas não vão sair do meu jeito, mas essa é a única garantia que tenho delas realmente acontecerem.

Eu precisei ter isso como único recurso para aprender e já pedi mil desculpas aos envolvidos por não ter enxergado antes.

Eu sei como é foda, Galileu. Tamo junto.

Não ser um gargalo

Depois que desatamos esse nó, as coisas começaram a fluir muito melhor e ele ainda nos deu uma segunda lição: não ser um gargalo.

Quando olhamos o organograma de uma empresa, nós geralmente vemos o cargo de presidente no topo, seguido dos seus diretores, gerentes e assim por diante. Depois da minha experiência, passei a ser partidário de uma mudança radical nessa organização. Explico.

Quando incorporamos a posição de que estamos acima dos outros, corremos um sério risco de querer que todos os processos passem por nós. Assumimos que por estar no topo da pirâmide das responsabilidades devemos estar também no topo da pirâmide dos processos. Mas estes são muito mais descentralizados e arbitrários do que podemos colocar no papel. Eles têm vontade própria.

Tal postura vai contra o que aprendi no item 3 e no item 4. Em primeiro lugar, isso é uma tentativa desesperada de dar um crivo de qualidade a tudo buscando a aprovação dos outros. Em segundo lugar, é um sintoma claro de quem não acredita na sua equipe e se pudesse substituiria todos eles por cópias de si mesmo.

No que me diz respeito, tive um problema ainda maior. Costumava ter o hábito – e ele ainda não foi totalmente superado – de planejar todos os processos nos seus mínimos detalhes. Isso somado a postura centralizadora acabava impondo a todos o ritmo e o processo que eu ditava. Dessa forma, eu atrasava tudo, chateava as pessoas e me sobrecarregava demais.

Se isso se tratasse de um projeto pessoal, provavelmente ele nunca teria saído do papel, mas como eu tinha que atender a demanda externas, foi preciso aprender na marra. Por sorte, estava lendo um livro chamado Criatividade SA, do Ed Catmull, fundador da Pixar. Nele [spoiler] Ed explica porque não perde muito tempo planejando os filmes e começa a fazê-los antes de ter certeza que vão dar certo. Basicamente, os anos de experiência lhe ensinaram que não importa o quanto planeje, os erros vão acontecer. Assumindo isso, é melhor economizar tempo na etapa de planejamento para ter tempo de encontrar as soluções diante dos desafios reais.

Não importa o quanto seu sistema pareça infalível, falhas vão aparecer e vai ser preciso tempo para contorná-las.

Tudo é sobre como as pessoas se sentem

Era comum ouvir que na nossa sociedade tudo é sobre dinheiro, mas a minha experiência me mostrou outra coisa. Talvez pelo fato de nenhum de nós estar ganhando nem um centavo sequer com aquilo tudo, as questões envolviam muito mais sobre como as pessoas se sentiam do que qualquer outra coisa.

Eu não sou um ser humano super bem humorado, não gosto de frequentar festas com centenas de desconhecidos, não bebo muito, não fumo e valorizo muito minhas horas de sono. Quando topei assumir a presidência, eu achava que essas "questões sociais" passariam longe de influenciar o sucesso do meu trabalho ou de como ele seria avaliado. Mas quando você é um jovem universitário de vinte e poucos anos e topa cumprir uma missão dessas sem ganhar nada em troca, o mínimo que espera é ficar orgulhoso do resultado e se divertir um pouco.

Acontece que eu acreditava que com um perfil técnico sério os resultado viriam rapidamente e isso bastaria. O tempo mostrou que eu não poderia estar mais enganado. Não só os resultados não apareceram rapidamente como criei uma cultura tóxica. Em pouco tempo as pessoas já não conversavam mais após as reuniões, não se cumprimentavam mais e passamos a ter que lidar com indivíduos desinteressados que só queiram acabar com aquilo o mais rápido possível. Inclusive eu.

Não é a toa que dizem que um bom político governa das ruas e não do gabinete. É preciso conhecer as pessoas, ouvi-las, procurar entendê-las e observar com seus próprios olhos os problemas reais que elas enfrentam. Se você for minimamente honesto não usará isso apenas para conseguir capital político, mas para ponderar as decisões futuras. No caso do JUCA é preciso equilibrar demandas de públicos muito distintos e só é possível entender isso conhecendo eles.

Entenda bem: isso é muito diferente de querer agradar a todos. Isso faz parte de uma relação de confiança. Todos ficam mais tranquilos e compreensíveis quando sabem que você conhece a realidade deles. Na maioria das vezes não será possível provar um ponto só através da lógica, vai ser preciso convencê-las a comprar uma ideia. Nessa hora percebe-se que a boa convivência é muito mais importante para alcançar um resultado positivo do que qualquer outro fator.

O sonho de qualquer líder é ser jogado pra cima. Mas pra isso é preciso "ter o grupo na mão".

Fazer coisas que não dão dinheiro

Da mesma forma, quando você topa assumir uma função não-remunerada de tamanha responsabilidade acaba aprendendo duas coisas. A primeira e mais óbvia delas é que o simples fato de topar fazer algo que não vá lhe render dinheiro diz muito sobre quem você é. Mas sem juízos de valor. O que mais tenho dito para alguns amigos após essa experiência é o quanto admiro a capacidade deles de não se envolver com um projeto no qual não acreditam 100%. Eu claramente não sou assim, mas admiro essa capacidade neles.

A segunda coisa é: existem algumas experiências que só passaremos se assumirmos que ninguém vai nos pagar para tê-las. Como eu disse antes, minha gestão foi muito bem sucedida financeiramente e posso afirmar que tive um certo êxito em lidar com o dinheiro. Mas também sei que só descobri isso agora porque me permiti liderar um evento que movimenta mais de 2,5 milhões de reais.

O importante é lembrar novamente que não há garantias. As experiências não-remuneradas podem ser tão ruins quanto as demais. Mas nesse caso, sem a recompensa evidente, cada dificuldade capaz de te fazer pensar em desistir também te obriga a revisitar o motivo pelo qual topou fazer isso.

Fazendo isso, na pior das hipóteses, você vai descobrir quais portas vai deixar fechada pra sempre. Na melhor, vai ter ampliado enormemente seus horizontes.

Bem, talvez isso responda à minha pergunta.


publicado em 15 de Julho de 2016, 19:25
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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