O que fizeram com a Copa do Mundo? | Teoria dos Jogos #2

Com a mudança na Copa do Mundo, todo o mundo ficou mais perto dela

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Incomparável com mundiais de outros esportes, jogos continentais como os Pan-Americanos e a frente até mesmo dos famosos Jogos Olímpicos, a Copa do Mundo é o evento esportivo mais rentável do planeta. Estima-se que na próxima edição, a ser disputada na Rússia em 2018, as receitas atingirão os US$ 3,54 bilhões (R$ 11,3 bilhões), mas isso não parece suficiente para a FIFA.

Nesta semana, o Conselho da entidade aprovou por unanimidade um aumento considerável no número de vagas na Copa do Mundo e a principal motivação para isso foi justamente a questão financeira. A partir de 2026, passaremos das atuais 32 seleções para 48, um crescimento de 50% que representa a maior mudança de formato na história da competição. Segundo previsões da própria FIFA, o evento que representa 80% da receita acumulada pela entidade a cada quatro anos passará a render até R$ 2 bilhões a mais com as alterações aprovadas.

Acontece que essa grana toda tem um impacto direto na questão política. Mais dinheiro na conta da FIFA significa mais dinheiro sendo dividido entre as Federações e Confederações filiadas. Indiretamente, o interesse em aumentar a Copa cresce tanto quanto o interesse em aumentar os próprios lucros, afinal de contas, com mais vagas mais jogos, com mais jogos mais dinheiro e com mais dinheiro todo mundo sai feliz. Certo?

Separei alguns tópicos sobre a mudança para debatermos juntos.

1. O impacto esportivo

A decisão revoltou muita gente ligada ao futebol justamente porque a interpretação geral foi de que a FIFA colocou questões políticas e econômicas acima daquela pela qual ela realmente deveria prezar: a esportiva.

Já que esse parece ser o ponto principal da coisa toda, vamos logo começar por ele.

1.1 As vagas

Gianni Infantino foi eleito presidente da FIFA há menos de um ano com a promessa de expandir a Copa do Mundo para 40 países. De lá pra cá, vários cenários foram estudados até que a proposta de 48 seleções divididas em 16 grupos de 3 vigorou e acabou sendo aprovada.

Com 16 novas seleções, a redistribuição de vagas sofreu alterações. Abaixo você percebe, continente a continente, quantas vagas serão disputadas até 2022 e quantas serão a partir de 2026:

  • Europa: de 13 para 16;
  • África: de 5 para 9,5;
  • América do Sul: de 4,5 para 6,5;
  • Ásia: de 4,5 para 8,5;
  • América do Norte: de 3,5 para 6,5;
  • Oceania: de 0,5 para 1;

Segundo Infantino, a proposta é descentralizar o futebol atendendo a uma demanda de maior globalização do esporte, mas uma análise breve é suficiente para percebermos que, apesar do inchaço geral, a mudança beneficia mais continentes como África e Ásia do que os demais. Juntas, as duas confederações sozinhas terão direito de distribuir metade das 16 novas vagas criadas.

Poderíamos imaginar que essa distribuição desproporcional visa corrigir um equívoco histórico, mas essa hipótese não se sustenta por nenhum dos dois vieses possíveis. (1) Se a distribuição fosse correspondente ao número de países por continente, não faria sentido dar até 7 vagas para a América do Sul, com seus 10 países, enquanto a própria África com seus 20 concorrentes fica com 'apenas' quase 10. (2) Mas se o argumento for a força e a tradição do futebol, então como defender que continentes que nunca superaram a fase de semifinal passarão a ter tantas vagas?

1.2 A qualidade técnica

A resposta para a pergunta acima recai justamente na preocupação sobre a qualidade técnica do futuro mundial. Não há nenhum fenômeno significativo de novos polos de desenvolvimento do futebol que justifique a mudança. E mesmo se houvesse, há consenso de que as vagas atuais já seriam suficientes para abarcá-los. As melhores seleções do mundo continuam sendo as mesmas de sempre. Exceção feita à participação da Espanha na final da Copa de 2010, não temos países inéditos decidindo o título desde 1974.

O argumento de Infantino é justamente o de que a participação facilitada de novos países incentivará o desenvolvimento do futebol nesses lugares. Mas os exemplos históricos nos mostram que empolgação pela participação no campeonato mundial não é um fator decisivo para o crescimento do esporte. Países como a Hungria, por exemplo, já chegaram a disputar duas finais de Copa, mas outros motivos impediram que o país se tornasse uma potência.

A própria FIFA demonstra a contradição desse argumento. O que faz de um país um grande centro futebolístico sustentável gerações após gerações é o investimento nas categorias de base. Assim, jovens interessados em jogar encontram respaldo e inspiram novos jovens a começarem no esporte fazendo o ciclo se renovar. Ciente disso, a própria FIFA investe nas categorias de base de países periféricos de modo que ou o 'argumento da empolgação' ou o 'investimento na base' estão equivocados.

1.3 Formas de disputa

Para abarcar as seleções comprovadamente fracas tecnicamente, o mundial precisará passar também por uma mudança substancial na sua forma de disputa. Nesse caso, será preciso inventar uma fórmula que comporte mais times, mais jogos, sem mexer nos intervalos apertados e na jornada já muita exaustiva que uma seleção tem que enfrentar para conquistar um título dessa relevância em apenas um mês de competição.

Apesar de ainda não ter sido confirmado pela FIFA, o modelo que parece ter sido encontrado é o da divisão dos 48 times em 16 grupos de 3. Destes, 2 se classificariam para uma fase que poderemos chamar de dezesseis-avos de final. Dessa forma, o número de jogos para o time campeão permaneceria sendo 7 e os intervalos praticamente os mesmos. Mas encurtar a fase de grupos e aumentar a fase de mata mata provoca efeitos colaterais.

Em primeiro lugar, as seleções mais fracas que se classificarem para a Copa do Mundo terão a honra de disputar apenas 2 partidas e não mais 3. Já as seleções grandes se veem numa fase de grupos que ao mesmo tempo pode ser mais perigosa, já que tem menos margem para erros e imprevistos, como pode ser mais fácil, já que 66% dos times se classificarão e não mais 50%.

Fora isso, o número ímpar de seleções por grupo provoca distorções no tempo de descanso e no interesse dos times nas partidas. Enquanto as seleções que folgarem na última rodada passam a ter mais tempo de descanso para a próxima fase, aquelas que entrarem em campo estarão cientes do resultado que precisam fazer para se classificar, eventualmente até fazendo um jogo de cavalheiros para que ambas as envolvidas se classifiquem, o que pode nos fazer revisitar alguns dos momentos mais vergonhosos do esporte. Para piorar a situação, a FIFA sinaliza com a hipótese de decidir todos os jogos que terminarem empatados em disputas de pênalti. Mas essa aberração ainda não passa de uma hipótese.

1.4 As eliminatórias

Os problemas das mudanças não param por aí e começam a surgir antes mesmo da própria Copa começar. Com tantas vagas para serem distribuídas, as Confederações terão que repensar os formatos de suas eliminatórias de modo a criar uma competição minimamente interessante.

Nesse sentido, o caso da América do Sul é novamente o mais preocupante. Atualmente as 4 vagas diretas e 1 para repescagem são decididas através de pontos corridos com turno e returno que ocupam 18 datas. Com apenas 10 filiados, distribuir 6 vagas diretas e 1 para repescagem de maneira competitiva será um desafio e tanto.

2. A questão política

Agora, se você está convencido tanto quanto eu de que essas mudanças representam um prejuízo esportivo para o evento, então talvez você esteja se perguntando quais os reais motivos para que o presidente da FIFA tenha proposto essa mudança. A resposta é muito mais simples do que parece.

Como disse, Infantino foi eleito com essa proposta e tanto sua eleição quanto a velocidade com que conseguiu promover essa substancial mudança no principal evento da entidade podem ser explicadas pelo mesmo motivo: a quem isso interessa?

Se na geopolítica mundial, América do Norte e Europa dão as cartas, na FIFA desde a eleição do brasileiro João Havelange para presidente em 1974, são os países africanos e asiáticos em maior número que decidem as votações. Sendo assim, Infantino cumpriu sua promessa de campanha, mas não foi nada original.

Cientes de que os apoios da África e da Ásia são fundamentais em votações como as que decidem a sede do próximo mundial e a própria eleição pra presidente, interessados em receber a Copa do Mundo e os próprios candidatos ao cargo se veem na condição política quase obrigatória de defender esses interesses.

Agora parece mais óbvio porque esses dois continentes receberam mais vagas, né?

Mas não para por aí. O inchaço do mundial também dialoga com outra promessa de campanha de Infantino: realizar edições da Copa do Mundo com mais de uma sede, a exemplo do que foi feito em 2002 com Japão e Coreia.

Num primeiro momento, aumentar o número de seleções da Copa iria exigir ainda mais do país-sede em questões de logística e infraestrutura. A resposta encontrada é dividir entre mais países o ônus do investimento necessário para corresponder aos padrões exigidos pela FIFA. A causa parece nobre, ainda mais depois da experiência com o Brasil, mas não deixa de ser também uma forma encontrada de agraciar ainda mais filiados, dessa vez, interessados em receber o mundial.

Agradando quem pode ir e quem pode receber o evento, uma decisão unânime no Conselho a favor da mudança é plenamente explicável.

3. A questão econômica

Mas pesquisadores especializados e jornalistas com experiência em mundias começam a alertar para o que poderia ser uma hipótese não prevista pela entidade.

Com base no novo formato proposto, veículos de comunicação começaram a desenhar cenários possíveis para os grupos da Copa de 2026 e mesmo no mais otimista deles, segundo o ranking da própria FIFA, ainda teríamos confrontos entre seleções de pouquíssima tradição como, por exemplo, Jamaica e Cabo Verde.

Nesse caso, cientes dos preços cobrados nos ingressos do mundial, supondo uma sede distante como algumas hipóteses que se apresentam (Austrália + Nova Zelândia) e com o aumento do número de jogos de 64 para 80: quem pagaria tão caro para assistir jogos tão fracos tecnicamente?

Fora isso, é de se destacar que o sucesso da Copa do Mundo está diretamente relacionado com o fato do evento ter sido até hoje uma verdadeira reunião da nata do futebol mundial. Não temos como comprovar, mas abrir vagas para equipes mais fracas poderia aproximar o mundial de futebol de campeonatos menos expressivos provocando um efeito contrário ao desejado.

Por último, mas não menos importante, os principais clubes europeus já se declararam radicalmente contrários a mudança e classificaram-na como "inaceitável". Por mais que eles não tenham poder dentro da FIFA e suas respectivas federações tenham impacto quase nenhum em decisões como essa, há opositores mais radicais que estão sugerindo um boicote dessas equipes ao mundial.

Uma vez que a FIFA não paga o salário dos jogadores, os clubes já têm demonstrado há algum tempo uma certa insatisfação com os campeonatos de seleções. Com uma mudança que os desagrada como essa, não seria impossível imaginar que eles começassem a impedir direta ou indiretamente que seus jogadores joguem pelo país. Nesse sentido, o futebol poderia tomar como exemplo o basquete, uma modalidade onde tem se tornado cada vez mais comum que franquias vetem ou que os próprios jogadores abram mão dos torneios entre nações.

É um cenário bastante apocalíptico? Sim, mas daqui até 2026, muita coisa pode acontecer.

***

Nota da edição: 'Teoria dos Jogos' é uma nova série de esportes do PdH que se propõem a analisar problemas dos campeonatos que gostamos de acompanhar e propor soluções.

Vocês são nossos convidados para debater ideias nos comentários e sugerir quais devem ser os próximos temas. Esperamos que gostem e participem.


publicado em 12 de Janeiro de 2017, 22:11
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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