Pequena crítica ao ENEM

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Sábado. dez da manhã. Você acorda e sabe que está diante de mais um final de semana. Mas algo está diferente. Você tem um compromisso, mas o sono e as remelas em todos os cantos da sua cara não te deixam lembrar qual.

Então, você se levanta, dá uma lavada básica na fuça, um tapa no cabelo e vai pra cozinha. Depois de dar bom dia pro seu tio-avô baiano, que veio para uma visita no aniversário do seu pai, se ajeita na mesa, pronto pra tirar a barriga da miséria.

Robert Doisneau, "Le Pendule" (1957)
Robert Doisneau, "Le Pendule" (1957)

Ao começar a passar a margarina no pão, seu pai aparece:

“Bom dia filhão, preparado para a prova da sua vida?”

Puta que pariu! Hoje tem ENEM!

Acabou meu apetite. Mas, enfim, porém, bom, pensei comigo, estudei pra caralho nesses últimos anos. O que dava pra fazer eu fiz.

Agora, que venha logo essa merda.

E foi assim, todo valente, que fui ao local de prova.

Quando fui apresentar meus documentos na porta... Puta que pariu (a segunda do dia)! Que fiscal gostosa!

Você estuda o ano inteiro, crente de que vai gabaritar o ENEM e, na bendita hora do exame, eis que tem na sua sala uma fiscal pra lá de boa. Mas calma, você consegue se controlar, não desanime.

Depois de me dizer (e não tiro da cabeça que disse com uma piscadela) que quando o outro fiscal me chamasse eu já poderia entrar, ela logo pediu o documento do cara de trás. Crente de que na hora da prova ela iria sossegar e ficar sentada no canto dela, entrei, conversei com o outro fiscal – nem perto de tão agradável quanto ela -, escolhi minha mesa e fui sentando.

Vai. Se concentra na prova. Quero ver. Vai.
Vai. Se concentra na prova. Quero ver. Vai.

Provas distribuídas, agora é a hora. Questão 1? Fácil. 2? Puta que pariu (a terceira do dia), como colocam uma coisa tão simples assim? Enquanto isso, a fiscal lá sentada, tranquila, e eu concentrado, certo de que tudo continuaria a correr bem.

Até que, puta que pariu (a quarta e melhor do dia), que bunda! Eu ainda não tinha respondido dez questões quando ela passou pela primeira vez ao meu lado. Juro que tentei me controlar, tentei me concentrar, tentei não olhar, mas foi impossível. Que bunda era aquela, meu Deus!

A partir daí, ela já não parava mais de passar perto de mim – comprovando a tese de que foi contratada pelos concorrentes. Cada volta que dava nas outras fileiras equivalia a três na minha. Logo que eu começava a entender um texto, eis a bunda que passava bem do meu lado. Não, não dava para não olhar.

Resultado: uma hora e meia depois, e eu ainda me encontrava na questão vinte e cinco. E sem saber se eu estava mesmo naquela questão. Completamente perdido.

Fui o último a sair da sala, óbvio. Decepcionado, entreguei minha prova às 17h30. Bom, hoje foi um desastre, mas amanhã tem a redação e, com alguma sorte, os fiscais serão dois barbados bombadões.

Juventude engajada: "Vergonha no ENEM! Não somos palhaços! Exigimos fiscais barangas!"
Juventude engajada: "Vergonha no ENEM! Não somos palhaços! Exigimos fiscais barangas!"

Mas ela me mandou assinar algo e, com a voz macia, disse:

“Até amanhã!”

É, o ano estava perdido.


publicado em 26 de Novembro de 2011, 11:56
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Vitor Rodrigues

Acredita que o ser humano não está no mundo apenas para nascer, trabalhar e morrer. Pensa que as palavras, quando seguidas de atitudes, podem sim mudar o mundo. É radicalmente contra o excesso de cebola nas pizzas. No twitter, @vitinhoag.


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