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Pesquisa Pais em Casa | Dados mostram como a pandemia impactou os cuidados com os filhos e com a casa

22% das famílias concordam que há um divisão igualitária. Mães e pais passaram a trabalhar mais nas tarefas domésticas, mas as mulheres ainda são as principais responsáveis.

A pesquisa Pais em casa divulgou dados sobre a divisão de cuidados domésticos e educacionais entre pais e mães durante a pandemia do Covid-19. A pesquisa foi realizada entre os meses de maio e agosto de 2020 com 1554 pessoas.

Este trabalho de investigação é uma iniciativa da plataforma 4Daddy, fundada por Leandro Ziotto e as pesquisadoras  Camila Pires, (mestranda em antropologia com foco em Paternidades pela Universidade de Paris) e Tayná Leite (mestranda em sociologia na Universidade Federal do Paraná, escritora sobre maternidade, colunista da Revista AzMina).

Clique na imagem para acessar a página oficial da pesquisa

A divisão do trabalho de cuidado, principalmente na dimensão da paternidade é um dos caminhos para potencializar a equidade de gênero, reduzindo a sobrecarga de trabalho não remunerada, a qual pende especialmente sobre as mulheres. 

Nos primeiros meses da pandemia - diante do fechamento das escolas e da mudança nas dinâmica dos trabalhos - havia uma preocupação de que este cenário acabasse por sobrecarregar desproporcionalmente as mulheres.

Aqui no PdH, trouxemos algumas propostas de redistribuição de tarefas domésticas para que as famílias pudessem equilibrar as responsabilidades. No entanto, não tínhamos dados para entender o impacto do isolamento nas famílias do Brasil. 

A pesquisa Pais em Casa nos ajuda a entender o contexto da divisão de tarefas pré-pandemia e os impactos desta no cotidiano de pais e mães. 

Vamos trazer aqui alguns achados chave desta pesquisa e, quem quiser ver o relatório na íntegra (entendendo metodologia, bibliografia e todos os detalhes) pode acessar a página da pesquisa Pais em Casa

Como estava a divisão antes da pandemia?

A divisão desigual das tarefas domésticas é uma herança histórica. Enquanto os homens exerciam os trabalhos públicos e atividades econômicas remuneradas, as mulheres eram responsáveis pelas atividades da vida privada: o cuidado, a educação, a alimentação, a gestão da casa.

Permanece até hoje a realidade em que os trabalhos de cuidado da vida privada ou não são remunerados ou são desvalorizados.

Segundo uma pesquisa pré-pandemia (Instituto Avon e Locomotiva, 2016), 88% das pessoas acham que existe desigualdade entre homens e mulheres na nossa sociedade e 48% dos homens declaram ser 'desagradável ou humilhante o homem cuidar da casa enquanto a mulher trabalha fora'.

Dados do IBGE de 2016 a 2019 apontam que há participação masculina nas tarefas de casa, no entanto as mulheres dedicam, em média, o dobro de horas semanais que os homens nestes afazeres.

Gráfico da pesquisa Pais em Casa, 2020.

Estes são alguns dados para que a gente possa entender que, mesmo com as mudanças graduais que vemos acontecer na sociedade, as desigualdades seguem presentes nas casas brasileiras. 

O que pesquisas internacionais já apontavam

França, EUA e Reino Unido, durante a pandemia e o isolamento, realizaram pesquisas sobre o tema e nos indicam alguns dados interessantes:

  • Na França, houve um indicativo de maior participação dos homens nas tarefas domésticas. 32% das mulheres confirmam divisão igual entre ambas as partes. 

  • Nos EUA, 68% dos pais passaram a se sentir mais próximos dos filhos com a pandemia.

  • No Reino Unido, a participação dos homens no cuidado com as crianças dobrou, mas continua sendo menor que o das mães. Mães britânicas que estão trabalhando em casa são 3 vezes mais interrompidas que os pais. 

Pandemia como gatilho para maior participação masculina/paterna

Tanto as pesquisas internacionais quanto a Pais em Casa apontam que os desafios trazidos pela pandemia são gatilhos que podem fazer com que os homens se engajem mais nas atividades de cuidado.

“Muitos dos homens entrevistados concordam que nesse momento de isolamento social, ao mesmo tempo em que há momentos de enorme exaustão e estresse emocional, hoje também têm a oportunidade de ressignificarem “velhos” conceitos como “equilíbrio família e trabalho” e “afeto”, uma conscientização maior sobre a importância da valorização da atividade doméstica, tempo dedicado à família para estreitar vínculos afetivos, e principalmente mostrando que o cuidado pode ser desenvolvido em meio à rotina.”

Limitações da pesquisa

Na metodologia de pesquisa, a equipe esclarece que não pode atribuir aos dados representação nacional, afinal, 86% dos respondentes localizam-se nas regiões sul/sudeste e mais da metade dos respondentes estão entre as classes A e B. 

Ainda nota-se há uma dificuldade notável de conseguir que homens respondam pesquisas sobre paternidade. 

As diferenças que continuam 

Tanto mães quanto pais (78% dos entrevistados) passaram a acumular mais trabalho com a casa e com os filhos. No entanto, as mães seguem sendo as principais responsáveis pelas tarefas. 74% delas afirmam passar mais tempo que os parceiros cuidado da casa e dos filhos.  

Enquanto 63 % das mulheres com filhos realizam 3 ou mais horas de trabalho não remunerado por dia para as tarefas de cuidado, apenas 37% dos homens alegam gastar essa quantidade de tempo. Os demais pais responderam que dedicam menos tempo a estas tarefas

Na média, os pais que estão em homeoffice também conseguem trabalhar mais tempo sem interrupções que as mães na mesma situação.

Há também uma importante diferença na percepção que cada um tem sobre a quantidade de trabalho que realiza: 24% dos pais dizem que fazem a maior parte do trabalho doméstico. Só 6% das mulheres concordam. 

Fonte: Pesquisa Pais em Casa, 2020.

Essa discrepância de percepção é notada também em pesquisas internacionais. Para entender quem estava superestimando a própria participação, a pesquisa sobre trabalho doméstico da Universidade de Utah pediu que homens e mulheres mantivessem um diário anotando toda e cada tarefa bem como o tempo gasto para realizá-las.

A comparação dos diários indicou que homens superestimavam a porcentagem da sua contribuição.

Mas há também quem esteja dividindo de igual para igual: 31% dos homens e 20% das mulheres reconhecem uma divisão equilibrada das responsabilidades de cuidado. 

Todos estão mais sobrecarregados

Entendendo as diferenças nas atribuições de responsabilidades, ambos os lados estão mais sobrecarregados e apontando insatisfações relacionadas à cansaço, frustrações e queda da produtividade:

  • Realizam muitas atividades todos os dias, mas falta tempo para si e seus projetos. Metade deles citam privação de sono.

  • Dosar a disciplina para garantir o cumprimento dos deveres das crianças mas sem  sobrecarregá-los neste momento.

  • Insatisfação pessoal com a queda de produtividade no trabalho e falta de didática para acompanhar as atividades educacionais

  • Lidar com as emoções pessoais e das crianças que estão cansadas, entediados e estressadas de ficarem em casa.

A divisão por igual faz bem para ambas as partes

Ao analisar a satisfação das partes, nota-se que os maiores scores de satisfação vem das pessoas que estão dividindo as tarefas de igual para igual.

“Ao abrirmos por tipo de divisão, 71% dos que declaram fazer mais do que o parceiro estão insatisfeitos, enquanto entre os respondentes que consideram dividir igualmente, 84% estão satisfeitos.”

É interessante notar que o percentual de satisfação daqueles que estão dividindo o trabalho igualmente é maior que o percentual de satisfação daqueles que estão dedicando menos tempo às responsabilidades domésticas que o parceiro.

Ouvindo ambas as partes: Principais aprendizados

A segunda etapa da pesquisa se dedicou a entrevistar alguns pais e suas respectivas companheiras (quando possível) para entender o contexto e aspectos mais subjetivos das percepções de cada um.

Três aprendizados foram principais :

1) Todos estão mais sobrecarregados, mas a carga maior ainda é das mães

Famílias estão sobrecarregadas, com mães sendo as mais demandadas, mas com os pais que se mostram impactados de forma consistente tanto em tempo despendido em tarefas de cuidado, quanto domésticas. 

Entre casais com filhos, mães realizam 21% a mais horas de trabalho não remunerado (cerca de 36 minutos por dia) e possuem 15% menos tempo sem interrupções do que os pais. Apesar de um maior engajamento dos pais, estes acreditam em equidade, enquanto a mulher não tem a mesma percepção. São pontos de vista distintos sob o mesmo tema.

2) Pais tem preferências por algumas tarefas

Pais continuam privilegiando a realização de certas atividades e evitando outras como lavagem de roupas. A maioria (70%) declara incluir no cotidiano, atividades como cuidado das crianças e atividades educacionais (atividades menos realizadas antes do isolamento).

Fonte: Pesquisa Pais em Casa, 2020.

3) Divisão equilibrada das tarefas continua sendo a configuração minoritária 

22% das famílias respondentes dividem as tarefas igualmente. Mesmo durante o isolamento a maioria (84%) se declara satisfeita em relação à divisão de tarefas de cuidado. Dentre os casais com filhos, 43% declaram que a participação do parceiro(a) está dentro das expectativas, com divisão mais equilibrada do que antes do isolamento social.

Importância de ter contato com outros pais engajados no cuidado

A pesquisa também aponta a importância para os pais de terem contato, ainda que virtual, com outros homens que estejam engajados se responsabilizar pelas atividades de cuidado.

“No últimos anos, surge um crescente número de grupos (de homens, presenciais e/ou virtuais) organizados sob a temática “Paternidades”. Esses grupos “paternos” passam a ser o principal canal de troca de experiências e um lugar de acolhimento de suas angústias e inseguranças. Esta realidade já era vivenciada antes da Pandemia do Covid-19 por pais que desejavam expressar suas experiências paternas, mas é no meio do isolamento social que essas interações virtuais geram maior ressonância e auto identificação. Essa troca com

outros pais legitima comportamentos e traz a sensação de pertencimento.

Para eles, esse “lugar seguro”, mediado por tecnologias, passa a ser tão real quanto o mundo não digital e, por vezes, exerce maior influência."

Relatos dos Pais em casa reflete a importância destes espaços:

“Eu troco a fralda da minha filha na igreja e isso é motivo de absurdo. Tem pais que ficam bravos comigo, porque as esposas vem cobrar os maridos para trocar também, e tem mulheres que ficam maravilhadas com isso. ‘Meu Deus ele está trocando fralda’. Então sou aceito sim, mas não no nível que eu gostaria, gostaria que fosse normalizado. Não queria que fosse esse absurdo” Guilherme, 2 filhos sendo 0 e 7 anos

“Já fui rígido com amigos machistas. No entorno presencial não existem muitos pais parecidos mas, através do Instagram, encontrei outros pais reais, que viraram amigos presentes.” Fernando, 1 filha de 5 anos

Um exercício em direção ao equilíbrio:

Você já ouviu falar no compromisso homens que cuidam?

A pesquisa Pais em Casa também apresenta a proposta da campanha MenCare em que, para equilibrar a quantidade de trabalho realizado por homens e mulheres, elabora-se uma sugestão:

“Para atingir 50% do trabalho não remunerado, a análise de dados de uso do tempo conclui que os homens precisariam aumentar seu tempo gasto em pelo menos 50 minutos por dia.

A matemática é simples:

  • Mais 50 minutos para homens,
  • Menos 50 minutos para mulheres.

Este é apenas um primeiro passo em direção à igualdade.

Assuma o compromisso de acelerar a absorção masculina de 50 por cento do trabalho de cuidado não remunerado, começando com 50 minutos a mais de trabalho de cuidado por dia.”

O que acha desta sugestão? Vale a pena colocar em prática na sua rotina?


publicado em 08 de Outubro de 2020, 10:16
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