Febre de Bola: o amor de pai e filho travestido de partidas de futebol

  • Nossos atuais Mecenas:
  • Asm selo png
  • 130x50 jpg

Seguindo na inspiração da série “Livros pra Macho”, este talvez seja um dos novos livros imperdíveis pra qualquer homem. De bate pronto, é preciso esclarecer que não se trata de mais um livro sobre futebol, apesar de Nick Hornby construir uma autobiografia que tem o esporte como pano de fundo. Esta obra é sobre as paixões e obsessões masculinas.

Isso porque, para o Nick, para mim e para alguns de vocês, obsessivos pelo futebol, esta não é apenas uma questão de vida ou de morte, é muito mais importante que isso. É como disse o anjo pornográfico Nelson Rodrigues, "tolo é aquele que no futebol só enxerga a bola".

"Febre de Bola", de Nick Hornby
"Febre de Bola", de Nick Hornby

O relato de Nick tem início com o divórcio dos seus pais e há uma boa chance de que talvez, entre os leitores, termos mais alguém filho de um lar desfeito. Estes vão se identificar com o garoto Nick logo de cara: no fim do casamento de seus pais, Nick, que se encontrava sob o teto da mãe durante as semanas e sobre a guarida do pai nos fins-de-semana, acabou se deparando com aquele estranhamento que os adolescentes têm de não serem nem um pouco parecido com aquele camarada que antes dormia na cama da sua mãe.

As músicas prediletas não batiam, os ídolos são outros e os gostos, de espectros diferentes. Ocorre que, ainda assim, a identificação dos dois era necessária, pois era grande a possibilidade de acabarem excluídos mutuamente da vida um do outro. Zeloso, o pai de Nick resolveu levá-lo ao jogo do Arsenal F.C., talvez apenas para matar o tempo que tinham, ou talvez porque, ali na multidão, nenhuma conversa era necessária.

Lá, pai e filho participariam de algo maior.

Mal sabe o pai que esse evento sem importância acabaria por moldar o filho. Surge a paixão da criança, a devoção do adolescente e a obsessão do autor, que constrói sua autobiografia-temática de cabeça, sem jamais pesquisar quem foi o autor do primeiro gol do jogo de 26 de maio de 1989. Quem já foi em um estádio sabe. A catarse esportiva desmancha as individualidades em uma massa disforme, porém concisa.

O banqueiro que vai ao Pacaembu pode, com lágrimas nos olhos, abraçar o proletário na hora do gol, ao passo que este mesmo proleta não acha, de fato, que a mãe do juiz bata ponto na zona do meretrício.

A mentalidade do coletivo que insere esses valores nos torcedores. Como o garoto não se apaixonaria por algo assim? Como conseguimos sustentar uma relação com um time de futebol por mais de 30 anos, durante um espaço de tempo em que todos os demais relacionamentos falharam? Nick acerta em cheio quando diz que, nos homens, às vezes porcos e cafajestes, temos facilidade enorme em trocar nossas namoradas, amantes e esposas por outras ‘melhores’, mas honramos e jamais trocaríamos de time, mesmo quando ele foi rebaixado para série C ou apresentam um futebol tão maçante e enfadonho que acaba cognominado de “Boring Arsenal”.

A torcida fiel do Arsenal
A torcida fiel do Arsenal

E o Nick vai além.

Bota o dedo na nossa cara e nos aponta como igual, não aquele torcedor que fica contente quando descobre pelo porteiro do prédio que seu time ganhou, mas aquele torcedor para o qual o futebol não é uma experiência exatamente agradável, com seus nós no estômago a cada cruzamento por trás do gol, suor frio quando o técnico saca o atacante para pôr um volante e a irritação de uma campanha pífia.

Aquele que sabe que o negócio todo é bem mais forte que ele. Que sente uma pontinha de orgulho quando se pega sentando em um pedaço de concreto de um estádio de quinta categoria às 15hrs de um domingo torcendo para seu time voltar para a elite.

É isso que faz o livro especial. Os obcecados por futebol sabemos que não é só um jogo, brigamos com a namorada para não ir ao cinema para ficar em casa no domingo à noite vendo a mesa redonda com Milton Neves e o Neto (“Mas você já não sabe o resultado, pra que ficar escutando tudo de novo?”).

Mas não só prá este como também para aquele camarada que roda a cidade atrás da versão original, não remasterizada, do Blonde on Blonde do Bob Dylan, ou aquele maluco que encontramos em pé em um sebo com um sorriso abobalhado e uma expressão de contentamento com a primeira edição de algum livro do Monteiro Lobato.

Se você é homem, amigo, você tem uma obsessão: Carros, figurinhas, discos, charutos, vinhos ou, simplesmente, qualquer coisa que te faça devanear “no meio de um dia de trabalho, de um filme ou uma conversa - sobre um voleio de canhota no canto superior direito ocorrido dez, quinze ou vinte anos antes”


publicado em 10 de Maio de 2013, 10:02
File

Luiz Ferreira

Um nerd corintiano que não sabe jogar bola, jazzista que não toca nada, político sem voto, gordinho que não sabe cozinhar e leitor que escreve muito pouco. Tem páginas\r\ne páginas de resoluções de ano novo. No twitter atende por @luizffm.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Nossos atuais Mecenas: