Qual é a função das revistas femininas?

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Semana passada, a Revista NOVA causou polêmica com uma matéria que  ensinava mulheres a espionar seus homens.

O texto começa assim:

 

"Ok, fuçar na vida do seu querido não é uma conduta digna de elogios. Mas com um pouco de observação à paisana, você descobre mais sobre a vida secreta dele do que sonha a vã filosofia masculina. NOVA entrevistou sociólogos e detetives e montou um curso completo para espiãs da Investigação Amorosa. Ele é dividido em três níveis: iniciante, para descobrir informações de um homem que acabou de conhecer; intermediário, que indica se ele deve ser seu próximo namorado; e avançado, com manobras arriscadas usadas apenas para confirmar indícios de traição. Veja, já!"

Por enquanto, temos apenas o primeiro nível, "inspeção sutil". Teoricamente, os outros devem vir em breve. Alguns exemplos:

 

No congelador
Procurar por sinais de que ele gosta de receber visitas, como copos gelados de cerveja. Bandejas de carne? Bom cozinheiro. Se vir refeições light, desconfie: pode ter outra. Repare na quantidade de gelo em cima da caixa para saber se está lá há muito tempo. ...
Na caixa de remédios
Procurar por medicamentos que revelem disfunção sexual, depressão, ansiedade ou transtorno de atenção.
Se for pega: queixe-se de dor de cabeça.

Abaixo, algumas reflexões inspiradas por esse grande marco do jornalismo brasileiro contemporâneo.

Antes que me acusem de escrever um texto antimulher em um site masculino, cabe o alerta: tudo, literalmente tudo, que se vai dizer vale para ambos os sexos. Revistas masculinas podem até ser bem diferentes das femininas (detalhes abaixo), mas nenhum gênero ganha do outro em loucura, psicopatia, narcisismo.

Começamos com as revistas femininas e, antes do fim, abraçamos o mundo.

 

Qual é a função das revistas femininas?

 

Experimente ler as chamadas acima, na íntegra

Revistas femininas adotam um tom paternalista de autoridade. As capas são repletas de imperativos nos mais variados tons de urgência. Parecem ver a leitora como uma escrava que trocou de dono: passou de estar sob o domínio da mãe e do pai (e da Capricho), para o domínio do marido, ou homem de modo geral (e da NOVA).

Essas revistas, em sua insistência em arrumar maneiras para manter, segurar, conquistar, agradar seu homem, são cúmplices e continuadoras do poder masculino: imaginam uma leitora ideal que (será que existe?) obedece e agrada seu homem quando ele está por perto e, quando ele não está, lê NOVA para aprender dicas de como agradá-lo ainda mais. De qualquer modo, sua vida sempre gira em torno do prazer do seu homem, seja quando aprende 100 dicas pra perder aqueles últimos duzentos gramas, ou novas formas de malhar a panturrilha enquanto cozinha e faz a cama.

Na sátira abaixo, do site The Onion, cientistas da revista Cosmopolitan, versão norte-americana da NOVA, se orgulham de ter mapeado todas as maneiras possíveis e imaginárias de agradar seu homem — teoricamente, segundo essas revistas, não haveria nada mais importante na vida de uma mulher do que ficar se virando em maneiras de agradar os homens.

Link YouTube | 'Cosmopolitan' Completes Study On How To Please Your Man.

Não que sejam inteiramente perversas, cabe ressaltar: cumprem lá sua função social. Como me disse uma amiga:

 

"Foi na NOVA e na Capricho que aprendi que sexo não era necessariamente prova de amor e que, pasmem, eu também podia ter fetiches!"

Já escrevi aqui para o PapodeHomem sobre o Teste Bechdel, cujo objetivo é chamar atenção para o fato de grande parte da produção cultural contemporânea ser feita por homens, para homens, sobre homens. Para passar no teste, um filme precisa somente atender um requisito aparentemente simples:

 

"Existem duas ou mais personagens femininas que conversam entre si sobre um assunto que não seja homem?"

Folheando uma NOVA dá pra pensar: será que revistas assim estão formando mulheres ou simplesmente treinando gueixas sem cérebro nem discernimento para prazer dos homens do mundo?

Ou, em outras palavras, quantas matérias da NOVA passariam no Teste Bechdel?

Link YouTube | O teste Bechdel, bem explicadinho. Em inglês.

Como dizem por aí:

 

A Capricho é para a menina que sonha com sexo, a Gloss para a que arranjou e está tentando fazer direito, a NOVA para a que arranjou, não gostou e está procurando um jeito de ver se acha alguma graça nele, e a Cláudia para a que já desistiu.

Vale a pena ler o Manifesto da Revista TPM. Como todo manifesto, ele é infinitamente mais fácil de articular do que de praticar.

 

Parêntese sobre revistas masculinas

Falei de revistas femininas e não seria certo deixar de fazer o mesmo comentário sobre as masculinas.

As revistas masculinas tendem a ser menos nocivas aos homens do que as femininas às mulheres.

Elas se colocam em um patamar ligeiramente acima do leitor, mas não muito:

 

"Dirijo carros melhores, estou mais avançado na carreira, viajo mais, como mulheres mais bonitas, mas não sou o Eike Batista e você, um pobre proletário: sou seu irmão mais velho, basta me ouvir e não fazer nenhuma grande merda e você chega lá".

Por isso, enquanto nas revistas femininas, o tom é de autoridade paternal-imperativa, nas masculinas é de autoridade fraterna-mentoral. Para o leitor, a revista funciona menos como uma figura paterna autoritária que dá ordens e mais como um Yoda que libera seu potencial de herói.

(Matar simbolicamente o pai faz parte da jornada psicológica interna de todo homem. Então, as revistas masculinas tomam cuidado de não assumir uma persona que será inevitavelmente morta e superada. Afinal, mesmo morto o pai, a necessidade de figuras mentorais continua.)

 

"Acho que tem um bicho nas minhas costas..."
"Acho que tem um bicho nas minhas costas..."

Nos seus piores momentos, essas revistas perdem a mão e assumem um tom cagarregra pentelho, apesar de nunca se tornaram tirânicas como as femininas. Nos melhores, se tornam verdadeiros gurus para jovens em formação.

Naturalmente, tudo o que falei se aplica também ao PapodeHomem. Parte da nossa luta diária é contribuir para a formação de jovens homens sem lhes cagar regras e respeitando sua inteligência. Nem sempre conseguimos.

Mas tudo bem, o dia de amanhã está aí pra isso.

 

Narcisismo é não querer mudar

O PapodeHomem traduz e republica no Brasil alguns dos melhores artigos d'O Último Psiquiatra, um dos mais geniais blogueiros do mundo. Vou citar um trecho de seu artigo mais recente, que você deveria ler inteiro:

 

O objetivo dos mecanismos de defesa é impedi-lo de mudar. Para que depois do trauma da separação ou da perda, você ainda seja você. Mais triste/envergonhado/impotente/enfurecido/deprimido, tudo bem, contanto que você continue a ser aquele mesmo cara.
Isso é que faz o tratamento do narcisismo particularmente difícil: a característica número 1 da patologia é a preservação da identidade.
“Eu quero mudar”.
Não. Você quer ser mais feliz, claro, ter mais sucesso, sentir amor, beber menos, mas você quer continuar a ser você.
Só que não vai funcionar. A identidade que você escolheu é uma merda, pergunte a qualquer um. Mudança só é possível quando você diz:
“Quero parar de fazer os outros chorarem.”
O primeiro passo não é admitir que você tem um problema, mas identificar precisamente como você é um problema para os outros.

 

Quem procura, acha

Um dos melhores programas de TV a surgir no ano passado foi a série britânica Black Mirror, da BBC. Na época, escrevi para o PapodeHomem sobre o primeiro episódio, "The National Anthem". Mas é o terceiro episódio, entretanto, "The Entire History Of You", que tem a ver com o texto de hoje.

Em um futuro próximo, as pessoas dispõem de implantes oculares que lhes permitem gravar, estocar e rever tudo o que viram. Na primeira cena, quando um personagem volta de uma avaliação profissional na qual acha que não foi bem, seus amigos lhe pedem para passar as imagens no telão da sala, para que possam dar sua opinião.

Link YouTube | Blaack Mirror: The Entire History Of You.

Não é difícil antecipar o próximo passo, não? Se a leitora de NOVA chega ao ponto de inspecionar a geladeira e medir a crosta de gelo em cima da "refeição light", imaginem o que ela faria se seu homem estivesse ali dormindo, ao seu lado, com todas as suas memórias implantadas e disponíveis para visualização?

Não vou entregar o final do episódio. Vale a pena assistir.

 

Não precisamos coçar nossas coceiras

Eu me pergunto: quem escreve, lê, edita, PRECISA de uma matéria como essa da NOVA?

Quem é essa pessoa insegura e paranoica que, ao invés de procurar ajuda, de tentar mudar, de segurar sua onda, de buscar segurança interna... corre atrás de uma matéria que não só valida sua paranoia mas ainda lhe ensina a dar vazão ao seu comportamento praticamente criminoso?

Quem é essa revista que, ao invés de entrevistar psicólogos que digam que esses tipos de instintos paranoicos não são normais nem saudáveis, que talvez indiquem coisas profundamente erradas tanto no relacionamento quanto na pessoa paranoica... corre atrás de "sociólogos" (sic!) e detetives para montar "um curso completo para espiãs da investigação amorosa"?

Sim, todo mundo já sentiu aquela vontade de futucar o celular da pessoa amada. Todo mundo já abriu o computador uma vez... e o facebook do outro ainda estava conectado. Hmm, o que custa abrir só as conversas dela com a melhor amiga dela e buscar "alex" e "tamanho do pau"? Hmmm.

Mas alguém não sabe que isso é errado?

 

Você, quando não segura sua onda, fica assim.
Você, quando não segura sua onda, fica assim.

Instintos nocivos a gente sente o dia todo. Sentimos vontades terríveis e inconfessáveis diariamente. E, mesmo assim, todo santo dia, a esmagadora maioria de nós não mata e não estupra, não invade e não agride. Porque, apesar da vontade às vezes ser quase incontrolável, ela é sim controlável.

Porque todo dia nós decidimos que não vamos ser uma pessoa que mata e que estupra, que invade e que agride.

Não que isso seja lá um grande mérito. É nossa obrigação de seres humanos civilizados.

Mas é prova de que, sim, dá pra segurar nossa onda. Dá pra segurar a onda de xingar a empregada que quebrou o prato. Dá pra segurar a onda de atropelar a vizinha chata. Dá pra segurar a onda de vasculhar o armário de remédios do peguete.

Não precisamos coçar nossas coceiras.

 

Você é o que você faz

Eu não quero ser a pessoa que desconfia da namorada. Eu não quero fazer perguntas traiçoeiras cujas respostas eu já sei. Eu não quero ler um email que não foi escrito para mim.

Eu decidi que não quero ser essa pessoa. Eu não sou essa pessoa. Eu não sou essa pessoa porque eu não quero ser essa pessoa. Eu não sou essa pessoa porque 99,99% de tudo o que acontece no universo (provavelmente mais) está fora do meu controle, mas eu pelo menos ainda tenho controle sobre algumas coisas: eu é que decido se eu vou ser uma pessoa babaca e cri-cri e ciumenta e desonesta e desconfiada.

Poucos conselhos são mais canalhas do que o clássico “seja você mesmo”. A maioria dos problemas do mundo veio de gente que estava simplesmente sendo si próprio. Mais importante do que “ser você mesmo” é ser quem você quer ser. Todas as forças do universo nos impelem a nos conformarmos, a aceitarmos as regras do mundo, a cedermos, nos moldarmos. Ser a pessoa que você quer ser é uma das tarefas mais difíceis do mundo. É uma luta diária, surda, interna, contra seus próprios preconceitos, suas mesquinharias, seus egoísmos.

Quer ser menos invejoso, menos ciumento, menos egoísta? Então, seja.

Ser quem você quer ser é o mínimo que deve a si mesmo. Se você não é nem isso, então você não é nada.

(Dois de meus melhores textos são sobre isso: “alex, como faço para ser uma pessoa melhor?” & você é o que você faz)

 

O inferno são os outros

Ceder aos nossos piores instintos é uma descida ao abismo.

É engraçado que a NOVA chama suas dicas de "inspeção sutil" mas, sinceramente, quando você se torna finalmente a pessoa que mede a crosta de gelo do refrigerador do seu namorado, os passos seguintes vão se tornando ainda mais fáceis e irresistíveis. Afinal, se você ativamente já vigia o histórico do browser do seu namorado, poxa, o que tem de mais ler as mensagens do Facebook que ele esqueceu logado? Um pecado é ativo; o outro, passivo.

Mas a descida literalmente não tem fim, pois ela não é só prática e concreta, ela é também uma descida filosófica e abstrata.

Em um primeiro momento, essa pulsão parece ser possível de ser satisfeita. Só uma olhadinha no porta-luvas e, pronto!, estou tranquila.

Pena que não é verdade. Porque uma pessoa que precise olhar no porta-luvas para ficar tranquila é IMPOSSÍVEL de ser tranquilizada. Ela jamais estará tranquila. Nem com esse homem nem com nenhum outro.

Porque nunca dá pra saber o que está dentro de outra pessoa. Porque o inferno são os outros. Porque os outros são e sempre serão o maior e mais insondável mistério da experiência humana. Porque os outros são um buraco negro sem fim. O que é cruzar o Atlântico, ir a Marte ou explorar a Fossa das Marianas comparado à penetrar os sentimentos do namorado?

 

Explorar a Fossa das Marianas ou realmente conhecer outra pessoa? Escolha a primeira opção.
Explorar a Fossa das Marianas ou realmente conhecer outra pessoa? Escolha a primeira opção.

Sim, ele diz que te ama, sim, ele te dá presentes, sim, ele passa boa parte do tempo livre ao seu lado.... mas será que ele gosta de VERDADE de você? Será que ele não pensa em outras mulheres enquanto te penetra? Será que ela não gostava mais do ex-namorado atleta pauzudo?

E, no meio do desespero surdo causado pelo eco dessas perguntas, você pensa:

 

Não sei, não sei, não sei, mas deixa só eu dar uma olhadinho no cesto de roupa suja... Se ele não tiver copos gelados no refrigerador, então, tudo vai ficar bem.

Mas não vai, né? Não tem como ficar bem. Nenhum outro pode passar num teste tão exigente. Quem procura, acha. Sempre.

As provas estão aí para ser interpretadas ao bel-prazer da acusação.

 

O paradoxo de Zeno

E nunca é o suficiente.

Como no paradoxo de Zeno, a flecha disparada nunca consegue chegar ao alvo, pois quando ela percorre metade do trajeto, ainda falta a outra metade; e quando ela percorre a metade do percurso que faltava, ainda continua faltando a outra metade; e assim sucessivamente, o alvo cada vez mais perto e cada vez mais inatingível, pois falta sempre a última metade, e mais a última e a última.

Link YouTube | O Paradoxo de Zeno, bem explicadinho, na versão do coelho e da tartaruga.

A leitora da NOVA é a flecha de Zeno. Depois de vasculhar a geladeira, falta a roupa suja. Depois do histórico do browser, falta quebrar o email. Depois de lidos os sms, falta o contexto. Mas, no fundo, a seta nunca chega ao alvo. Porque o que a pessoa desequilibrada quer é penetrar dentro dos sentimentos do outro e isso é impossível. Ela pode violá-lo, persegui-lo, matá-lo, dissecá-lo... mas nunca entrar realmente nele.

Mais fácil explorar a Fossa das Marianas.

A única vitória possível está em não lutar. A paz vem não da resposta à irrespondível pergunta:

 

"Será que ele gosta de mim"

Mas sim de se perguntar:

 

Por que preciso disso pra saber se ele gosta de mim? O que está faltando em MIM que nenhum OUTRO poderia fornecer?

E, mais importante:

 

Como buscar ajuda? Como mudar? Como deixar de ser uma pessoa que violenta a intimidade e agride a privacidade das pessoas mais próximas a mim?

 

Dedicatória & agradecimentos

Um escritor é tão bom quanto seus interlocutores. Esse texto não existiria se o Fernando não só se dispusesse a conversar comigo como ainda me permitisse incorporar muitos de seus próprios comentários ao texto como se fossem meus e, mais ainda, lesse o rascunho com cuidado, me forçando a cortar todos os trechos pelos quais eu teria sido fatalmente linchado. Na dúvida, considerem que as melhores sacadas são todas dele. O texto também não existiria sem um editor-chefe como o Guilherme que sabe melhor que eu os assuntos que eu abordaria bem e que me manda escrever sobre as coisas que eu provavelmente acabaria não abordando de pura preguiça.


publicado em 31 de Julho de 2012, 11:23
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Alex Castro

alex castro é. por enquanto. em breve, nem isso. // esse é um texto de ficção. // veja minha vídeo-biografia, me siga no facebook, assine minha newsletter.


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