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A Arte serve para alguma coisa?

Há tempos da nossa história em que precisamos retomar a velha discussão. O que é e pra que serve a arte?

Cá estamos, meu amigo, como sempre hasteando o bastião da sabedoria nas pilastras da galhofa. Sem tempo há perder, vamos esquentar nossas mentes.

À lógica.

Para entender qual a função de algo, o primeiro passo é descobrir o que, exatamente, é este algo. Ao contrário do que grande parte do senso comum pensa a respeito do assunto, a Arte pode e deve ser definida por parâmetros racionais.

Mas por que definimos alguma coisa?

Por que só assim teremos capacidade de julgar o pertencimento deste algo a uma categoria.

E qual a importância de categorizar?

A de nos possibilitar uma tomada de decisão mais rápida e mais assertiva sobre o potencial  benéfico ou maléfico de um assunto em relação a nós mesmos.

Numa época em que o acesso a informação é o maior que já se viveu, a categorização é essencial a uma vida saudável. Mas não existe um lado ruim em categorizar? Existe. Ao definirmos uma coisa, nossa relação com ela tende a se tornar imutável, o que faz com que uma decisão errada em um momento, se torne centenas de decisões erradas em momentos futuros.

Não existe bônus sem ônus e este é mais um sinal do quão importante é termos conhecimento dos assuntos que nos dizem respeito. E lembre-se, defina as coisas com firmeza, mas nunca com certeza. Essas nos dão paz, nos amortecem, é por causa delas que igrejas floresceram, que ditadores governam, e é por isso que vivemos a procura de um messias para nos salvar.

Voltemos a tema principal com a pergunta: o que é Arte?

Existem inúmeras definições do que é Arte ao longo do tempo. A base do nosso entendimento foi caracterizada na Antiguidade Clássica:

Toda habilidade especial dentro de certo conjunto de regras passíveis de aprendizado.

Fazer um excelente pão era legitimamente tão artístico quanto fazer uma bela pintura. Este significado começou a se alterar durante o Renascimento.

Imagine numa época sem muito entretenimento, como era entrar numa igreja e ver anjos, demônios, um Deus, bem na sua frente? Michelangelo era o Spielberg, o Kubrick e o Chaplin ao mesmo tempo. As pessoas viam uma escultura, uma pintura e poderiam chorar copiosamente ou se assustarem petrificadas. Era um blockbuster por metro quadrado.

Algum tempo se passou até que chegamos ao Iluminismo, baseado primordialmente em um viés científico, o período foi um dos grandes responsáveis por estabelecer o conceito de Arte (visual) que conhecemos hoje.

Ao notarem que pintores e escultores não reproduziam a natureza ou os fatos por meio de mimetismo, começou-se a dissociação da visão de que a Arte fazia parte da Ciência, tornando-a a responsável pela interpretação de sentimentos e de tudo que estava fora do alcance da razão.

Bonito, né? Nem tanto, pois este foi o ponto em que a intangibilidade começou a tomar de assalto o segmento.

O primeiro homem a poder personificar a “culpa” pela redefinição da Arte foi Immanuel Kant. O manolo foi responsável  por grande parte do nosso sistema de pensamento moderno, mas também tornou a Arte um poço de subjetividades. Se antes a qualidade artística poderia ser medida por características técnicas tangíveis (perspectiva, volume, proporção, harmonia), agora era dito que tudo dependia do espectador, cabia a ele fazer o juízo estético de uma obra, não mais baseado no seu conhecimento, mas sim no prazer e desprazer que ela proporcionava e se ela fazia ou não sentido para ele.

O grande paradoxo deste pensamento é, ao meu ver, um intelectual como Kant dificilmente teria a capacidade de avaliar algo meramente por meio do prazer, então creio que todo seu conhecimento também acabava afetando seu julgamento artístico, mesmo que  seus princípios lhe dissessem que não.

Agora pensemos juntos. Quão danoso pode ser quando um dos maiores filósofos do mundo ocidental diz que você não precisa de nenhum conhecimento para avaliar uma obra, basta apenas que “goste” ou não? A principal questão é que, embora se crie uma aura de “acessibilidade” na Arte, se destrói o conceito original de que era preciso algum conhecimento especial específico para a criação de boa qualidade.

E aí vem a grande questão: Quem vai dizer o que é bom ou não quando não existem parâmetros universais para nos servirem de guia?

No começo do estabelecimento deste novo conceito, ocorreu muito progresso. Vieram os impressionistas, os expressionistas, muita gente que surgiu para contestar o tecnicismo artístico que prevalecia (onde se dava mais atenção ao uso das ferramentas do que ao discurso).

Autorretrato com Cristo Amarelo, de Paul Gauguin

Foi uma época curta, mas extremamente prolífica. Artistas com grandes recursos técnicos se sentiam à vontade para tentar algo diferente e ainda se preocupavam com o discurso de suas obras. Foi a tempestade perfeita. Artistas que detinham toda a base teórica e técnica de conhecimento se sentiram a vontade para arriscar e utilizar suas ferramentas no limite extremo de suas funções. Os mundos aristotélico (clássico) e kantiano (moderno) se uniram uma única vez.

Mas muito rapidamente os efeitos da lógica estética kantiana começaram a fazer suas vítimas. O que se seguiu daí foi um sem número de ramificações, artistas confortáveis em não precisar seguir nenhum parâmetro apontavam, à torto e à direito, o que era boa arte e quanto mais influentes fossem seus amigos, mais certos eles estariam. Não à toa, Van Gogh morreu fracassado e com as pinturas contestadas. Sendo obsessivo e mala daquele jeito, era difícil arranjar quem falasse bem dele. Depois de morto, recebeu a flagrância da beatificação e pôde deixar a importância social de sua família fazer o papel orgânico de alçá-lo a gênio incompreendido.

Caveira com cigarro aceso, do Van Gogh. Mas também poderia um autorretrato dele esperando os camaradas

E a farofa não acaba por aí. Continuando com a mutação da arte ocidental, temos mais um nome que poderia personificar parte da “culpa” de confundirmos o extintor de incêndio de uma galeria com uma das obras do seu acervo.

Este cara é o Duchamp.

Em um ambiente Kantiano, mais permissivo do que nunca, ele foi responsável pela criação do Ready Made, que se trata da apropriação artística de objetos construídos para outras finalidades. A partir deste momento, não só os objetos industrializados poderiam ser arte, mas também o próprio corpo humano, o que abriu espaço para a performance como expressão artística.

E qual o problema disso? É que, ao desprezar o conceito clássico de arte pautado pela técnica e pela manufatura, ele tornou somente o discurso a única expressão vital da arte.

Então lembra aquela acessibilidade que Kant propôs ao dizer que o caráter belo de algo dependia somente do espectador? Pois bem, me parece que aconteceu exatamente o contrário, pois, aqui, qualquer um poderia se dizer artista e travestir sua obra apenas de discurso, sem que tivesse nenhuma qualidade de linguagem ou forma. E aí que se deu  início ao gigante abismo entre público e arte.

Um dos grandes exemplos de que a Arte agora era pautada por quem era seu autor e não, necessariamente, pelo que era criado, é Jackson Pollock.

Pollock, o descolado

Seu trabalho foi considerado, por grande parte dos críticos, uma ode ao lado selvagem, instintivo e livre do ser humano. Mal se sabia na época que, na verdade, grande parte do sucesso dele e de alguns de seus contemporâneos se devia ao forte posicionamento (inclusive financeiro) do governo americano para combater os russos durante a Guerra Fria. Enquanto a União Soviética propagava seu ideais por meio do realismo socialista (um estilo estético político que pregava, entre outras coisas a sobriedade do realismo), os Estados Unidos  (e a CIA) alçavam Pollock a categoria de gênio libertário, reforçando a propaganda de uma América livre de doutrinas e qualquer tipo de amarras.

Gelly Korzhev, um dos ídolos soviéticos da pintura

Os anos se seguiram e a arte visual foi se preocupando cada vez menos com a sua forma e cada vez mais com seu discurso. Seu impacto cultural de massas foi diminuindo e, em paralelo, a importância do networking foi aumentando, até chegarmos à crise que estamos hoje, em que a maior parte do conteúdo artístico produzido desperta apenas a atenção de um nicho específico de pessoas que se beneficiam da arte financeiramente ou por meio de status.

Então, como tornar a arte relevante novamente e, chegando à nossa questão inicial,  para que isso serviria?

O trabalho avassalador de Kathe Kollwitz

Meu palpite: 

Identifico o momento atual como o começo da decadência do discurso artístico em detrimento do impacto visual por três fatores:

1. O fim de um ciclo, caracterizado pelo ápice de seu fator determinante. Chegou-se na potência máxima da arte que não utiliza a forma, em que quase toda a experiência visual precisa ser “pré explicada” por alguma outra ferramenta discursiva (como um texto, um guia, ou a opinião de um “especialista”).

2. Devido a falta de tempo que dispomos para ler toda a base teórica que legitima o artista carente de linguagem visual de qualidade.

3. O surgimento de uma grande leva de novos artistas que visam estabelecer a técnica como principal ferramenta conceitual (numa espécie de academicismo moderno), tornando a arte, aparentemente, mais acessível ao grande público.

O aumento do movimento conservador ao redor do mundo pode agir de maneira benéfica neste ponto.

E, afinal, para que diabos serve a Arte?

That Gentleman, de Andrew Wyeth

Pessoalmente, entendo-a como um conceito mutável que reverbera sempre o período em que se vive, ora sendo um espelho, ora sendo uma resposta.

Atualmente, creio que nossa maior necessidade seja nos defendermos do entorpecimento que o alto grau de informação diária nos gera. Uma vida vivida no automático, com pouco tempo para reflexão e com percepção de sensações muito reduzidas. Dentro dessa perspectiva, a arte se aproximaria da meditação, um momento em que somos transportados, nos utilizando da contemplação, ao império dos sentidos, que intensifica nossa potência de sentir a vida e, por conseqüência, de vivê-la.

E o que é a Arte?

The West Wind, de Winslow Homer

É o instante seguinte à batida de carro, ao assalto, àquela morte repentina de alguém próximo. É o momento indescritível que nos mostra que sentir é a única forma de nos percebermos vivos.

Concordam? 

Como sempre, espero que tenha sido útil ou, ao menos, divertido!


publicado em 13 de Dezembro de 2016, 00:00
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Bruno Passos

Pintor e dono da Conto Figueira. Ama livros, filmes, sol e bacon. Planeja virar um grande artista assim que tiver um quintal. Dá para fuçar no Instagram dele para mais informações.


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