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Quando alguém manda "preciso falar com você" | Do Amor #64

O que poderia muito bem ser um reencontro humano e saudável

"Será que eu consigo falar com você ainda hoje?". A mensagem recebida fez o aparelho celular brilhar no escuro do quarto e, ao ver a foto dela na tela acesa, deu um pulo da cama na direção do criado-mudo. "Claro! Mas... tá tudo bem? Precisa de algo?", ele respondeu com o intuito de conhecer melhor o novo terreno. Há várias semanas ela mesma havia pedido distância completa após o fim do namoro de cinco anos. Precisavam não ter um ao outro no cotidiano recente para que pudessem ressignificar a relação e a dependência mútua.

Não estavam se falando e nem tendo acesso às redes sociais um do outro. Era o breu. E daí a chegada dessa mensagem sem qualquer aviso prévio, com uma intimação tão direta e urgente o fez sentir os dedos dos pés formigarem. "Tá tudo bem sim. Me deu uma vontade de falar contigo hoje", ele leu no app de conversa. Se levantou e, em pé ao lado da janela, abriu o vidro e respirou fundo antes de devolver. "Claro! Podemos nos ver hoje sim. E que bom. Deve ser coisa boa então". E passou a alternar os foto do olhar entre os três pontinhos indicando que ela estava a digitar e os carros brincando de acelerar e parar no trânsito carregado lá embaixo.

E foi melhor ainda. Em vez de uma nova mensagem escrita, recebeu um pequeno arquivo em áudio com mais ou menos três segundos que continha uma risadinha dela seguida da afirmação: "Com a gente é sempre bom, bebê".

Nas alturas. Colocava o áudio para escutar novamente enquanto batia três dedos da mão no batente da janela como se quisesse chamar sorte, como se estivesse agradecendo aos que olhavam por ele em outras esferas e, agora, finalmente engendravam a seu favor. "Com a gente é sempre bom", repetia a voz gravada e metálica. "Com a gente é sempre bom".

Foi pro banho enquanto repassava os últimos acontecimentos, remascando umas memórias boas, alegrando-se com a sequência de lembranças bem encaixadas, como quando a gente se empolga de vez com a volta de uma série e vai puxando na cabeça "onde foi mesmo que parou a história?". E foi colocando razão em tudo o que evocava, foi um período saudável de separação, uma necessidade humana de se perceber como indivíduo, a possibilidade de fazer crescer novamente os estímulos da saudade, da vontade de ficar juntos de novo. Era só ir até lá, conversar de modo civilizado e deixar brotar o tesão de novo.

Achou estranho ela marcar o encontro na frente de uma lavanderia no centro, mas foi de coração aberto. Chegando lá, a viu saindo do estabelecimento com uma sacola de roupas debaixo do braço. "É, faz uma semana que eu tô morando aqui no centro. É bacana pra caramba, tem muita coisa pra fazer aqui", ela disse enquanto fuçava com um do braços dentro da sacola. A estranheza por parte dele veio de se recordar dela falando que achava o centro meio bagunçado demais, mas colocou na frente a sentença de que pessoas estão no mundo para mudar mesmo com o tempo. Talvez entenderia melhor dos motivos dela quando sentassem para falar melhor em algum bar ou café ali por perto.

Mas ela comentou que tava um pouco atrasada, que não ia dar tempo pra sentar. Tirou da bolsa cheia de roupas lavadas uma camiseta vermelha que era dele. "Pois é, tava lá em casa, Engraçado que nem na mudança eu percebi que ela foi junto", ela comentou. "Daí esses dias um dos caras que eu tô ficando encontrou na gaveta dele. Muito maluco. Mas tá aí. Queria te devolver".

Ele perguntou do número exato de dois com os quais ela disse que estava saindo. "Pois é, eu tô vendo dois caras, mas um deles quase não sobe lá em casa, a gente acaba ficando no carro dele mesmo, a gente acha mais excitante essa coisa de parar em alguma rua pra se pegar. E você? Não tá saindo com ninguém, né?".

Foi a senha que abriria a cabeça dele. Compreendeu ali, naquele ponto e com aquela entonação da pergunta, que o chamamento dela não foi para aproveitar da companhia um do outro, menos ainda para reatar alguma conversa sobre a relação deles, mas tão somente pela alfinetada, pelo gozo de ter superado algo que a outra parte ainda não superou. E ela queria ver na cara dele a derrota.

E conseguiu. 

Ele nem tentou disfarçar a decepção. Aproveitou todo o plano dela e lhe deu o que tanto ansiava. Seu rosto virou uma careta de estrago e prejuízo, deixou a voz falhar e fez com que as frases saíssem sem começo ou final, só um balbuciar mole de quem já não quer tentar. Entregou bem o que ela queria. Respondeu que não estava saindo com ninguém e começou a chorar.

O amor é arma. E dói.

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publicado em 01 de Setembro de 2017, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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