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Quando o apê dos bróders destrói a amizade

Dicas na Internet para sobreviver ao duro teste de "morar junto" existem aos montes, principalmente para casais que acreditam que "liberdade na vida é ter um amor para se prender" (F. Carpinejar). Entre os comparsas de cerveja e parceiros de labuta, volta e meia surgem pseudoespecialistas que apresentam regras de comportamento infalíveis para um relacionamento sem turbulências.

Não consultei o IBOPE para sustentar o meu chute, mas após uma boa espiada no Google, arrisco dizer que a mesma "consultoria" não é oferecida àqueles amigos que também decidem juntar seus trapinhos sem, é claro, a tradicional conchinha em uma bela cama de casal king size.

Há uma vasta legião de desempregados, estudantes, ovelhas negras da família, jovens em ascensão, párias da sociedade, solteirões convictos e gente das mais variadas estirpes que também se arriscam no pantanoso - e por vezes movediço - terreno da moradia compartilhada. É nessas horas que pode ser uma bela furada dividir um barraco para sair debaixo da saia da mãe e economizar uma grana. Em alguns casos, a coisa fica feia e a fatura cobrada pode ser o fim de uma longa amizade, sem direito à reparação por danos morais e materiais.

Digo isso por experiência própria e sem nenhuma pretensão de fazer do meu caso um guia de medidas apropriadas para essas situações. Este texto é um ensaio pessoal. Portanto, entenda, cheio de mágoas.

“Guerra improvável, paz impossível”

Se alguém tivesse me dito anos atrás que a nossa amizade acabaria, não levaria um milímetro de tal profecia a sério. Responderia com um sorriso desdenhoso, mandaria o agitador invejoso para o inferno e celebraria o nosso futuro. Contra este prognóstico charlatão, tinha a nosso favor quase dez anos de amizade no retrovisor e um futuro nada desagradável: as chaves do apartamento 705, de piso surrado e paredes desbotadas, mas com uma vista para o mar santista que ninguém botaria defeito. E com um bônus: a paisagem garantida por, no mínimo, dois anos e meio – conforme garantia o contrato de aluguel, assinado em abril de 2010.

Mas devo dizer, camaradas, a amizade acabou, game over, the end, já elvis.

Após mais de dois anos vivendo sob o mesmo teto, quase nos estapeamos, faltou pouco. Tenho certeza de que qualquer um de nós levantaria um Muro de Berlim dentro do 705 para não ter o desprazer de cruzar o inimigo. As nossas posições estavam demarcadas.

Ele, publicitário-capitalista-individualista, entrincheirava-se na sala. Eu, metido a socialista-barbudo-anti-imperialista, me refugiava no quarto. Movimentos calculados. Não transitávamos no mesmo ambiente e, se por alguma infelicidade isso acontecia, ambos faziam questão de fingir que o outro não existia. Estávamos em plena guerra fria. A correlação de forças era equilibrada e as áreas de influência do território também.

Por ter ficado com o quarto, tinha o conforto de uma cama de casal e um ventilador de teto; por ter ficado com a sala, ele tinha acesso a uma tevê velha de 29’ e uma área mais espaçosa. Respeitávamos nossas fronteiras, mas nem por isso o ambiente deixava de ser sufocante; o conflito nos privava de andar com liberdade dentro da própria casa.

Entenda minha acidez. Não é fácil falar sobre isso. Ele sabe, foi meu último amigo. Com ele e para ele, compartilhei segredos. Não aqueles estúpidos, típicos de adolescente, mas aqueles sujos (talvez igualmente estúpidos, vá lá) sem qualquer resquício de falsidade ou meias verdades. Não nos julgávamos e parecíamos ter uma sensibilidade especial para entender nossas aflições. Não tínhamos todas as respostas para as nossas dúvidas, mas quem se importa? O foda mesmo era discutir tudo com honestidade.

Por isso, chapados de entusiasmo e embriagados com altas doses de ingenuidade, não achávamos que morar juntos seria um problema.

As pequenas agressões de cada dia

Enquanto tudo está bem temos uma enorme capacidade de relevar ou até mesmo nem enxergar pequenos erros ou atitudes que nos enchem o saco no dia a dia. Mancadinhas, mesmo que repetidas, são “esquecidas” – muitas vezes em nome da amizade que, claro, é bem maior do que atritos minúsculos.

No entanto, quando esses elementos reaparecem após merdas gigantescas – mentiras, traições, quando você acha que ele deu em cima da sua namorada ou coisas do tipo – a porra fica séria e, num passe de mágica, começamos a lembrar de uma enxurrada de erros que no passado recente foram considerados microscópicos, sem qualquer relevância.

Desde a mania de deixar pratos cheios de comida na pia, não lavar a porra da frigideira direito, deixar óleo de cozinha escorrer pelo fogão, sujar o banheiro quando acabou de ser limpo ou pouco ajudar nas compras de comida, tudo isso vem à tona com indignação. E o pior: de uma só vez.

Por isso, um dos erros mais comuns é desviar para um bom senso abstrato a responsabilidade por erradicar quaisquer tipos de conflitos do cotidiano. Muitas vezes, sob o medo de parecermos chatos ou sermos mal interpretados, ou até mesmo em nome da amizade, nos recusamos a estabelecer no início da convivência uma lista, mesmo que mínima, de regras para a casa.

“Não precisa” – dizemos para nós mesmos – “é besteira”.

Mas é preciso sim, logo aviso, saber que tipo de comida será coletiva e que tipo de comida será individual – porque egoístas e avarentos que somos, não gostamos nem um pouco de chegar em casa e ver que aquela bolacha separada para depois da janta simplesmente sumiu. Se o teu parceiro tiver, de fato, bom-senso, não ficará de mimimi por cumprir uma disciplina básica de convivência. Nesse ponto, como podem ver, fui reprovado e peguei DP.

Se por um lado a convivência não gera por si só um ambiente impregnado de discórdia, não deixa de ser verdade o fato de que ela nos proporciona revelações que jamais viriam à tona em uma relação baseada em encontros casuais.

Quando moramos juntos percebemos que a pessoa não é simplesmente “desligada”. Com a intimidade, deixamos os eufemismos de lado, porque a repetição de gestos e atitudes revela um padrão de comportamento. Tudo se torna mais claro, o espaço para dúvidas diminui.

Glória feita de sangue

Acredito que ambos chegaram a enxergar aquele pedaço de concreto como um lar. Ver o 705 se transformar aos poucos em um mero lugar para dormir, tomar banho e escovar os dentes, certamente não foi fácil para nenhum dos dois. Para piorar, ainda havia algo potencialmente em disputa: o Zé, cãozinho vira-lata que adotamos juntos numa época em que o dilema sobre quem ficaria com o pulguento definitivamente nos parecia distante.

Por passear mais com ele, por comprar mais ração, por ter sido o único a gastar dinheiro com veterinário quando ele ficou doente, ficou fácil vencer essa disputa; Foi com orgulho e semblante de vitória que deixei o apartamento com o Zé ao meu lado.

Por um tempo, confesso, tentei ser otimista e acreditar que as coisas iriam se acertar. Acreditar que os defeitos dele poderiam ser facilmente superados, que tudo era fruto da minha imaginação. Quis derrubar meu ceticismo, enxergar um ângulo mais positivo da história, dar chance a uma nova interpretação dos fatos.

Zé: amigo e espólio de guerra

O cara me largou na rua, no meio da balada, mas só porque é desligado. O cara sempre deixou pra comprar bebidas e comidas boas quando estava sozinho, mas devia ser pura coincidência. Assim que arranjou um bom emprego, comprou um carro em vez de retribuir a paciência e ajuda que prestei durante os tempos de vacas magras, mas o reconhecimento virá. O cara usou tua cama, sujou tua cama, leu seus livros, rasgou seus livros, tentou pegar sua ex-namorada, imitou tua barba, espiou suas conversas, fodeu a tua vida, mas um dia irá ressarcir todos os prejuízos – de ordem financeira, emocional e moral. Será? Deixa pra lá.

Com o contrato no fim, sem qualquer chance de renovação depois de tantos conflitos, cada um tomou o seu lado. Não posso dizer que selamos um tratado de paz, me parece mais uma trégua. Poderíamos ter tentado isso ainda no próprio campo de batalha, mas acredito sinceramente que tentamos até onde deu – cada um ao seu jeito, cada um segundo a sua capacidade. Escrever esse texto faz parte disso.

Ele se mudou para outro apartamento, em outro bairro, com outros amigos. Nenhum deles com o mesmo grau de intimidade que tivemos um dia. Pode significar menos problemas, pois são menos projeções, menos expectativas, menos decepções, menos histórias.

Eu me mudei para um kitnet a uma quadra do edifício onde morávamos, com a companhia indispensável do Zé, que me ajuda a fechar a porta pra solidão. Quando passeio com ele pelas ruas do bairro, três vezes por dia, consigo ver em várias esquinas e becos do Boqueirão a sacada do 705, onde vivi por quase 30 meses.

Na lembrança, poucas alegrias, muitos erros e uma pequena história pra contar.

Nada mais libertador do que abandonarmos as nossas trincheiras, arrancarmos as nossas armaduras e nos libertarmos de um conflito que não parecia ter fim.


publicado em 29 de Janeiro de 2013, 12:03
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Leandro Olimpio

Leandro Olimpio tem 26 anos, mas já sofre a crise dos 30. É paulista por nascença, itanhaense por essência e carioca por opção. Jornalista por formação, largaria tudo por uma revolução.


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