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Quase campeão, fui derrotado | ID #19

 

"Fred, tudo bem contigo?
Sou fã de sua coluna no PdH, cara. Acompanho sempre e tenho uma pergunta bem direta.
Como lidar com uma derrota profunda e concreta?
Não a decepção de um trabalho mal recebido, o torra do chefe escroto ou o término com a namoradinha de infância. Tô falando da queda mesmo, a que te derruba do cavalo e te deixa no meio da estrada sem rumo.
Sou esportista de uma modalidade individual e recentemente perdi, pela terceira vez, a final do campeonato que sempre sonhei em vencer (prefiro não revelar pra manter o anonimato).
Coloquei minha vida pra chegar até aqui. Anos e anos de suor, dificuldades financeiras, dedicação quando todo mundo ia pra farra e disciplina. Competi em todo tipo de torneio menor, venci um bocado deles.
Era meu momento de vencer dessa vez, tinha tudo a meu favor. Passei por todos adversários de um maneira que nunca tinha feito antes. E perdi, de novo.
Sinto como se não fosse "pra mim" ganhar de verdade. Como se meu destino fosse ficar pra sempre esperando uma glória que nunca vai chegar.
Por mais que soe bobo ou infantil, é foda pensar diferente quando você apostou todas suas fichas nisso e se vê até mesmo "velho" demais pra tomar outro rumo ou se reerguer na carreira como atleta – mesmo que eu seja mais jovem do que imagina.
Já lidei com a derrota antes. Mas essa foi fundo demais. Espero escutar algumas palavras suas, se puder.
Abraço!"

Eu não consigo, nem de longe, me colocar no seu lugar. É como se toda sua luta por se sentir vitorioso fosse tirada de um momento para o outro. Importante dizer: ao mesmo tempo, sua jornada vai ao encontro de milhares de pessoas que tem a nítida sensação de que viveu uma vida em vão.

Normalmente, valorizamos as pessoas notáveis, famosas, que enriqueceram e brilharam sob o holofote do prestígio social. No entanto, sempre me perguntei sobre aquelas outra centenas de não-Ayrton Sennas, de não-Bill Gates e não-Roberto Carlos que já passaram por essa Terra. Como teriam sobrevivido a essa sensação aparentemente aterrorizadora de viver até o fim dos seus dias com a incompletude de ser um quase-fenômeno?

Essas pessoas – a maioria de nós – precisaram encontrar rotas alternativas, se não conseguiram ver suas flechas lançadas para o mundo exterior. Certamente deverão fazer um esforço de outra ordem, sem roteiros, garantias ou aplausos. Essa jornada diante de você é de outra natureza, talvez mais anônima e menos abastada como idealizou nos seus dias de sonhos mais vívidos.

Nesse cenário talvez não seja convidado para festas ou premiações e é possível que não colha nenhum tipo de troféu para exibir numa estante vaidosa.

A modalidade que está diante de você é da descoberta de si mesmo, tão jovem quanto possível.

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Nesse esporte, não existe regra clara e muito menos um pódio previsível. Os típicos juízes não estarão presentes e a única testemunha será você e a maneira de ver a si mesmo.

Seu oponente será daquele tipo mais impiedoso, pronto para cobrar um preço alto pela derrota. O que está em jogo não é o prêmio, mas a sensação de pertencimento à espécie humana. Apesar de ter falhado, você ainda é um de nós e merece toda a consideração possível.

Nos ensinaram que a única forma de ganhar seria balizada por métricas financeiras e sociais. Para a minoria, demarcadores generosos, poucos embates e até vitórias sem grande esforço. Para outros, um sino da vitória silencioso, culpa e vergonha de encarar cada novo dia diante do espelho.

Acho que estamos todos muito perdidos, pois legitimamos um paradigma no qual todos, em algum momento, ficaremos de fora. Depois do auge do desempenho, mesmo os vitoriosos serão trocados por outros ícones mais interessantes e jovens.

Em última instância, morreremos e não há método rejuvenescedor que consiga impedir.

Se estamos todos enganados o que se podemos fazer? Seguir em frente.

Na vitória ou na derrota, é fundamental perceber uma outra atmosfera interior que caminha sem se fazer perceber. Nesse mundo oculto é que a verdadeira natureza da vida se desdobra silenciosamente.

Ali, a moeda de troca é de espécie diferente, o que nos enriquece é a qualidade das relações que estabelecemos. Quanto mais abertos e disponíveis, mais empoderados nos sentimos. Talvez, no seu universo atual isso possa soar falso e essas palavras pareçam o consolo dos derrotados. Asseguro: qualquer pessoa em uma fase madura pode testemunhar essa realidade.

Na prática, isso quer dizer que há um universo adiante para usar todas as habilidades psicológicas úteis na sua vitória interior, insuficientes para levar a taça.

Daqui pra frente, ofereça algo de si para aqueles que vêm atrás de você e querem ver seus sonhos realizados. Mas deixe claro para cada um deles – assim como para si: a luta que se ganha nem sempre é aquele que foi vencida.

Essa disputa é com o gigante interior que deseja tudo e não consegue sentir satisfação real.

Se mesmo assim sua dificuldade a seguir em frente for imensa, saiba que esse sofrimento é uma criação da sua mente. Apesar das infinitas possibilidades, você vê apenas caminhos bifurcados. Na jornada interior nem sempre preenchemos os requisitos de vitórias curriculares, mas podemos dar um significado profundo à vida.

Tome seu tempo. Mergulhe em sua tristeza. Encara essa derrota aparente. Não acelere o luto. Quando tentamos pular uma fase dessas tentando uma repescagem para sair por cima, o custo é alto. Não tenha pressa nesse momento, ninguém será testemunha dessa revolução interior.

Depois que a poeira abaixar e cada coisa ganhar o seu lugar e, mesmo assim, ainda sobrar a sensação de derrota, olhe com cuidado.

Se a figura derrotada for o desejo insaciável de se sobressair, então ande de cabeça erguida.

Você se tornou um homem diferente.

soco

 


publicado em 18 de Outubro de 2013, 08:33
File

Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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