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Quem termina ou quem toma o pé na bunda? Tem certo nessa história? | Do Amor #77

Uma história, mais de uma visão

Eu me fodi. Depositei toda a fé de uma vida nesta relação e acabei vivendo uma ilusão. Escuta só, eu era todo dedicação, fiz mesmo de um tudo pra avançar com a nossa relação. Mudei hábitos, me ajeitei todo para os padrões que ela achava adequado. Olha só, eu me transformei em outro para poder seguir com ela, todo privado do que eu gostava, e por conta do quê? De um namoro que agora se acabou, um estrago que eu tentei evitar, fiz das tripas, coração pra deixar tudo em ordem.

Mas embolorou.

Rata, ela. Culpada, sim. Me pediu um tempo e fez com que as horas corressem diferentes para ela e para mim. Enquanto passei a semana toda sentado no sofá da sala arquitetando melhoramentos, estratégias de retomada, criando na cabeça um unguento pra sarar esses machucados de discussões passadas, para ela parece que se foi pra mais de anos. Apareceu toda mudada, com cabelo cortado e roupa nova, um olhar repousado atrás dos óculos escuros, um abraço quase maternal em mim, diferente em todos os aspectos daqueles apertos de começo de aproximação, quando a gente se queria era colar um no outro para todo o sempre. usava outro vocabulário, disse que havia pensado e que era sensato o afastamento, que sentiu-se mais segura e atenta fora do ambiente hostil que havia se tornado a nossa casa, que, agora de fora, podia ver que nada mais tinha ali para ser cultivado, resgatado. Disse, a inconveniente, que me via com bons olhos, mas não mais como par. E foi embora.

Me deixou aqui fodido. E mal dito ainda por cima, já que fiquei sabendo que ela já estava em outra, saindo com outro cara, zanzando de mãos dadas e toda arrumada, distribuindo sorrisos com outro a tiracolo. Vê se pode. Já devia estar é me metendo os chifres, me enfiando cornos, aquela cínica. Queria uma semana de folga era para ter certeza que seria recebida nos braços dele em definitivo. Precisava da segurança.

E eu aqui. Fodido. 

Vai se foder, viu.

* * *

Deitada no sofá da sala na casa da mãe, olhava para os próprios pés sem ter muitos pensamentos na cabeça. Só reparava em seus dedinhos, no vermelho do esmalte, na maneira com que alguns respondiam com mais afinco e outros mais preguiçosos ao estímulo vadio de se mexerem. A tranquilidade reinava em seu peito após o término. 

Foi um desgaste tremendo. Meses de discussões cada vez mais intensas, com o tom de voz sempre mais alterado, com palavras nunca antes pronunciadas naquela ordem formando ofensas e humilhações de ambos os lados, nervos à flor da pele, uma relação de idas e vindas sem fim, com vontades genuínas de fazer dar certo, mas que já estava com dois metros para dar com a cara no muro depois de diversas tentativas dela de terminar. Era preciso frear. Bruscamente. Travar tudo e repensar rotas.

O tempo.

Pedido por ela, que primeiro enxergou a necessidade de se ver sem ele, de se perceber num mundo maior que o daquele cotidiano, de não voltar depois de outra briga, de ouvir o que as outras pessoas estavam falando, que ela estava se afundando, que há muito tinha perdido sorrisos e brilhos, o interesse nas coisas da vida. Esperou uma semana e terminou. Conversou com ele, explicou seus novos anseios, desejou-lhe sorte e ofereceu, num futuro próximo, amizade e parceria, razões e auxílios que mais uma vez não foram muito bem recebidos, pelo contrário, de imediato foram rechaçados com mais insultos e pedradas, a expulsão sumária dela da vida dele. Pior ainda foi quando, um mês e pouco depois, ainda precisou reviver uma baixaria quando ele descobriu que ela estava saindo com outro. A ideia da traição fez com que ele aparecesse feito um bicho machucado na tourada, precisando retirar as espadas engasgadas, desesperado de ver o próprio sangue escorrendo sem ao certo saber de onde. Abriu o berreiro, chamou o outro para a briga, fez um vendaval atrapalhando o sábado, foi embora jurando vinganças e revanches, torcendo por desgraças para tudo o que estaria por vir.

Ela avançou quatrocentos porcento na nova etapa. Mais atenta e disponível, mais maleável e pé no chão, equilibrava o novo relacionamento com sua vida pessoal e familiar, com sua profissão e seus próprios avanços. 

Tudo estava bem. Todos estavam bem.

* * *

Calhou de só ter uma pessoa triste nessa história. E aconteceu de ser eu.

Fodido. Vai se foder, viu.

* * *

O amor é uma história com vinte lados.

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publicado em 16 de Março de 2018, 00:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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