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Se eu for sincero, serei desinteressante | ID #16

Bom dia,
Tenho 27 anos, casei há 6 anos. Há um ano me divorciei (foi minha primeira namorada). Logo após o divórcio comecei a namorar outra garota. Terminei o namoro após 7 meses, pois tanto esta como minha ex-mulher foram apresentadas (empurradas) a mim. Resumindo, não me interessei pelas duas. Terminei o namoro pois me apaixonei por uma colega da Faculdade, nunca manifestei a ela, porém, nos aproximamos nos últimos meses.
Dos 20 aos 27 anos tive que recomeçar minha vida 3 vezes, minha vida financeira virou um caos. Como ela não trabalhava, meu último namoro me afundou ainda mais. Agora, conhecendo esta colega, independente, casa própria, carro, financeiramente bem resolvida, acredito que sou um estorvo a vida dela, não irei acrescentar nada, me sinto sujo e incapaz de continuar.
Tem sido diferente. Ela quer me conhecer, quer que eu a conheça, mas eu tinha uma visão de que a conquista é baseada na impressão que devemos passar, ou seja, se eu for completamente sincero, provavelmente serei bem desinteressante.
Obrigado.

Meu caro,

Eu seria ingênuo se afirmasse que o sentimento é a única coisa que importa num relacionamento e que um problema com dinheiro poderia ser superado como um passe de mágica.

Grande parte dos relacionamentos entra em crise por pura inabilidade para gerenciar os próprios recursos. Quando se trata de relacionamento amoroso é ainda pior quando isso se alimenta de uma cultura machista em que o homem não tem valor se não for o provedor absoluto.

Já pensou se todo mundo fosse obrigado a ser igual ao George Clooney?
Já pensou se todo mundo fosse obrigado a ser igual ao George Clooney?

As experiências que nutrem uma relação são patrocinadas pela capacidade de criar e administrar o próprio dinheiro. A impulsividade ou cautela de alguém repercute nas escolhas financeiras e ignorar esses traços de personalidade como secundários é coisa de filme romântico.

Pra mim, com base no seu relato, pareceu que ela deixou uma folga para que a relação se construa sobre diversas bases, sendo que o dinheiro, ainda que faça parte delas, não é o determinante agora.

Uma característica de pessoas maduras é a capacidade de gerenciar crises e superar seus obstáculos, mesmo sem o kit completo e nem ter todas as respostas.

As três formas de alienação

Algo chamou atenção no que escreveu:

"Tanto esta como minha ex-mulher foram apresentadas (empurradas) a mim."

É curioso notar como podemos assumir uma vida que não é a nossa por mais tempo do que imaginamos. Quando uma pessoa afirma que foi casado com uma mulher "empurrada" é importante refletir sobre o valor da própria responsabilidade.

Vejo três formas de entender a alienação de uma pessoa: a existencial, a emocional e a ideológica.

Não é nova a ideia de que a cultura nos arrasta com suas imposições ideológicas que acabam "determinando" muito da maneira com que encaramos o dinheiro, o amor, a família, sexualidade, o trabalho e que certas visões limitadas podem abafar completamente a autonomia de uma pessoa.

Mas a alienação que mais me chama atenção é aquela travestida de racionalidade e ficam camufladas especialmente na maneira que conduzimos os nossos discursos.

Por exemplo, quando alguém afirma: "há certas coisas que temos que fazer, quer queira ou não", reparo no subtexto de alguém que se retira da autoria da ação. Quem tem que fazer? Quem impõe a obrigatoriedade?

Gostaria de elencar muitas possibilidades alienantes de encarar a vida presentes em falas que terceirizam a responsabilidade do autor:


  • Autoridades: "não tinha como fazer diferente, meu chefe me obrigou"

  • Impulsos: "fiz isso porque me deu tesão, sou uma pessoa muito instintiva"

  • Forças externas vagas: "lavei a louça porque tive que fazer"

  • Ação grupal: "quem não fuma?"

  • Regulamentos e estatutos: "é a política da empresa"

  • Um traço ou condição psicológico ou patológica: "sou assim por causa da minha infância/mãe/pneumonia/depressão"

  • Ação do outro: "bati nele porque me procovou"

  • Por scripts ou papéis: "só fiz isso porque sou pai de família/homem/mulher/criança/idoso"

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Todas essas maneiras de expressar ações cotidianas nos retiram do centro do palco da narrativa e abrem espaço para muitos enganos como o que você realça. Na tentativa de aliviar ou parecer vitimado por uma situação recorremos a subterfúgios linguísticos e podemos passar uma vida toda negligenciando nossa vontade.

Gosto da imagem dos aros do pneu da bicicleta sustentando uma jornada e de como cada um deles compõe a força das pedaladas. Em cada frase que usamos como subterfúgios é como se um aro fosse tirado. Com o tempo a força da pedalada diminui e o senso de existência pessoal enfraquece.

Depois de tantas vezes que nos posicionamos sem assumir a força ou a fraqueza da nossa invisibilidade de responsabilidade fica escancarada num sentimento de vazio.

A vulnerabilidade da força

"Se eu for completamente sincero, provavelmente serei bem desinteressante."

Superficialmente a meritocracia que adotamos recompensa os vencedores e exclui os perdedores. Mas pense que nascemos absolutamente aceitos enquanto crianças, uma atitude boa ou ruim fora de hora são recebidos com a mesma alegria pelos adultos.

Com o passar do tempo o nível de exigência aumenta na mesma medida que nossa capacidade de execução. Não importa o quanto sejamos bons, as exigências tendem a aumentar. Essas marcas ficam e se olhar no fundo dos olhos das pessoas "fortes" verá uma dose de medo sutil pulsando e paralisando muitas ações.

Esse medo de serem invadidas, agredidas, enganadas faz com que adotem e projetem imagens de si mesmas vitoriosas e fortes para que ninguém as ameace. Se você conseguir imaginar esse estado generalizado de fragilidade subliminar poderá se comunicar com uma outra dimensão das pessoas.

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Quando um homem falha, broxa, fracassa ou se endivida, imediatamente vê todos os valores que o reafirmam naufragarem. Ele esquece outros sentidos que o validem como a integridade, resiliência, humildade, pró-atividade, sabedoria e flexibilidade. Nessa hora da desventura você pode se abrir mais e experimentar uma nova forma de interação que conecta sua fragilidade essencial com a da outra pessoa.

É possível aproveitar períodos de baixa para desenvolver e aprimorar uma visão de compaixão com os outros e consigo mesmo e atravessar um período de caos com serenidade. Talvez ela veja valor pessoal em sua habilidade de navegar em mares tumultuados.

Se tentar assumir que a fragilidade que atravessa não o desmerece e tomar para si as escolhas que fez poderá se relacionar de forma sincera sim. Você é sempre o primeiro obstáculo de suas realizações, os outros só refletem a naturalidade com que encara ou não suas limitações.

Nota do editor: o trabalho da coluna ID é auxiliar em sua jornada de amadurecimento e desenvolvimento pessoal. Continuem mandando suas dúvidas, vamos cavar mais fundo e explorar mais sobre nós mesmos: id@papodehomem.com.br


publicado em 07 de Julho de 2013, 21:52
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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