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Todo exibicionismo é ruim?

A margem entre ser considerado exibido e apenas gostar de ressaltar suas qualidades é pequena, borrada e permeável

Quem acompanha a coluna de traduções (por favor, acompanhe) deve se lembrar que há algumas semanas publicamos um artigo sobre narcisismo. Como vocês – leitores e leitoras do PdH – sempre me matam de orgulho, a discussão nos comentários rolou super bem.

A gente conversou sobre o impacto das redes sociais no nosso próprio narcisimo e no alheio, citamos o recém-falecido Baumann e sua materialidade líquida e cheguei a uma espécie de conclusão de que não se trata de ser ou não narcisista, mas qual o nível de cada um de nós.

O tema me aguçou os sentidos. E me fez pensar que, como tudo na vida, começamos achando que é preto no branco até descobrirmos que na verdade são tons de cinza. Foi então que comecei a ir mais fundo no assunto e encontrei esse texto análogo da Sandy Grant, filósofa formada em Cambridge, originalmente em inglês no site da excelente Aeon que vai nos mostrar justamente que nossas margens aparentemente fixas e impenetráveis são, na verdade, líquidas.

A tradução é de Julia Barreto e a conversa lá nos comentários é toda nossa.

Eu malho pra mim, não pros outros.

O exibicionismo é fácil de condenar, mas ele é sempre ruim?

Albert Einstein disse uma vez: “Eu prefiro o vício silencioso do que a virtude ostentosa”. Nesse gracejo está a afirmação que a virtude não se ostenta sozinha. Os virtuosos não se exibem. Eles não fazem as coisas só para impressionar. Sobre isso, estou com Einstein: eu preferiria que fossemos maus discretamente do que abertamente presunçosos. Tal como a filantropia conspícua, divulgar o quão bom você é não parece certo. Mas as palavras de Einstein levantam uma questão, que vem a seguir: exibir-se é sempre algo ruim?

Não há uma resposta pronta. Há falsas pistas também. O conselho para cultivar a modéstia, para manter nossas conquistas discretas, é uma delas. Assim como associar o exibicionismo à arrogância e a proposta de controlarmos o vício evitando extremos. Elas não irão funcionar, porque o exibicionismo nem sempre é ruim. Ele pode dar errado, no entanto, como iremos ver.

Uma abordagem melhor considera a variação cultural. O que é normal na Califórnia pode ser ofensivo em Cambridge, por exemplo. Mas notar essa diferença é só um pequeno passo. Isso não resolve a pergunta em questão, que é sobre quando o exibicionismo é ruim.

Considere então o que significa “se exibir”. Usamos essa expressão para designar um comportamento que tem a intenção de atrair admiração. Exibir-se não é só fazer algo bem em frente a uma plateia. Jacqueline du Pré tocando Elgar não está se exibindo. Ela está se apresentando, tocando violoncelo para o público. O que distingue o exibicionismo é a intenção por trás da ação. Quando eu me exibo, estou fazendo algo pela razão de querer atrair sua admiração. Quando condenamos os outros por se exibirem, fazemos esse julgamento num contexto de conjuntos intricados de significados. Estes são provisórios e estão sempre mudando, e portanto há muitos significados possíveis para as experiências que vivemos no nosso dia a dia.

Sob essa areia movediça, alguns tipos de exibicionismo são criticados. Há uma tradução literária em humilhar fanfarrões. Malvolio e Falstaff de Shakespeare vêm à mente. Mas há casos mais ambíguos. Suponha que alguém tuíte: “O Partido Liberal Democrata é feito de palhaços” para sinalizar sua posição política. A pessoa supõe que vamos ficar impressionados com isso, mas se suspeita que ela pouco sabe ou se importa sobre o partido. Ela está sinalizando a virtude. Aqui o exibicionismo parece pretensioso.

Mas isso não estabelece que todo exibicionismo é ruim. Também não mostra que se exibir é algo geralmente enganoso. O filósofo Peter Strawson usou esse último conceito. Em 1964, ele destacou que, ao me exibir, não tenho a intenção de assegurar sua admiração revelando que é essa a minha intenção. Na verdade, eu sei que é melhor esconder minha intenção para conseguir sua admiração. Se você captar minha intenção, você irá rechaçar ou ter alguma outra reação desaprovadora. Então, para Strawson, franqueza não faz parte da intenção do exibicionista. Mas devemos complicar esse cenário, levando em consideração as práticas atuais.

Há casos de exibicionismos gritantes. Vários desses são surpreendentemente inócuos ou até charmosos. Meu parceiro num encontro se exibe numa tentativa de me impressionar, ao recitar versos do meu poeta favorito, por exemplo. Nessa atuação, ele quer que eu esteja ciente do que está acontecendo. O meu reconhecimento da concretização da intenção de me impressionar está no âmago de como a pessoa pretende me impressionar. Tanto que, mesmo que os versos estejam errados, eu ainda vejo a representação da intenção de me impressionar como uma razão para ficar impressionada. Esse jogo do encontro é entendido por ambas as partes como tal. Por isso que exibir os “fracassos” se tornou uma parte importante de comédias românticas.

O cara só está tentando conquistar a gatinha.

Para Strawson, isso é bastante improvável. Mas os casos cotidianos são abundantes. Uma criança brincando se exibe para sua mãe: “Olhe para mim, mamãe!”. Nesse caso, ela quer que a mãe saiba o que ela está fazendo, tentando impressioná-la com suas trapalhadas ou sua audácia. A criança quer que a mãe saiba que ela está buscando por sua admiração. Ninguém mais serve. Vemos esse exibicionismo como genuíno, por causa do costume de considerá-lo dessa maneira. Um espectador cínico seria considerado um misantropo, ou pelo menos um grosseirão. A criança precisa aprender a fingir, porque habitar o mundo dos adultos é se portar como se tivesse um tipo de conhecimento sobre performances. Ainda é só para experimentar, para cometer erros, para achar um caminho brincando com as sutilezas da prática tão complexa de se exibir. Isso é fingir criar significados de maneira criativa. O exibicionismo gritante visto em shows de drag queens vem à mente aqui. Os artistas drag se exibem precisamente para chamar atenção para o seu exibicionismo. Eles fazem uma paródia de convenções relevantes.

Artistas drag subvertem significados convencionais, mas a necessidade de improvisar não é vista apenas em casos de subversão indiscutíveis. Por exemplo, práticas de designação de significado podem mudar com o tempo. O que pode parecer um exibicionismo inócuo hoje em dia pode escandalizar nossos avós. Nós temos que, em todos os sentidos, inventar as coisas conforme vamos avançando. Em tais circunstâncias, pode haver uma dificuldade em fazer — ou concordar com — o julgamento sobre se há ou não fingimento. Considere o fenômeno do mansplaining. Aqui, destaca-se um tipo específico de exibicionismo: o ato de um homem explicar algo sem considerar o fato de que a ouvinte (geralmente mulher) sabe mais do que ele. O “explicador” reivindica um conhecimento superior que na verdade ele não tem, fingindo ser mais esperto. Apesar de ser uma prática antiga, sua condenação é relativamente nova. Temos que decidir o que fazer com isso.

Performance e fingimento são partes do nosso modo de vida. As formas de falarmos sobre o exibicionismo reconhecem isso. O que chamamos — e às vezes condenamos — de exibicionismo é algo complexo, e mutável. Novas desafios surgem, incluindo aqueles de evitar o autoengano. Mas há também novos horizontes de possibilidades, novas formas de viver que se tornam disponíveis quando brincamos com o significado. E ele está em constante transformação.


publicado em 05 de Fevereiro de 2017, 00:05
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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