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Trabalhar demais: até que ponto? | Id #5

Oi, Fred. Belezinha?

Minha questão é profissional. Sou jornalista formada e trabalho na área há 4 anos. Hoje estou na função que acredito gostar mais: sou repórter. Adoro meu trabalho, mas perco muitos momentos importantes por conta dos horários.

Trabalhei em todos os feriados dos últimos três anos. A empresa é pequena, e me sinto escravizada. Minha escala é trabalhar 12 dias corridos e folgar dois. Fico extremamente cansada. Mesmo assim, é o melhor local para um jornalista trabalhar em minha cidade.

Tenho todos os meus direitos e eles nunca atrasaram meu salário em um dia. O valor pago é baixo, mas realmente estou bem com o salário pago atualmente. Por enquanto. Minha questão é que sempre fico com muito medo de estar abrindo mão de estar com meus amigos e família por uma profissão.

Sempre quis trabalhar com música, mas não tive oportunidade. É uma tristezinha que tenho. Fico pensando que deveria ter tentado entrar na área com mais afinco.

Hoje estou estabilizada e crescendo na minha função, mas sinto que perco muito da minha vida.

Devo arriscar uma mudança? Mudar de cidade e trabalhar numa estressante, com trânsito etc?

Me ajude?

Um grande abraço!

Minha querida,

A vida profissional é um lugar que ocupa a maior parte do tempo que nos cabe. Acho um assunto bem delicado e pertinente, afinal, envolve sobrevivência, relações de poder, dinheiro, ambição e equilíbrio com a vida pessoal.

Assim como não vejo a vida amorosa apartada da personalidade, não encaro o trabalho como um outro mundo distinto e radicalmente diferente do que a vida da própria pessoa.

Podemos ser profissionais ótimos e realizados que seguem uma linha padrão de comportamento assim como na vida pessoal, não vejo mudanças radicais. Aquela teoria de que o sujeito é um leão no trabalho e em casa um cordeiro (e vice-versa) bem falaciosa, ninguém sustenta uma farsa tão bem se não for um psicopata.

As pessoas que dizem que é preciso "jogar o jogo da empresa" para sobreviver, mas esquecem um detalhe: jogar um jogo é uma coisa, se perder nele é outra – e aproveitar do jogo sujo para mostrar suas armas é ainda pior.

Um empresa com uma pegada mais agressiva pode fazer você sacrificar certa tranquilidade, mas esse é exatamente o treino, ver o espaço de trabalho como um meio de evolução pessoal, o Gustavo Gitti já faloubastantedisso.

Exaustão emocional

"Trabalhei em todos os feriados dos últimos 3 anos. A empresa é pequena e me sinto escravizada."

Essa é uma fase que toda a pessoa já passou na vida, trabalhar exaustivamente. Outra coisa é passar a vida toda fazendo isso, ininterruptamente, achando que um dia vai parar.

Quando fazemos o que gostamos, trabalhar muito é quase um lazer, mas mesmo assim isso tem uma consequência grave, que é perder a noção de realidade e se perder num mundo à parte de outras probabilidades tão prazerosas quanto realizar o trabalho que se gosta.

Se uma pessoa trabalha exaustivamente sem a noção de que isso é um ensaio, isso pode ser uma desastrosa fuga da vida pessoal. Conheço muita gente que se alienou de si nesse caminho e depois se queixa que foi culpa do trabalho de ficar alheio da família ou do relacionamento amoroso.

Se eu tivesse que trabalhar assim, seria também com uma perspectiva de poupar financeiramente, mas sabendo o exato valor que preciso e com dia e hora pra parar. Sem concessões no meio do caminho.

Não caia na Síndrome de Burnout decorrente de um trabalho exaustivo, pois quando o trabalho se associa com sintomas de estresse, tremedeira, sonolência e depressão, o caminho de volta pode ser lento e desnecessariamente doloroso.

Vida pessoal vs. vida profissional

Se você encara sua vida pessoal como algo distinto da profissional, e vice-versa, isso pode ser um risco, pois pode pensar que apenas trabalhar é bom e ponto final.

O seu trabalho é sua única fonte de satisfação? Qual o risco da falta de parâmetros? Até que ponto você perde qualidade profissional por não ter um espaço para passear, amar, bater papo com amigos e ficar com a família? Uma coisa compensa a outra?

Não perca isso de vista toda a vez que você tiver que aceitar um trabalho ou estender o horário. Não caia no engano de tentar salvar seu chefe ou a empresa e que sem você o mundo não rodaria. Ele segue muito bem sem você também.

Só entendo que não haja essa distinção se o trabalho for encarado como uma parte do crescimento pessoal, e mesmo assim há o momento de intercalar os cenários, casa e empresa.

Retorno financeiro vs. retorno pessoal

Já vi muitas pessoas que trabalham no mercado financeiro dizendo que trabalhariam insanamente para juntar o pé de meia para conseguir sua casa dos sonhos. Depois de um tempo elas pareciam zumbis, sem pé e nem meia, completamente absorvidas por um tipo canibalístico de trabalho. Uma coisa não recompensava os prejuízos da outra.

Se você tiver que passar suas férias se recuperando do seu trabalho, não consigo ver a lógica em se matar de trabalhar por certo tempo para ter férias em Paris. Se você não tem uma mente pronta para relaxar por conta de uma vida de trabalho equilibrada, não serão as férias ou a casa fantástica que farão isso por você.

Na hora de você usufruir dos bens que conquistou trabalhando sem parar, pode ser que já não tenha saúde e vivacidade para perceber isso.

Sua vida amorosa precisa ser olhada com cuidado nessa hora, pois sacrificar dias, semanas e meses com uma relação afetiva mínima e desgastada em troca do trabalho pode custar um preço alto.

Ainda que uma mulher ou um homem achem que crescer profissionalmente seja prioridade, na prática querem compartilhar o tempo juntos.

As pessoas querem enriquecer, mas na verdade se esquecem que enriquecer sem ter com quem compartilhar não faz sentido. Uma mansão sem amigos para usufruir, uma viagem para o Caribe sem alguém para compartilhar loucuras ou um romance não faz sentido, uma carreira brilhante sem poder dividir o prêmio ou o bonus me parece um tipo corrida vazia de cheiro, gosto e real alegria.

Sim, somos seres sociais e carecemos dessa troca, ainda que muitos se considerem uma ilha independente.

Profissão "alternativa"

"Sempre quis trabalhar com música, mas não tive oportunidade. É uma tristezinha que tenho."

Se você resolveu seguir em frente com a sua profissão, pare de colocar o cenário do mundo "e se eu fosse música" de lado. Não crie um estraga-prazeres na vida usando essa escolha-alternativa-hipotética-frustrada. 

Já vi muita gente que vive em dois mundos sem por os dois pés nos chão por imaginar que "se um dia" largasse tudo seria o novo Beatles tupiniquim. Os Beatles treinaram e se arriscaram muito, não foi mágica.

Mudança de carreira

"Fico pensando que deveria ter tentado entrar na área [da música] com mais afinco."

Enquanto você está pensando, outros estão fazendo. Algumas pessoas sempre esperam condições ideais (que só acontecem no mundo imaginário) e sempre procrastinam tudo.

Curiosamente, essas pessoas procrastinadoras, aquelas que empurram com a barriga e deixam tudo para a última hora, podem guardar consigo um segredo emocional fechado até para elas.

Em sua dificuldade dm concluir tarefas, o procrastinador pode estar inconscientemente aguardando a mãe imaginária que o estimule e até mesmo aja em seu lugar. Um filho em forma de adulto que anseia perpetuamente pelo colo invisível de uma mãe acolhedora.

Para sua tristeza, ela nunca virá ao seu apelo, e se quiser crescer como adulto apenas a ele cabe concluir as tarefas que começou.

Resumindo, se você não criar uma estrutura real para transitar de área com a segurança que quer, seu sonho de seguir na carreira artística ou mudar de cidade nunca vai acontecer.

Concluindo

Na minha visão limitada, baseada no que você relatou, não me parece que esteja perdida, mas sim que está agindo de um jeito guloso. Quer tudo sem abrir mão de nada, e quer obter resultado garantido.

Desse jeito não, nenhuma solução chegará até você se não tomar uma decisão e levar ela até as últimas consequências.


publicado em 25 de Dezembro de 2012, 10:42
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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