Operação Carne Fraca: tudo o que você ainda não sabe

Quais os reais impactos da maior operação da história da Polícia Federal na sua geladeira e no seu bolso

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Na última sexta-feira, 17 de março, a Polícia Federal deflagrou a Operação Carne Fraca, aquela que está sendo tratada como a maior operação da história da entidade já que, no total, envolveu mais de 1,1 mil policiais em seis estados brasileiros (Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul, São Paulo, Minas Gerais e Goiás) além do Distrito Federal.

Abaixo você verá uma explicação detalhada das principais dúvidas sobre a operação com base no que já foi apurado pela imprensa nacional e internacional, além de consultas a fontes primárias.

Caso reste alguma dúvida, deixa-a nos comentários e nós seguiremos acompanhando o assunto para tentar te responder.

Índice

1. Como a Polícia Federal descobriu o esquema?

2. Quem está sendo investigado e do que eles estão sendo acusados?

3. Quais fábricas estão sendo investigadas e por quê?

4. Quais relações entre agentes públicos e privados estão sendo investigadas?

5. Qual relação está sendo investigada com partidos e políticos?

6. O que o governo está fazendo a respeito?

7. O que as empresas estão fazendo a respeito?

8. O que entidades independentes estão dizendo a respeito?

9. Qual o impacto da operação na economia?

10. Como a mídia está cobrindo os acontecimentos?

11. Como isso afeta nós, consumidores, e o que podemos fazer a respeito?

Como a Polícia Federal descobriu o esquema?

Apesar de documentos indicarem que o Governo Federal tinha indícios sobre as irregularidades desde 2015, as investigações começaram antes, em 2014, quando um ex-servidor do Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) no Paraná, chamado Daniel Gouvêa Teixeira, denunciou um esquema estruturado de pagamento de propinas que variavam de R$ 5.000 a R$ 50.000, além de alimentos e viagens – tratadas como 'ajuda de custo' – em troca de vista grossa dos fiscais quanto a uma série de atos ilegais praticados por frigoríficos, abatedouros e granjas.

As empresas investigadas pagavam ainda pela remoção de funcionários que não estavam no esquema e a partir daí adulteravam livremente os produtos vendidos tanto no mercado externo quanto interno. Alguns deles, inclusive, acabaram sendo utilizados na merenda escolar da rede estadual, onde estudantes teriam ingerido salsichas vendidas como sendo de peru, quando na verdade eram feitas de proteína de soja, fécula de mandioca e carne de frango.

Para sustentar as acusações, segunda consta na série de documentos anexados ao processo, foram incluídas denúncias realizadas ao Sindicato dos Fiscais Agropecuários, relatos de empresários e funcionários que sustentam a tese de que essa era uma prática comum dentre os subordinados ao MAPA no Paraná, comprovantes de depósitos bancários feitos na conta de fiscais e uma série de gravações telefônicas onde fica explícita a troca de favores entre agentes públicos e privados.

No desenrolar da investigação, porém, a Polícia Federal percebeu que o esquema ia além das fronteiras do Paraná e resolveu ampliar o alcance da operação, que acabou resultando nos 309 mandados judiciais emitidos na última sexta-feira, sendo eles:

  • 26 mandados de prisão preventiva;
  • 12 mandados de prisão temporária (válida por cinco dias; e mesmo os renovados, já encerrados);
  • 77 mandados de condução coercitiva (quando alguém é levado para prestar depoimento); e
  • 194 mandados de busca e apreensão;
Funcionários de frigoríficos foram presos e levados para prestar depoimentos na Polícia Federal.

Quem está sendo investigado e do que eles estão sendo acusados?

No total, 46 pessoas estão sendo investigadas, mas só há mandado de prisão para 38 delas. Em menos de 48 horas, 36 pessoas já haviam sido presas e duas estavam foragidas, sendo elas o empresário e dono do frigorífico Frigoberto, Nilson Alves Ribeiro – que mora na Itália – e seu filho, Nilson Umberto Sacchelli Ribeiro, diretor da mesma empresa, que se entregou à polícia quatro dias depois, na presença de seu advogado, em Foz do Iguaçu (PR).

Os investigados devem responder por crimes como falsificação e adulteração de alimentos, corrupção, lavagem de dinheiro e organização criminosa. Já as menções a políticos e a partidos interceptadas durante as investigações [como você vai ver a seguir] foram encaminhadas ao Ministério Público Federal, órgão competente para investigar autoridades com foro privilegiado como ministros, deputados e senadores.

A Polícia Federal afirmou que ainda não sabe o valor de propina paga nem estimou o volume de alimento fraudado, mas fora as prisões, também determinou que todos os suspeitos tivessem o saldo de suas contas bancárias bloqueado em até R$ 1 bilhão. O Banco Central informou, porém, que, até a noite do último sábado, 'apenas' R$ 2 milhões haviam sido bloqueados.

Apontado como chefe da operação, Daniel Gonçalves Filho, ex-superintendente do MAPA no Paraná, teve apenas 15 centavos bloqueados, ou seja, estava apenas 15 centavos acima do limite mínimo estabelecido pela justiça de R$ 5 mil. No entanto, o filho de Daniel, Rafael Nojiri, apontado como parceiro dos negócios do pai, também teve prisão decretada e R$ 301.838,00 bloqueados na sua conta.

A dupla é acusada de ter adquirido bens e imóveis incompatíveis com seus vencimentos, como uma BMW, um Ford Fusion e um Subaru Forester, todos pagos em dinheiro vivo, à vista, além de três apartamentos, uma propriedade rural, uma casa no interior do Paraná e um terreno que estão registrados em nomes de terceiros, como parentes e funcionários.

Quais fábricas estão sendo investigadas e por quê?

No total, 21 fábricas estão sendo investigas e você pode ver a acusação contra cada uma delas aqui, mas os casos mais graves, que resultaram no fechamento preventivo das unidades, são três: um da Brasil Foods (BRF), em Mineiros (GO), responsável pela produção de frango, Chester e Peru da marca Perdigão, correspondentes a aproximadamente 5% do total da operação do conglomerado; e outras duas do frigorífico Peccin Agro Industrial, até agora o maior envolvido nas investigações: uma em Curitiba (PR) e outra em Jaraguá do Sul (SC), responsáveis pela produção de salsicha e mortadela da marca Italli.

Caso da Peccin

Sobre as fábricas da Peccin, pesam as acusações de utilização de carne estragada em salsichas e linguiças, utilização de Carne Mecanicamente Processada (CMS, na sigla em inglês – espécie de mistura de carnes para embutidos) acima do permitido, uso de aditivos acima do limite (como água, pra inflar o peso dos produtos; ácido ascórbico [vitamina C] para “maquiar” as carnes estragadas; e amido, para baratear o preço da produção) ou mesmo de aditivos proibidos pela legislação.

Além disso, a empresa, com sede no Paraná, é uma das principais denunciadas por Daniel Gouvêa Teixeira. Segundo ele, após ter descoberto irregularidades durante uma fiscalização, a Peccin, que costumava subornar fiscais, encomendou a demissão dele junto à Maria do Rocio Nascimento, chefe do Departamento de Inspeção de Produtos de Origem Animal à época, que recebeu, como recompensa, quantias em dinheiro e ajudou a perpetuar o esquema. Sempre com a anuência também do já citado superintendente do MAPA no Paraná, Daniel Gonçalves Filho.

Em nota oficial divulgada em seu site, a Peccin limitou-se a dizer que está "inteiramente à disposição das autoridades policiais para prestar esclarecimentos", que está "confiante de que os órgãos competentes saberão discernir a efetiva veracidade dos fatos", que "lamenta a divulgação precipitada de inverdades sobre o seu sistema de produção" e que não tem qualquer ligação com a Peccin S/A, indústria gaúcha de doces e chocolates.

Na última quinta-feira, funcionários da empresa fizeram um protesto em frente à unidade em Jaraguá do Sul, contra a interdição cautelar do frigorífico. Eles temem perder o emprego e não acreditam que o alimento que produzem é de má qualidade. Os organizadores disseram que pelo menos 150 pessoas participaram da manifestação. A Polícia Militar não informou um número. Uma semana depois, todos os 177 funcionários da empresa receberam o aviso prévio de que serão demitidos.

Foto: Heverton Ferri/RBS TV

Ao lado de outros dois frigoríficos, da Souza Ramos e da Transmeat, a Peccin foi obrigada pela justiça a fazer um recall de seus produtos, ou seja, recolher até mesmo aqueles que já foram vendidos aos consumidores.

Caso da BRF

Já sobre a fábrica da BRF em Mineiros (GO), pesam acusações diferentes. Precisamente: corrupção, embaraço da fiscalização internacional e nacional e tentativa de evitar suspensão da exportação. Na prática, existem escutas telefônicas que indicam o envolvimento de funcionários da empresa, como o gerente de Relações Institucionais e Governamentais, Roney Nogueira dos Santos, preso no último sábado à noite, no Aeroporto de Guarulhos quando retornava de viagem; e o diretor da empresa para a região Centro-Oeste, André Luiz Baldissera, também preso; com agentes públicos, sobretudo o médico veterinário Dinis Lourenço da Silva, Chefe do Serviço de Inspeção de Produtos de Origem Animal em Goiás (Sipoa-GO), que além de também ter sido preso foi dispensado do cargo no Ministério.

Segundo os investigadores, a fábrica deveria ter sido interditada após ter sido barrada numa fiscalização num porto italiano por conter a bactéria Salmonella, capaz de causar vômitos e fortes diarreias. A partir daí, segundo a denúncia, a empresa agiu junto ao Ministério da Agricultura para impedir o embargo à fábrica e para passar a encaminhar a exportação para outro porto europeu, este em Roterdã, na Holanda. As escutas dão conta de que, em troca do favor, Diniz Lourenço da Silva, que ocupava cargo de indicação política, pediu apoio de R$ 300 mil à empresa na forma de doação para a campanha eleitoral municipal de Goiânia onde um candidato do PDT era cabeça de chapa, e um candidato do PTB, era vice.

— Roney: [explica o que Dinis disse] O que eu vou propor? Vamos suspender a certificação só do preparado e que eu vou dar um prazo para vocês se adequarem e eu vou fazer uma nova auditoria, para ver se deu certo.

— Interlocutor não identificado: Tá bom, tá ótimo.

— Roney: Aí eu peguei e falei: Tá bom, se for isso, eu concordo também. Mas aí o que vai ser o pagamento, entendeu? Aí ele pegou: “Pois é, preciso do apoio de vocês, você sabe que a gente ali do Ministério é por indicação partidária e quem coloca nós aqui no Ministério, que mantém a gente no cargo, é o pessoal do PDT e o nosso deputado aqui, que trabalha junto, é o Jovair Arantes [do PTB], e aí eu preciso do apoio de vocês na campanha eleitoral municipal”.

Em resposta às acusações, o PDT disse que nunca teve indicação de cargo no Ministério da Agricultura, nem mesmo quando fazia parte do governo, no mandato de Dilma Rousseff, muito menos agora que faz parte da oposição ao governo de Michel Temer.

Já o deputado Jovair Arantes, do PTB, disse que a única indicação dele e do partido para o Ministério da Agricultura foi Júlio Carneiro, exonerado em abril do ano passado. Ele disse também que em julho, já com novo governo, voltou a indicar Júlio Carneiro para um cargo no Ministério.

A defesa de Dinis Silva, por sua vez, informou que a suspeita contra ele é "carente de comprovação, precipitada e não se sustenta" e que se houver ação penal, Dinis vai provar que é inocente.

A defesa de Roney e André preferiu não se pronunciar a respeito.

Já a BRF afirmou em nota oficial que "o tipo de Salmonella encontrado em alguns lotes [...] é o Salmonella Saint Paul, que é tolerado pela legislação europeia para carnes in natura e, portanto, não justificaria a proibição de entrada na Itália." Além disso, a empresa afirmou que diante desse fato, discutiu duas iniciativas "1. O encaminhamento da mercadoria a outro porto, o de Roterdã, na Holanda" e "2. A antecipação da discussão do problema junto ao MAPA, em Brasília".

Sobre a interdição da fábrica, a empresa ressaltou que "apesar de o juiz da operação ter considerado desnecessário o fechamento da unidade, ela foi interditada, de forma preventiva e temporária, pelo Ministério da Agricultura" o que deve durar "até que a BRF possa prestar as informações que atestem a segurança e a qualidade dos produtos produzidos."

Ao que consta, a interrupção imediata da produção foi pedida pela Polícia Federal, mas a justiça negou o pedido alegando a "repercussão inclusive trabalhista que o fechamento representaria". Ainda assim, no mesmo dia à tarde, o Ministério da Agricultura decidiu interditar a unidade, o que resultou em motoristas com caminhões carregados aguardando informações na porta da fábrica e funcionários parados em casa sem trabalhar.

Caso da JBS

Apesar de estar sendo amplamente citada pela imprensa, as acusações contra a JBS, dona de marcas como Friboi e Seara, são bem mais brandas. 

A empresa teve três mandados de busca e aprensão compridos em suas unidades em Rolândia (PR), Lapa (PR) e Goiânia (GO), mas só esta última está sendo investigada por eventuais "irregularidades no procedimento de Certificação Sanitária".

Em resposta, a empresa emitiu nota onde se diz "a maior interessada no fortalecimento da inspeção sanitária no Brasil" e se coloca "à disposição das autoridades competentes, clientes e consumidores para qualquer esclarecimento". Além de reforçar que "os lamentáveis casos citados na imprensa sobre produtos adulterados não envolvem nenhuma das marcas da JBS".

Quais relações entre agentes públicos e privados estão sendo investigadas?

A relação próxima entre o funcionário público, Dinis Lourenço da Silva, e o empregado da BRF, Roney Nogueira do Santos, é uma das principais ligações investigadas pela Polícia Federal. Além do pedido de doação de R$ 300 mil à campanha eleitoral municipal de Goiânia, o funcionário público teria pedido também que Roney conseguisse junto ao empresário e presidente do Conselho Administrativo da BRF, Abilio Diniz, um teste para seu neto no São Paulo Futebol Clube, uma vez que este também é sócio influente do clube paulistano.

Dono de uma grande parcela das ações do grupo desde 2009, Abilio deve ser conduzido para mais uma mandato à frente da companhia e não está sendo investigado pela Polícia Federal, mas, fora a citação no pedido especial, tem relação próxima com outro envolvido na operação.

Trata-se do executivo José Roberto Pernomian Rodrigues. Ele foi convidado por Abilio Diniz para ser consultor da BRF em 2013, mesmo contrariando parte do colegiado da empresa. Depois se tornou assessor do então presidente, Cláudio Galeazzi, até virar diretor jurídico e finalmente vice-presidente de integridade corporativa, um setor responsável pelas áreas de reputação, jurídico, tributário, relações institucionais, de risco e de sustentabilidade da BRF.

Além disso, JR, como é conhecido, já atuou como advogado de Abilio na disputa do empresário com Casino, na ocasião da saída do mesmo do grupo Pão de Açúcar, e é casado com Renata Catelan, que até 2016 liderava o jurídico da empresa de investimento do empresário, chamada Península. 

Segundo apurou o jornal Estado de S. Paulo, Rodrigues tem prestígio e influência junto ao setor alimentício e trânsito livre no MAPA, mas em 2007 o advogado teve seu nome envolvido na Operação Persona, também da Polícia Federal, que investigava a empresa Cisco, acusada de montar um esquema de importações ilegais dos EUA para o Brasil que resultou num prejuízo de R$ 1,5 bilhão aos cofres públicos em impostos, segundo cálculos da Receita Federal. Na época, funcionário da empresa, o executivo foi condenado pela justiça, mas ainda recorre da decisão.

Já na Carne Fraca, JR foi alvo de um mandado de condução coercitiva para prestar esclarecimentos sobre sua aparição em conversas por telefone com Roney Santos a respeito da emissão de um recibo falso de reembolso de uma viagem que a BRF supostamente pagou para uma servidora do MAPA.

Apesar de não ter sido preso como os demais funcionários da BRF investigados, JR teve seu afastamento da empresa pedido pela Polícia Federal, mas o juiz do caso não acolheu por se tratar de uma empresa privada e porque, segundo ele, "os investigados agiam em nome e por ordem de seus contratantes." 

Outra relação que está sendo investigada envolve Flavio Evers Cassou, um dos presos preventivamente pela Operação. Segundo a Polícia Federal, o médico veterinário que está vinculado ao Ministério da Agricultura era também funcionário da unidade de Lapa (PR) da JBS, mas fora o eventual conflito de interesses, Flavio está sendo investigado pelo pagamento de propinas em forma de dinheiro e produtos à já citada Maria do Rocio Nascimento.

No processo, a Polícia Federal anexou ligações telefônicas entre os dois que, através de códigos, discutem pagamentos e benefícios, além de fotos da entrega de uma maleta e potes de isopor que o próprio Flavio leva até a casa de Maria.

Uma das fotos anexadas ao processo.

Segundo a Polícia Federal, "sabe-se que Maria do Rocio foi colega de faculdade de Flavio Evers Cassou porém, o relacionamento de ambos demonstra claras práticas de corrupção, com Maria do Rocio beneficiando a empresa em que Flavio Evers Cassou trabalha – assinando certificados feitos pela própria empresa, sem qualquer fiscalização efetiva –, mediante contraprestação financeira ou em produtos".

Os advogados de Flavio e Maria não quiseram dar declarações e a JBS, por sua vez, disse primeiro que "repudia veementemente qualquer adoção de práticas relacionadas à adulteração de produtos" e depois que "não compactua com qualquer desvio de conduta de seus funcionários e tomará todas as medidas cabíveis".

Qual relação está sendo investigada com partidos e políticos?

Em entrevista coletiva após deflagrada a operação, o delegado da Polícia Federal, Maurício Moscardi Grillo, afirmou também que haveriam partidos e políticos envolvidos com as ações ilegais investigadas.

Sem citar nomes, o delegado disse que ao longo das investigações ficou claro que uma parte do dinheiro era revertido para partidos políticos. "Caracteristicamente, [...], dois partidos ficaram claros: o PP e o PMDB". No processo, estão incluídos documentos que indicam o registro de depósitos em contas bancárias ligadas às duas legendas.

O delegado disse também que não podia afirmar se o esquema ligado a partidos ocorria há mais tempo do que o da investigação e afirmou que "não ficava caracterizado para qual político especificamente ia todo esse dinheiro." Entretanto, no processo o nome de dois assessores parlamentares aparecem nas gravações: Heuler Iuri Martins, do deputado federal João Arruda (PMDB-PR), e Ronaldo Sousa Troncha, do deputado federal Sérgio Souza (PMDB-PR). A Polícia Federal diz que, até o momento, não há indícios de participação dos deputados.

Outro nome de político que aparece citado em interceptações telefônicas é o do atual ministro da Justiça, Osmar Serraglio, na época em que este ainda era deputado federal pelo PMDB também do Paraná. O então deputado aparece em conversa datada de janeiro de 2016 com o já citado Daniel Filho. Serraglio fala a respeito de problemas na fiscalização do frigorífico Larissa, localizado em Iporã (PR), empresa de propriedade de Paulo Rogério Sposito, outro que está preso preventivamente.

— Osmar Serraglio: grande chefe, tudo bom?

Daniel Filho: tudo bom

Osmar: viu, tá tendo um problema lá em Iporã, cê tá sabendo?

Daniel: não

Osmar: o cara lá, que... o cara que tá fiscalizando lá... apavorou o Paulo lá, disse que hoje vai fechar aquele frigorífico... botô a boca... deixou o Paulo apavorado! Mas pra fechar tem o rito, num tem? Sei lá. Como que funciona um negócio desse?

Daniel: deixa eu ver o que acontecendo... tomar pé da situação lá tá... falo com o senhor (...)

Segundo o delegado da Polícia Federal e o juiz federal, o contexto da ligação era insuficiente para supor que Serraglio estivesse envolvido em irregularidades. "Sentimos que não havia crime por parte do tal ministro", disse Moscardi Grillo. "Porém, por cautela, foi necessário fazer esse informe para não sermos questionados." O delegado ainda complementou dizendo que o conteúdo referente ao ministro Serraglio será encaminhado à Procuradoria-Geral da República por conta do foro privilegiado.

Em nota oficial, o Ministério da Justiça afirmou que não há indícios de ilegalidade na conversa gravada e que a operação é “exemplo cabal” de que Serraglio não interfere no trabalho da Polícia. Já o próprio ministro deu entrevista coletiva na qual afirmou que conhece tanto Daniel quanto Paulo Sposito, que se referiu à Daniel como 'grande chefe' porque "aquele cidadão com quem eu falei é o superintendente do Paraná da Agricultura" e explicou a ligação dizendo que: "Eu recebi um comunicado dizendo que iriam fechar o frigorífico. Então liguei pra ele pra saber o que estava acontecendo. Aí ele pediu tempo, foi se informar com os servidores e me respondeu dizendo: 'olha, não se preocupe que não tem nada'."

A imprensa ainda apurou que, na prestação de contas da reeleição de Osmar Serraglio para deputado federal, consta declarado oficialmente uma doação de R$ 200 mil da JBS para o ministro, feita indiretamente, através do diretório nacional do PMDB, que representa a maior doação da campanha que arrecadou R$ 1,4 milhão.

A JBS, por sua vez, foi a maior doadora eleitoral em 2014, tendo repassado R$ 357 milhões a partidos e políticos, sendo que desses, R$ 61,2 mi foram para 162 deputados que acabaram eleitos. A título de comparação, empresas do mesmo setor como a BRF, doaram um total de R$ 5,9 milhões a deputados eleitos em 2014. 

O que o governo está fazendo a respeito?

Em resposta à operação deflagrada pela Polícia Federal, o Governo Federal, preocupado com a repercussão negativa no mercado internacional, reagiu.

Na mesma sexta-feira, além de fechar os três frigoríficos já citados, o Ministério da Agricultura anunciou o afastamento dos 33 servidores públicos citados. O secretário-executivo do Ministério, Eumar Novacki, fez questão de afirmar que se tratavam de "fatos isolados" e não um "fato cotidiano". Disse ainda que o episódio deixou o governo "indignado" e "muito contrariado", que o sistema da vigilância sanitária é "robusto", mas que "nenhum sistema está livre de má índole" e afirmou que o ministério irá tomar "todas as providências para punir aqueles que desviaram a conduta e trabalhar para que isso não volte a acontecer."

Na esteira do ministério, o presidente Michel Temer anunciou no domingo, durante uma reunião com embaixadores no Palácio do Planalto que criaria uma força-tarefa para auditar e fiscalizar todos os frigoríficos envolvidos nas denúncias da operação a fim de dar garantias e respostas o mais rápido possível para os países compradores da carne brasileira.

Após o pronunciamento, Temer convidou os diplomatas para jantarem numa churrascaria em Brasília. Lá, em contato com a imprensa, o presidente afirmou não ter visto exageros na atuação da Polícia Federal ao contrário do que o ministro da Agricultura, Blairo Maggi, tinha declarado anteriormente. Temer também mostrou-se preocupado com a repercussão internacional, mas afirmou que ouviu dos embaixadores convidados que transmitiriam "tranquilidade em relação ao consumo da carne brasileira" aos seus respectivos governos. Um comissário da União Europeia também esteve no Brasil nesta segunda-feira e afirmou que estava interessado em ajudar o país a restaurar a confiança em seu produto.

Temer levou embaixadores dos países compradores de carne à churrascaria.

Na segunda-feira seguinte, o próprio ministro da Agricultura esteve presente para acompanhar a inspeção da unidade da JBS, em Lapa (PR). Na ocasião o ministro afirmou que os processos são seguros. "Eles estão acontecendo normalmente dentro dos protocolos que nós temos." Além disso, se comprometeu a anunciar semanalmente o resultado da inspeção das 21 fábricas investigadas. O primeiro relatório foi apresentado nesta segunda-feira e não demonstrou risco nos alimentos para a população.

Já na última quinta-feira, o governo federal lançou uma nova plataforma para exportação de produtos brasileiros a fim de facilitar os processos e eliminar parte da burocracia. O lançamento, já estava previsto, mas foi utilizado também como forma de estancar a evasão de compradores internacionais.

Por último, líderes da Frente Parlamentar da Agropecuária (FPA) na câmara dos deputados se manifestaram a respeito da operação e sugeriram que a casa também criasse uma comissão para visitar os frigoríficos investigados, além de convocar o delegado responsável pela operação para prestar esclarecimentos sobre os procedimentos adotados nas investigações. A 'bancada ruralista' é tida como uma das mais fortes do Congresso e, segundo levantamento da Agência Pública, conta com pelo menos 207 deputados.

O que as empresas estão fazendo a respeito?

As empresas demonstraram apoio à operação, mas fizeram críticas duras a respeito de como as acusações foram divulgadas. Alguns especialistas também fizeram coro à essa crítica dizendo que a Polícia Federal deu a entender que a crise no setor era generalizada ao passo que as unidades investigadas representam menos de 0,5% do total, ou seja, 99,5% está em conformidade com a fiscalização e, até que o cenário mude, não estão envolvidas no esquema.

A preocupação geral é de que o Brasil, líder de exportações de carne bovina no mundo e responsável por 36% do mercado de carne de frango, perca essa condição depois de demorar 10 anos realizando investimentos para conquistar a confiança do mercado internacional. O setor foi prioridade do governo de Lula e Dilma, que deram incentivos via BNDES para a criação de grandes monopólios, capazes de disputar e ganhar terreno no mercado internacional, que hoje estão envolvidos no processo.

Na tentativa de preservar o máximo possível da imagem afetada pelo anúncio da operação, as empresas investigadas, destacando-se as maiores, investiram em campanhas publicitárias para tentar minimizar o impacto no mercado nacional. Em algumas peças, a JBS reforçou sua preocupação com a qualidade de seus produtos e ressaltou que "os lamentáveis casos citados na imprensa sobre produtos adulterados não envolvem nenhuma das marcas da JBS". Já a BRF contou com a ajuda dos seus funcionários para encampar uma propaganda na qual todos reforçam a confiança nos produtos da marca, consumindo-os e dando para suas próprias famílias.

Apesar disso, o estrago parece já ter sido imenso tanto na opinião pública quanto junto a outros setores da cadeia de produção. As maiores redes de supermercado do país – Carrefour, Walmart e Pão de Açúcar –preocupadas em serem afetadas pelo problema, pediram esclarecimentos aos seus fornecedores e decidiram posteriormente retirar parte dos produtos das prateleiras. O Carrefour suspendou todos os produtos vindos de unidades citadas pela Operação e o Pão de Açúcar retirou apenas aqueles que vieram de uma das três unidades interditadas.

O que entidades independentes estão dizendo a respeito?

Entidades como a Associação Nacional dos Peritos Criminais Federais (APCF) e a Federação Nacional dos Policiais Federais (Fenapef) também criticaram a operação por motivos distintos.

A primeira fez uma crítica mais grave ao divulgar nota na qual revela que os peritos criminais só foram acionados uma vez pela Polícia Federal durante toda a investigação e, ainda assim, o laudo resultante não comprovou danos. Já a segunda, defendeu a atuação dos agentes federais, mas também criticou a forma como as informações foram divulgadas ao afirmar, através de seu presidente, Luís Boudens, que "há uma orquestração para descredenciar as investigações de uma categoria que já provou merecer a confiança da sociedade", além de afirmar que o delegado responsável pela operação "não tem a menor condição de ser apresentado como coordenador de qualquer operação" dado que "seu tempo na Polícia Federal, por si só, já justifica sua inexperiência."

O delegado, por sua vez, deu uma série de declarações defendendo a atuação da Polícia Federal e sua equipe reagiu dizendo que ainda há provas sob sigilo e prometendo mais desdobramentos da operação. Já o próprio delator, Daniel Gouvêa Teixeira, afirmou que nem 1% do que a investigação já descobriu foi mostrado até agora. Nesta segunda-feira, também em resposta às críticas, o MAPA foi capaz de divulgar detalhadamente as acusações que pesam contra cada uma das empresas investigadas.

Qual o impacto da operação na economia?

Como já era de se esperar – e como alguns temiam – a operação também teve impacto direto no mercado de alimentos no Brasil e no resto do mundo.

A ação das companhias de mercado aberto foram as primeiras a sofrer. Ainda na sexta-feira, os papéis da JBS e da BRF caíram mais de 8% e continuaram em queda após o anúncio das sanções de vários países ao produto. Nos Estados Unidos, escritórios de advocacia renomados estão se organizando para processar as empresas, a exemplo do que aconteceu com outras empresas a partir de outras operações da Polícia Federal.

As sanções anunciadas também estão preocupando o governo a respeito do impacto que isso pode ter na economia nacional como um todo. A China, por exemplo, país que representa um terço dos US$ 5,5 bilhões exportados anualmente pelo Brasil apenas em carne bovina, suspendeu as importações até que as autoridades brasileiras garantam a qualidade dos produtos, incluindo aquelas que já estavam sendo entregues, o que deixou navios inteiros sem saber o que fazer com a carne no meio do oceano. Vale dizer que demora cerca de um mês para que a carne exportada pelo Brasil chegue aos principais portos asiáticos.

No último sábado, porém, os chineses voltaram atrás e reduziram as restrições apenas para os frigoríficos investigados, além de recolherem dos mercados as carnes fiscalizadas por agentes que se encontram presos pela operação.

Nesse sentido, os países e blocos que já anunciaram tais sanções estão sendo divididos em três grupos:

  1. Países que anunciaram suspensão temporária da importação:  Argélia, Panamá, Qatar, México, Bahamas, Hong Kong e Trinidad e Tobago.
  2. Países que anunciaram suspensão temporária dos frigoríficos envolvidos: Japão, África do Sul, Suíça e toda a União Europeia, além de Chile, Egito e China que estavam no grupo 1 anteriormente.
  3. Países que reforçaram o controle sanitário da carne brasileira: Estados Unidos, Arábia Saudita, Vietnã e Coreia do Sul, que chegou a anunciar suspensão temporária, mas depois voltou atrás.

Além deles, Israel e Barbados apenas pediram que fossem mantidos informados sobre o andamento das investigações.

Esses países, somados à decisão particular de importadores privados de vários outros lugares do mundo, já representaram uma queda brutal nas exportações brasileiras. Segundo dados divulgados pelo próprio governo, na terça-feira, 21 de março, apenas US$ 74 mil em carne foram vendidos para o exterior em comparativo com a média diária de US$ 60 milhões. Segundo dados mais atualizados da Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), as perdas já representam US$ 136 milhões, sendo US$ 96 milhões em carne bobina e US$ 40 milhões em suínos e frangos. Já nesta segunda-feira, os dados consolidados da semana anterior deram conta de uma perda de US$ 42 milhões só no período dos últimos sete dias.

A produção de carne envolve muitos empregos e afeta diretamente a balança comercial brasileira.

Como a carne é o, hoje, o terceiro produto mais exportado pelo país – atrás apenas da soja e do minério de ferro –, o impacto na balança comercial brasileira deve ser grande. O governo já calcula uma redução de 10% nas exportações do país, o que representaria US$ 1,5 bilhão a menos, além do fechamento de 420 mil postos de trabalho e R$ 1,1 bilhão a menos em arrecadação de impostos, já que a cadeia produtiva das carnes é extensa.

Como sinal disso, a Peccin, uma das maiores envolvidas nas denúncias da operação, já anunciou que demitirá todos os seus 177 funcionários e mesmo grandes produtoras como a JBS, que chegou a suspender a produção de carne bovina em 33 das suas 36 unidades, voltou a operar com uma redução de 35% da capacidade produtiva.

Além disso, especialistas dizem também que as denúncias não podiam ter vindo em pior hora. Com o país em recessão pelo segundo ano consecutivo, a tendência é que a operação comprometa os números de um dos pilares da economia brasileira que começava a esboçar sinais de reação. Eles estimam que, caso todos os países parassem de comprar a carne brasileira, o impacto no PIB poderia ser de até 1%, ou seja, a diferença entre fazer o Brasil voltar a crescer ou continuar encolhendo dado que a previsão atualizada do Banco Central é para um crescimento de o,5% em 2017.

A única boa notícia da parte econômica é em relação a inflação. Apesar dos economistas preverem um pequeno aumento no preço das carnes, o peso do setor para a conta total do índice é pequeno: apenas 3,69%.

Como a mídia está cobrindo os acontecimentos?

Impulsionados pelo interesse de seus países, equipes de reportagem de vários lugares do mundo, como Inglaterra e China, vieram cobrir os desdobramentos da operação. Jornais como o argentino El Clarín, os americanos Financial Times e Wall Street Journal deram destaque em suas edições para a operação, além da cobertura de agências internacionais como a Bloomberg e equipes de televisão como a BBC.

Mas a cobertura nacional também gerou repercussão. Muitos criticaram a forma como jornais e emissoras agiram em relação à operação fazendo colocações generalizadas e até desinformando, uma vez que as notícias diziam muito mais a respeito dos bastidores de poder do que sobre o impacto na vida dos consumidores.

Em relação a isso, resta dizer que, bem, já que a operação ainda promete muitos desdobramentos temos a possibilidade de começar a ver mais matérias como essas:

Carne Fraca: perguntas e respostas sobre a operação da PF nos frigoríficos.

Papelão e substância cancerígena ou exagero? O que se sabe - e o que é dúvida - na Operação Carne Fraca

Açougues e mercados descumprem regras da Vigilância Sanitária

Como isso afeta nós, consumidores, e o que podemos fazer a respeito?

O Ministério da Agricultura afirmou que a maioria das irregularidades não afetará o consumidor. O discurso faz parte de uma tentativa do governo federal de amenizar a crise, mas corrobora com a opinião de especialistas no setor.

Em relação à acusações de uso de ácido ascórbico nas carnes, o Ministério afirmou que sua utilização não é proibida por lei, desde que esteja dentro das normas estabelecidas. A substância só representaria algum risco à saúde se consumida em doses muito altas.

No caso do amido, também utilizado em alguns casos, segundo as acusações, o uso configura fraude ao consumidor e pode prejudicar pessoas que estão fazendo dieta com controle do consumo de glicose, como diabéticos.

Nos demais casos, como uso excessivo de água, reaproveitamento de substâncias vencidas, transporte da carne em caminhões sem refrigeração, etc, na dieta normal de um adulto, os produtos não devem causar danos mais graves do que diarreias, vômitos e mal estar, mas podem apresentar risco no caso de um consumo excessivo.

Quanto a isso, o secretário-executivo do Ministério da Agricultura, Eumar Novacki, disse que os consumidores podem confiar no selo SIF, do Serviço de Inspeção Federal, e contribuir acionando o sistema da vigilância sanitária sempre que pegar uma carne na prateleira que apresente "algum aspecto que não está de acordo,ou seja, o tipo, a aparência, ou o cheiro". A partir daí, "o Ministério da Agricultura tomará todas as providências de modo muito energético."

Além disso, os laudos apresentados até agora pelo Ministério indicaram que nenhuma das amostras analisadas apresentavam risco ao consumidor. Por certificação, porém, a justiça do Paraná pediu para que alguns frigoríficos retirassem do mercado seus produtos por não apresentarem provas suficientes do seu processo de produção e as principais redes de supermercado, fizeram isso, antes mesmo da decisão da justiça.


publicado em 28 de Março de 2017, 00:05
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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