Um método extremo para deixar seus maus hábitos

Uma pequena mudança às vezes só torna o problema pior. Vamos testar uma alternativa extrema e eficaz?

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Na semana passada a gente publicou aqui na série de traduções um artigo sobre um de nossos autores favoritos: Jason Fried. E hoje não vai ser diferente.

O artigo abaixo é de autoria do Mikael Cho e foi publicado originalmente em inglês no Crew. Assim como o autor, o assunto também é um dos nosso favoritos. Fica nessa intersecção de produtividade, qualidade de vida e como se tornar menos ansioso com as tarefas que se acumulam.

Vale dizer que a técnica que o Cho nos apresenta aqui não é exatamente nova – há relatos dessa técnica desde, pelo menos, 2007. Mas ele nos apresenta sob uma perspectiva pessoal e tem aquele jeitinho de escrever que nós gostamos.

A tradução mai uma vez é de Julia Barreto. Nos vemos nos comentários.

Um método extremo para deixar seus maus hábitos

Eu sou uma droga em um monte de coisas:

  • Tentar fazer muitas coisas em um só dia.

  • Exercitar-me regularmente.

  • Manter meu armário arrumado.

Eu tento ser melhor, mas mudar é difícil não importa o quanto você queira. Especialmente em relação às coisas em que você é péssimo.

Há muitas forças te puxando para não mudar. Seu cérebro não quer mudar. Seu corpo não quer mudar. O mundo não quer mudar.

Quando sou péssimo em algo, como tentar fazer muitas coisas em um dia, digo a mim mesmo que preciso ser melhor e imediatamente prescrevo algumas ações que imagino que me levarão ao nível de evolução que quero estar.

Por exemplo, reconheço que normalmente listo 10+ coisas para fazer num dia (coisas demais para se fazer num dia). Raramente consigo fazer mais de três tópicos da lista. Então no final de quase todo dia, me sinto ansioso porque sinto que não fiz o suficiente.

Minha solução foi limitar minha lista a somente 5 coisas para fazer. Isso parecia bom. Cinco tarefas por dia parecia razoável. Eu dizia a mim mesmo, “Bom. Você identificou um problema e prescreveu ações específicas e manejáveis para melhorar. Parabéns.”

Me sinto melhor.

Mas só me sinto melhor nos primeiros dias. Então minha lista começa a crescer e crescer a cada dia. Em uma semana, fico com uma lista de 10+ itens novamente.

Toda vez que procuro melhorar meu comportamento sobre a lista de tarefas, eu entro nesse ciclo de comportamento.

A cada duas semanas: “Coisas que sou péssimo” > “Fico um pouco melhor” > “Fico pior” > “Fico pior”.

Eu não estava indo a lugar algum.

Hoje eu aprendi que minha maneira de tentar mudar talvez seja outra coisa em que sou péssimo.

No lugar de uma pequena mudança, por que não 180°?

Eu recentemente li esse artigo chamado “Supercompensação para compensar” por Derek Silvers, escritor e fundador do CD Baby, um dos maiores vendedores de música independente na web. No post, Derek diz que a maioria de nós falha em mudar porque não fazemos o suficiente.

Derek usa uma metáfora de tijolos numa gangorra para ilustrar sua perspectiva.

Quando queremos mudar alguma coisa, começamos com todos os nossos tijolos de um lado da gangorra.

Se você cria uma mudança pequena, manejável, como reduzir sua lista de afazeres a alguns itens, é como se estivesse movendo um tijolo. Você talvez se sinta um pouco melhor, mas não é o suficiente para balancear as coisas.

O problema com pequenas melhoras é que não se leva em consideração o período de uma vida inteira pensando e fazendo algo da maneira que você sempre fez.

Hábitos são difíceis de matar porque são o caminho para a resistência mínima. E nossos cérebros preferem o caminho da resistência mínima. O que for mais simples é o que queremos fazer, e hábitos são simples porque não precisamos pensar. Nós só os seguimos como um trem segue os trilhos.

Você já viu um trem tentando mudar os trilhos? Demora uma eternidade. O trem precisa parar. Ir e voltar várias vezes. O controlador da ferrovia precisa mudar manualmente a trajetória dos trilhos. Eventualmente, o trem redireciona. É assim que a mudança de hábitos funciona no nosso cérebro.

Para realmente melhorar do jeito que queremos, Derek sugere que precisamos ser extremos só para deixar as coisas mais equilibradas. Precisamos colocar todos os tijolos no outro lado da gangorra, não um só.

Uma vez que você fez isso, vai parecer que você está sobrecompensando. Vai parecer que você está pendendo completamente para a outra direção. Mas, na verdade, você só está balanceando as coisas.

Mesmo se você for extremo, ainda vai sentir o puxão para voltar a sua maneira antiga de pensar. Então vai acabar com sua gangorra mais ou menos assim:

Minha maneira de tentar melhorar era colocando só um tijolo do outro lado da gangorra.

Eu estava me prescrevendo ações “manejáveis”, ou seja, eu só estava fazendo o suficiente para melhorar a quantidade certa que eu achava que precisava. Eu ficaria um pouco melhor, mas só um pouquinho. E não o suficiente para mudar a longo prazo.

Supercompensação para melhorar

Depois de ler o post de Derek, comecei a pensar numa penca de coisas em que sou ruim e como colocar um punhado de tijolos do outro lado da gangorra poderia ser visto. Percebi que mesmo quando eu sentia que era muita mudança, provavelmente terminaria com a quantidade correta.

Então fiz uma lista de coisas que quero melhorar e o que seria para mim ir ao extremo:

1. Mantendo minha casa limpa no nível que minha esposa espera

Minha casa parece limpa com frequência para mim. Mas minha esposa, também com frequência, pensa diferente. Ela me diz o tempo todo que apreciaria se eu fizesse coisas como não só arrumar a cama, mas arrumar a cama “gentilmente”. Eu gostaria de tentar e manter a casa no nível de organização que ela espera já que isso faz ela se sentir bem.

Prescrição extrema: Todo dia olho a casa e limpo qualquer coisa em um nível que excederia as expectativas da minha esposa por limpeza. Minha meta seria manter a casa num nível Ritz-Carlton de limpeza.

2. Ficando próximo dos meus amigos/família

Me mudei para o Canadá mas cresci nos EUA. Eu moro longe de vários familiares e amigos, mas eles são importantes para mim. Eu frequentemente deixo barreiras como muito trabalho, comunicação mais difícil e o fato de que moro mais longe ficarem no caminho de manter contato.

Prescrição extrema: Todo dia eu iria ligar para pelo menos um amigo ou familiar.

3. Dizer "não" para mais projetos

Às vezes eu me empolgo e começo muitos projetos de uma vez. Isso fere minha habilidade de foco, o que por sua vez me faz sentir ansioso. Então eu gostaria de dizer “não, agora não” para mais ideias.

Prescrição extrema: Eu poderia dizer “não” para qualquer ideia nova de projeto. Não gosto de esquecer ideias que eu acho interessante, então eu iria armazená-las numa lista mas não iria começar nada novo.

4. Escrevendo regularmente/publicando semanalmente

Eu normalmente escrevo diariamente, mas nos últimos meses não tenho achado tanto tempo quanto gostaria. Quero continuar melhorando como escritor, e a melhor maneira para chegar lá é escrevendo. Muito.

Prescrição extrema: Eu poderia escrever diariamente e não procurar escrever semanalmente porque é aí que quero terminar. Eu iria focar em publicar diariamente.

5. Me sentindo menos ansioso sobre cada dia

Recentemente fiz um experimento comigo mesmo em que descobri que eu só estava me sentindo um pouco melhor do que a média na maioria dos dias. Esse não é o jeito certo de viver. Percebi que a principal fonte era a pressão que eu me colocava para conseguir fazer muitas coisas em um só dia. Isso começou com a minha lista de tarefas.

Prescrição extrema: Para consertar isso, eu poderia descobrir um jeito melhor de administrar o que eu sinto que posso fazer em um dia. A solução extrema poderia ser não usar qualquer tipo de lista de afazeres.

Agora eu quero ficar melhor em todas essas coisas. Mas é muito difícil praticar a “Prescrição Extrema” em todas essas cinco coisas ao mesmo tempo. Iria requerer muita força de vontade. Como muitos estudos mostram, força de vontade se cansa rapidamente, especialmente quando há muitas tentações. E haverá muitas tentações quando você está indo atrás de uma mudança de nível extremo. Minha força de vontade provavelmente iria falhar e eu voltaria para onde comecei.

Então, ao invés disso, vou começar a ser extremo em uma coisa num período de um mês.

Pesquisas mostram que normalmente leva dois meses para um hábito se formar, mas acredito que dois meses sendo extremo parece muito intenso, já que estou focando em formar um hábito em torno de uma melhora “balanceada”, e não uma “extrema”. Então estou escolhendo um mês para ser extremo e outro para ter uma abordagem mais balanceada.

Minha primeira escolha é o problema de me sentir ansioso todos os dias porque sinto que nunca estou fazendo o suficiente. Quero melhorar isso porque é a minha principal causa de stress.

Minha “Prescrição Extrema” é não usar uma lista de afazeres. Não vou ser gradual e cortar minha lista de 10 para 8 ou até 5 tarefas por dia. Eu ainda escreverei as coisas que precisam ser feitas, mas não terei uma lista que checo e atualizo regularmente durante um dia. Farei o extremo e cortarei tudo para focar em uma só coisa para terminar a cada dia. É isso.

Se eu terminar uma coisa importante, passarei para outras tarefas importantes, mas não sentirei a pressão de ter que terminar todas elas para me sentir realizado naquele dia.

Você provavelmente quer ser melhor em algo. E é ótimo quando você começa a agir para tentar e melhorar. Se você está tentando melhorar você está tentando ser melhor para si mesmo, para as pessoas ao seu redor e talvez até para o mundo.

Mas colocamos muita energia negativa em nós mesmos quando não conseguimos melhorar depois de tentar.

Essa abordagem de “Prescrição Extrema” talvez funcione como uma maneira de melhorar. E espero que funcione.

Mas se não funcionar, não seja tão duro consigo mesmo. Você está tentando melhorar e isso é algo nobre por si só.

Se você gostaria de se juntar a mim, escolha algo em que você é péssimo e descubra uma maneira de fazer o completo oposto do que você está fazendo agora por um mês.

Se você precisa de alguma ideia de como ir ao extremo, me manda um tweet e podemos descobrir um plano juntos.


publicado em 11 de Dezembro de 2016, 00:05
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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