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Espírito da Escada: quando é tarde demais para voltar atrás | Tecla SAP #17

Sabe aquela sensação de lembrar do argumento perfeito só depois que a discussão já acabou? É isso.

A Tecla SAP está de volta e preciso começar a edição de hoje fazendo uma confissão: estou viciado num seriado americano chamado Suits.

A série já está na sexta temporada, a Netflix acabou de anunciar que vai soltar os episódios da próxima semanalmente e eu, depois de ter ignorado a produção durante anos, estou fazendo maratona bem a tempo de aproveitar a novidade e passar a acompanhá-la regularmente. Por que estou dizendo tudo isso? Porque Suits provoca em mim uma sensação que tem tudo a ver com o tema abordado hoje. E não. Não é no bom sentido.

Gabriel Macht e Patrick J. Adams são os produtores e protagonistas da série e também os vilões desse texto.

Talvez a ficha só tenha caído pra mim agora, mas Suits é um daqueles seriados que nos faz sentir burros. Tendo um escritório de advocacia em Nova Iorque como cenário principal, quase todos os personagens principais parecem ter uma inteligência acima de média. Esta é, inclusive, uma das premissas da série.

Num contexto bastante competitivo, os personagens estão sempre prontos para dar uma resposta rápida e acima das expectativas a cada situação. Uma das principais personagens, por exemplo, é uma secretária que sempre "vence" as discussões e é conhecida por estar sempre "um passo a frente" antevendo tudo que vão pedir pra ela fazer...

Eu assisto aquilo e, como um verdadeiro vício, não consigo parar mesmo sabendo que me faz um mal danado: me coloco no lugar dos personagens e não me imagino sendo capaz de ter uma resposta pra tudo o tempo inteiro. E é justamente essa sensação de impotência numa discussão que o conceito de hoje quer explicar.

Sem palavras

Dizemos por aí, orgulhosos, que a língua portuguesa é um dos idiomas mais ricos do mundo. Em português existem dezenas de sinônimos para cada palavra ao mesmo tempo em que cada pequeno objeto, acontecimento ou sensação geralmente tem um termo específico pra si.

Citamos exemplos como o da palavra saudade. Um sentimento intraduzível pra qualquer outro idioma. E espalhamos por aí, sábios de nós mesmos, que é muito mais difícil para um americano, por exemplo, aprender português do que um brasileiro aprender em inglês.

Tudo isso tem lá sua verdade, mas imagine qual não foi minha surpresa quando descobri que o termo de hoje só existe em francês: L'esprit de l'escaliér, o que é porcamente traduzido para o português como Espírito da Escada.

Assim como o Efeito Diderot, um conceito que explicamos na edição 7 da Tecla SAP, o termo de hoje também foi cunhando pelo filósofo francês Denis Diderot que viveu no século 18 e mencionou a sensação pela primeira vez no seu livro Paradoxe sur le Comédien publicado em 1773. 

Pobre Diderot, pobre de nós todos que só nos lembramos das coisas quando já é tarde demais.

Eu não tenho a capacidade de ler em francês (ainda), mas conta-se que nesse livro Diderot faz um relato de quando estava num jantar e viu um interlocutor fazer um comentário maldoso a seu respeito que lhe deixou sem palavras.

Sem reação naquele momento, Diderot escreve que só foi capaz de pensar numa resposta à altura quando já era tarde demais. Ele estava de saída do jantar, descendo a escada da mansão onde o encontro foi realizado e teve a ideia perfeita. É daí que vem o batismo do termo de Espírito da Escada para representar a resposta certeira, a piada infalível, o argumento irretocável que só aparece quando você já não pode mais fazer nada a respeito.

Sem reação

É interessante notar que essa sensação se conecta com vários outros sentimentos para os quais, agora sim!, existem nomes em português.

Em primeiro lugar, é claro, o arrependimento. A cobrança por não ter lembrado disso na hora provoca em nós uma primeira onda de arrependimento que, em alguma pessoas/circunstâncias logo provoca também uma segunda onda: "se nada pode ser feito, então porque lembrei disso agora? Melhor teria sido não lembrar de uma vez por todas."

Em segundo lugar, vem a impotência. Como quem, após ver a resposta, descobre o quanto a solução era fácil, mas agora de nada adianta falar que você sabia fazer porque o que está no papel diz o contrário e, bem, não há nada que possa ser feito.

Em terceiro lugar, vem a expectativa alta. Uma sensação sobre a qual já conversamos em outros textos que nos faz achar que algo bom ficou ruim só porque poderia ser melhor. É como negociar um aumento com seu chefe e depois descobrir que se tivesse dito tal coisa, conseguido encaminhar a discussão para um outro rumo, ao invés de 10% você teria conseguido 20% e agora 10% parece tão pouco...

Resumindo, o Espírito da Escada é um sentimento que revela muita coisa da qual nós não gostamos de lembrar e é difícil conseguir evitá-lo. Porém, como dizem os psicólogos, reconhecer o problema é o primeiro passo para conseguir solucioná-lo. E agora, quando você passar por isso de novo, já vai saber do que se trata. Se encontrar uma solução, me avisa. Eu devo estar assistindo Suits...


publicado em 06 de Julho de 2017, 17:25
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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