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Um presente feito de coração

Tenho uma amiga que me envia gravações feitas em casa. De vez em quando, ela aprende e grava uma música que comunica algo que ela sente e tem a ver com o dia, o momento ou algo em particular que tenha acontecido. Ela reclama, aponta vários defeitos no que gravou. Por outro lado, eu acho um dos melhores momentos do meu dia.

É a forma que ela encontra de expressar algo que carrega dentro de si. A despeito de qualquer aspecto técnico ou qualitativo da gravação em si, aquilo é bonito, pois é feito de coração, com sinceridade. Acredito eu, todo presente deveria partir deste ponto.

Junto com isso, há também o aspecto do esforço, do empenho, do tempo consumido. Instantes da própria vida que poderiam ser investidos em quaisquer outras atividades. Tudo isso, de alguma forma, agrega valor ao objeto.

Ela também se dedica bastante aos desenhos. Todo tipo de formas "vegetais", figuras cheias de texturas e padrões, carregando mensagens, tentando comunicar, fazer contato.

Um dos desenhos dela
Um dos desenhos dela

E o que é melhor. Ela nunca espera uma data especial. Sempre aparece quando menos espero, nos piores horários. Já me mandou mensagens no meio da madrugada com uma música nova. Já me enviou um desenho no meio de uma reunião. E, claro, por mais que para alguns, à principio isso possa parecer inconveniente, aos meus olhos é uma daquelas formas sutis e bastante doces de gerar beleza.

O Felipe Franco, designer do PapodeHomem e meu irmão de apartamento, também dá presentes como esses. Sua "assinatura" é um quadro contendo um de seus desenhos com um pequeno erro de português, reflexo da educação deficiente no nosso país.

Admiro muito isso.

Infelizmente, não consegui achar foto do quadro, mas aqui a arte
Infelizmente, não consegui achar foto do quadro, mas aqui a arte do Felipe Franco por ocasião da despedida do Fred Fagundes, que voltava para Cuiabá

Já ouvi falar de pessoas que, ainda hoje, na nossa era da rapidez e das respostas automáticas à janela piscando no computador, enviam cartas. Eu adoraria receber uma carta. Saber que aquilo que está em minha mão é algo que foi tocado, arranhado por uma caneta, dobrado. Saber que depois de escrever – tomando o cuidado de não rasurar –, a pessoa foi ao correio e talvez tenha enfrentado uma fila.

Eu faria questão de lembrar que aquele papel teria de viajar, junto a milhares de outros objetos, alguns bastante carregado de emoções bem humanas. Outros seriam meras encomendas. Alguns estariam sendo aguardados. Outros chegariam de surpresa.

O Jack White, exercendo suas funções enquanto fundador da Third Man Records, colocou uma cabine de gravação – como aquelas velhas cabines fotográficas – que entrega ao final de uma sessão de 2 minutos, um pequeno vinil com a canção que tocar. E você pode envelopar e enviar a alguém pelo correio. Sim, sua voz em um pequeno disco.

Link Youtube | A canção é boba, singela, mas bonita. Como a ideia de mandar um vinil com a sua voz pelo correio

É uma campanha publicitária, é verdade, mas não deixa de ser bonito. Não deixa de carregar o peso daquilo que tanto faz falta nesses dias corridos: o aspecto tátil, a textura, a sensação quente e confortável de receber, junto com o presente, a notícia de que alguém lembrou de você.

Hoje eu vou enviar uma música para alguém. Não em vinil, infelizmente. Mas vou. E você, tem alguém para presentear hoje?


publicado em 19 de Abril de 2013, 14:03
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Luciano Andolini

Cantor, guitarrista, compositor e editor do PapodeHomem nas horas vagas. Você pode ouvir no Spotify. Também escreve no Medium e em seu blog pessoal. Quer ser seu amigo no Facebook e Instagram.


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