Um rugby com 7000 homens: Conheça na série Archaic Festivals

Um esporte sem regras em que milhares de homens se empurram e se digladiam por entre a cidade

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O Royal Shrovetide Football acontece desde o século 12 na Inglaterra, mais precisamente na cidade de Ashbourne, no condado de Derbyshire, coração da ilha. 

O evento acontece na quarta-feira de cinzas e em seu dia anterior, dividindo a cidade em dois times, os Up'Ards e os Down'Ards. Isso porque a região é cortada pelo rio Dove e coloca a população organizada na parte de cima e na parte de baixo. São dois jogos, um em cada dia, cujo o objetivo é levar uma bola, do centro da cidade, para um dos monumentos de pedra dedicados aos times. Quem bater primeiro a bola três vezes em seu próprio gol, leva a vitória. Esses monumentos ficam na margem do rio, um para o leste e um no oeste, em pontos exatos do centro. 

No decorrer do jogo, não há regras. Empurrões, cotoveladas, saltos em cima da multidão abraçada como um jogo colossal de rugby, tapas nas mãos para tirar a bola. Vale chutar, vale agarrar, vale correr e usar a cidade a seu favor. Durante os jogos, é comum ver jogadores subindo em cima de carros, caminhonetas e ambulâncias às dezenas, fazendo tudo desaparecer em prol de avançar com a bola. Grupos espremem uns aos outros contra muros e paredes de edifícios, ficando lá no entrave por muitos minutos. 

Esse é o primeiro episódio de uma temporada de seis capítulos do Archaic Festivals, feita pela Redbull, que mostra rituais esportivos muito antigos que permanecem até os dias de hoje, desafiando o nosso entendimento por disputas, convivência e masculinidade.

Royal Shrovetide Football | Archaic Festivals S1 E1

 

E que importância essa comemoração violenta tem para a cidade. 

"Não é um jogo. É um rito de passagem, uma tradição sagrada, uma batalha por honra e masculinidade".

E é aqui que começam as informações que demonstram essa ânsia pela tradição e a importância da competição.

Para começar, cada lado do rio tem um bar dedicado para cada time. É lá que eles se encontram para fantasiar o futuro e relembrar as vitórias do passado. Perto da época do feriado, os times se encontram em lugares secretos para pensar estratégias, as possibilidades e probabilidades para cada hugger (aqueles que agarram a bola) e os runners (os que correm com a bola). Cada um tem sua função na contenda. 

As lojas do centro da cidade se protegem do caos dias antes, colocando proteções de madeira nas vitrines, contratando marceneiros para montar a estrutura com força para segurar centenas de pessoas esmagadas. Também acontece, nessa época, a limpeza do rio feita pelos próprios jogadores, que retiram galhos, latas e vidros para evitar contusões, machucados, cortes e infecções.

 

 

 

 

Nos dias de competições, as equipes de polícia e paramédicos tem o trabalho reforçado para lidar com ânimos exaltados, costelas quebradas, tornozelos rachados, ombros e clavículas travadas ou deslocadas, exaustões diversas por conta da desidratação, da falta de ar, do pisoteamento. No caminho do jogo, cercas são quebradas, rasgos nas roupas e na carne são feitos ao perpassar arames farpados e matagal com galhos secos e pontiagudos. 

Eles usam a cidade como estragégia, correm por becos e comem na arquitetura de becos e esquinas, sobem em casas, correm em telhados de prédios, passam a bola de uma rua para outra, no rio, mergulham e nadam com a bola que flutua.

Essa, a bola, tem tratamento diferenciado. 

John harrison é responsável há 30 anos por manufaturar as redondas, um trabalho de 20 horas do começo à conclusão, preenchidas com cortiça portuguesa justamente para mantê-la flutuando quando inevitavelmente cair na água. Os desenhos especiais para cada edição são pintados à mão por Tim Parker, tudo feito com muito zelo porque, claro, a pelota vira troféu de maior valor para os jogadores que marcam o ponto da vitória. Em 2003, o Príncipe Charles foi à cidade para dar a jogada inicial, fato decorado na bola daquele ano.

 

 

 

O dia do jogo começa com uma missa na igreja da cidade que fica lotada com jogadores e torcedores dos dois lados. Logo após, cada time se reúne em um ponto para que seus líderes façam o discurso pré-game, aquele motivacional para deixar todo mundo com sangue nos olhos. 

"A simplicidade desse jogo te ensina muito sobre humanidade, masculinidade e natureza humana".

No documentário, um garoto diz que vai ser jogador quando crescer, que quer fazê-lo para que, quando o pai morrer, ele seguir carregando a tradição do jogo.

O Royal Shrovetide Football não é uma ode a algum modelo antiquado de masculinidade ou separação de uma região. Ao contrário, claro que a unidade da cidade se dá no dia a dia, com jogadores de diferentes times frequentando bares juntos, movimentando o comércio um do outro, trocando experiências, dores e maravilhas da derrota e da vitória.

 

 

 

 

 

 

 

A competição tem um caráter de reunir a pequena sociedade da região, de cooperação, de disputa saudável.


publicado em 01 de Fevereiro de 2017, 16:00
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Jader Pires

É escritor e colunista do Papo de Homem. Escreve, a cada quinze dias, a coluna Do Amor. Tem dois livros publicados, o livro Do Amor e o Ela Prefere as Uvas Verdes, além de escrever histórias de verdade no Cartas de Amor, em que ele escreve um conto exclusivo pra você.


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