Uma lição em perspectiva

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Dirijo mal. Não sou dos mais habilidosos. Sou péssimo com caminhos, perco retornos, erro entradas e costumo ligar o GPS até para ir na padaria. Aprendi tarde, demorei pra comprar carro, priorizava outras coisas, mas chegou. Motorizado enfim.

Estava na pista do meio e precisava pegar o retorno que ficava à esquerda. Dei seta, olhei no retrovisor, confiei que o Audi logo atrás tinha me visto, e fui.

Aqui entra aquele momento do filme em que você ouve uma freada brusca seguida de um estrondo. Meu carro estava tão intacto que quase achei que tinha sido coisa da minha imaginação. Olhei para trás, vi o Audi, e também um Celta, esse último bem amassado mesmo.

Obrigado, inventor do ABS: o Audi provavelmente teria entrado pela minha porta se não fosse por você.

Gabriel Voisin, inventor do ABS: "De nada, Amuri. Disponha sempre."
Gabriel Voisin, inventor do ABS: "De nada, Amuri. Disponha sempre."

Cagada feita e assumida. O condutor do Celta saiu do carro, desesperado. Era um cara humilde, sem muitas condições. Eu não tinha muito o que fazer. Assumi a culpa, liguei para meu corretor, ele me instruiu a fazer o Boletim de Ocorrência. O condutor do Audi, funcionário de uma concessionária, nem se importou, disse que trocaria o para-choque por conta.

Delegacia, seis e meia da tarde de uma sexta-feira. Nem cheia nem vazia. Expliquei a história e, num clima ameno, disse que era o culpado pelo ocorrido.

Então, chegou a esposa do condutor do Celta. Uma mulher, quando quer infernizar com a vida de alguém, pode confiar, meu amigo, ela consegue. Gritando, cobrou satisfações do marido, perguntou como ela ficaria sem carro, o que faria para chegar no trabalho, como iria levar o filho para a escola. Nem respondeu ao meu cumprimento, nem me olhou. Paciência, ela era o menor dos meus problemas.

BO feito, o delegado olhou para mim e perguntou:

– Senhor Eduardo, quem vai tirar seu carro daqui?

Não entendi direito a pergunta, mas respondi com educação. Custa nada:

– Eu mesmo, delegado.

Com a mesma educação, mas com uma pitada de sarcasmo:

– Você viu a data de validade da sua carteira de habilitação?

Eu realmente não tinha reparado. Vencera cinco meses atrás.

– Aí é um problema, senhor Eduardo. Vou preencher a multa (gravíssima) e ele deve chegar na sua casa em 10 dias. É um pouco cara, algo em torno de R$ 400 (contabilizem) e você precisará chamar alguém para tirar seu carro daqui. Se quiser um despachante para reaver sua carteira, custa em torno de R$ 200,00 (contabilizem), fica aqui na rua de cima.

Pode ficar tranquilo que já faremos o seu BO, cidadão. Senta aí enquanto eu termino de resolver essa papelada.
Pode ficar tranquilo que já faremos o seu BO, cidadão. Senta aí enquanto eu termino de resolver essa papelada.

O condutor do Celta gentilmente se ofereceu para assinar a retirada do meu carro. Fui para casa. Acordei às oito da manhã de sábado, com uma belíssima chuva torrencial e uma ligação do cara do Celta, perguntando como faríamos com relação ao meu seguro. Certo de que seria coberto sem grandes problemas e sem pagamento de franquia, disse que iria dar continuidade na abertura do sinistro. Esse é aquele momento em que o personagem da história se fode.

– Eduardo, pelo o que consta no BO, o Audi estava bastante próximo do senhor, certo?

– Sim.

– E ele conseguiu frear, certo?

– Sim.

– O Celta então estava muito próximo do Audi, certo? Porque não conseguiu frear...

– Sim.

–Então a culpa não foi sua, senhor. O erro foi dos carros de trás que não mantiveram a distância. Não acho que podemos ajudá-lo.

Fiquei com um puta peso na consciência. Eu tinha me comprometido a resolver a situação do cara do Celta. Afinal, achava que a imprudência havia sido minha. Além disso, estava grato por não estar com o logotipo da Audi cravado na minha porta (ou na minha perna). O Celta era segurado e, para resolver, me comprometi a pagar a franquia dele, de R$ 1400,00 (contabilizem).

Essa foi minha sexta feira de R$ 2000,00. Passei a tarde do sábado amuado, chateado, puto. Naquela noite, eu tinha a festa de aniversário de um grande amigo, que não morava muito longe. Eu nem estava mais com vontade de ir, mas fui. De táxi.

O taxista era um senhor de quase sessenta anos, simpático mas sem ser chato. Começamos a conversar banalidades, perguntei se ele não se importava de trabalhar durante a madrugada, ele disse já estar acostumado.

– Mas e a família? Esposa não reclama?

Foi o gatilho.

"Tá falando comigo? Tá falando COMIGO? Então, senta que lá vem a história!"
"Tá falando comigo? Tá falando COMIGO? Então, senta que lá vem a história!"

Sou sozinho. Longa história, filho. Me casei com 22 anos, já alcoólatra. A cachaça tirou tudo de mim. Ela era uma moça linda, inteligente, focada nos estudos, coisa rara de ver por ai. Ficamos juntos por seis anos. Aos meus 28, ela não aguentou mais e pediu a separação. Levou nossa filha. Ainda bem. Eu estava num ponto meio que sem volta. Espero do fundo do coração que ela tenha sido feliz nesse tempo todo. Nunca mais nos vimos, não vi minha filha crescer. Ainda bem que as coisas continuam acontecendo, mesmo quando não estamos mais lá.

Fui pra rua e me entreguei ao vício. Não comia mais. Não sentia mais gosto. Meu café da manhã era uma bagaceira ou um rabo de galo, cheguei a beber álcool de cozinha. Mas a nossa sorte é que tem gente que não desiste da gente, mesmo quando a gente já desistiu. Fiquei onze meses vagando, mas nunca roubei. Eu era um cara legal, só estava doente.

E aí me acolheram nos Alcoólicos Anônimos. Fiquei um bom tempo por lá. A vida é um troço foda, né filho? É uma chance de recomeçar atrás da outra. Saí do AA e fui trabalhar em feira, vendendo fruta. Fiquei uns bons anos por lá, morando numa pensão, dividindo quarto com um monte de gente. Era meio sujo, mas tava tudo bem.

Cansei de trabalhar na feira e um amigo me convidou para trabalhar na empresa dele. Me entrevistou e disse que me daria um voto de confiança. Confiança, filho. Isso eu sempre honrei. A empresa faliu depois de alguns anos, fiquei sem emprego, mas não me abalei. Capaz que amanhã a gente morra, né? Não dá pra ficar esperando. Eu tinha um dinheirinho guardado já, coisa pouca, mas consegui dar entrada num carro. Fui pra praça, virei taxista. Foram 10 anos felizes. Não ganhava muito, não fiz família, mas tava tudo certo. Pra quem conhece o fundo do poço, qualquer lugar é lugar.

Em 2005 apareceu um câncer na minha garganta. E eu nunca tive convênio médico, né? Foi complicado. Precisava pagar minha cirurgia. Uns 35 paus (contabilizem). Vendi o carro, raspei o porquinho e ainda pedi dinheiro emprestado. Tinha meio que voltado à estaca zero. Mas porra, eu tava tendo a chance de me tratar. E a cirurgia correu bem. Foi como se a vida tivesse começado de novo. Eu podia estar morto, ou o câncer podia ter se espalhado pelo corpo todo, mas não. A cirurgia correu bem.

Saí do hospital e um outro amigo disse que estava com um taxi sobrando. Queria alguém para trabalhar nele. E estamos aí, continuando. Não dá pra ficar parado reclamando, senão a vida passa.

Chegamos, filho. Boa festa!

Obrigado, Toninho.


publicado em 22 de Outubro de 2011, 11:51
Eduardoamuri

Eduardo Amuri

Autor do livro Dinheiro Sem Medo. Se interessa por nossa relação com o dinheiro e busca entender como a inteligência financeira pode ser utilizada para transformar nossas vidas. Além dos projetos relacionados à finanças, cuida também da gestão dO lugar.


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