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O que é a USP

A USP está em voga, a USP está em pauta.

A USP é responsável sozinha por grande parte do desenvolvimento de tecnologia e pesquisa do Brasil. A USP é historicamente um dos mais importantes centros de produção intelectual e científica da América Latina. Precisamos, pelo papel social que ela desempenha, discuti-la.

A segurança no campus do Butantã (e imagino, em outros campi que não receberam ainda 400 PMs armados com fuzis, gás lacrimogêneo, helicópteros e a cavalaria numa mesma manhã) tem sido um assunto muito comentado. A partir deste estopim, uma enxurrada de opiniões e reflexões tomou a internet.

Arquitetos e urbanistas criticaram o modelo de cidade que exclui e que segrega, o modelo de urbanização mais comum no Brasil, e a integração do campus Butantã com a cidade. Jornalistas e professores expuseram suas opiniões criticando a abordagem da polícia no campus e a cobertura dada pela mídia. Um músico interessado em descobrir através de muitas fontes o que é que estava em jogo no tal episódio fez uma coletânea bem completa de textos.

Fora dos holofotes, porém, a história era outra. No Facebook e nos comentários de portais das maiores empresas de mídia de massa (como o UOL), nem a elegância de disfarçar preconceitos os leitores tiveram. Todo este debate perde o sentido, porém, se não fizermos a seguinte pergunta:

O que é a USP?

Começo explicando a importância que a USP tem, desde sua criação nos anos 30, na formação da ideia nacional brasileira. Sim, não sei se já pararam pra pensar mas é a partir desse debate intelectual que se estabeleceu o que é Brasil, essa ideia tão recente e que nos parece tão antiga, tão natural, tão nossa já (se ficou em dúvida sugiro ir com calma lá no Sérgio Buarque de Holanda e suas Raízes do Brasil, por exemplo). A USP e a antiga Universidade do Brasil (posteriormente convertida em UFRJ) são as universidades mais antigas do nosso querido e amado país (ou melhor, meu querido e amado país, vocês não sei, talvez alguns prefiram morar nos EUA e na Europa com a crença falaciosa de que são países tão mais “desenvolvidos”).

Ambas USP e UB nasceram de faculdades de direito, engenharia e medicina que já existiam. As faculdades foram unidas mas só isso não era suficiente para que se criasse uma universidade, que precisaria ter centros de pesquisa e desenvolvimento de pensamento para além da formação de profissionais. Criam-se então, em cada uma delas uma Faculdade de Filosofia e Ciências. Vejam vocês, uma universidade não é universidade sem um curso de filosofia. Curioso? Nem tanto. O propósito de fundar universidades no Brasil era justamente produzir um pensamento intelectual e uma visão política próprio da nossa “nação” para que se pudesse inclusive disputar e definir o que ela viria a ser.

Mas no início do século XX a educação não era como é hoje. A educação pública era um recurso muito pouco distribuído e, sim, elitizado. Sabe quando as pessoas bradam pelos ares que a educação pública era melhor antigamente, etc? Bem, é importante ter em mente que ela podia ser muito melhor mas era muito mais restrita. Foi só nos anos noventa que alcançamos a escolarização mais democrática no Brasil, durante o governo FHC (por mais que eu veja enormes problemas na forma adotada por ele ao governar em seus dois mandatos, este foi um movimento importante). O acesso à escola, sabemos bem, não garante educação de qualidade. Essa é nossa batalha atual. Mas divago. Quero chamar a atenção para o seguinte: quem é que ocupava as vagas na universidades no início da USP?

Primeiro de tudo, quem tinha estudado até o final do ensino médio, ou seja, filhos das elites, praticamente em sua totalidade brancos. Em segundo lugar, aqueles para quem era aceitável se tornar médico, advogado, engenheiro, intelectual, cientista: homens. O acesso das mulheres à USP se deu mais tarde quando estabeleceu-se que o curso normal seria aceito para entrada nas universidades brasileiras. Até então, somente com o curso médio (que por sua vez era ensinado apenas em escolas exclusivamente masculinas) era possível entrar. Essas mulheres precisaram ainda enfrentar uma série de barreiras e preconceitos sociais em suas próprias famílias para chegarem a ocupar este espaço.

A USP (e a universidade como um todo) é um espaço elitizado desde sempre. Restrito, excludente. O vestibular nada mais é do que uma máscara de meritocracia, já que o acesso das elites à preparação para o exame também é muito maior.

(Nem vou falar aqui de outros aspectos mais específicos do nosso sistema educacional que servem para perpetuar a desigualdade na distribuição de recursos intelectuais e capital cultural. Para quem quiser saber mais, convido a me escrever ou visitar meu blog, onde dou umas dicas de textos interessantes sobre educação, desigualdade e outras questões que afligem a humanidade).

O diploma superior não é o mesmo para o mercado de trabalho ou para a banca de seleção de mestrado e doutorado se possuir o logotipo da USP ou do Mackenzie. Um não é necessariamente melhor ou pior do que o outro (ainda mais quando se trata de duas universidades tradicionais da elite como é o caso) mas representam coisas diferentes na cabeça das pessoas, logo, no mercado ou na academia. A diferença cresce a toma proporção ainda mais elitizada quando comparados os diplomas da USP com universidades mais populares como a UNIP.

Seria talvez um ganho social que a USP, e a universidade pública em geral no Brasil, fosse um espaço menos elitizado. Infelizmente, parece que o governador Alckmin e do reitor Rodas não querem. Por isso, não aumentam vagas, não contratam professores para todos os cursos, entre outras medidas mais. Os problemas que a USP enfrenta vêm mais da falta de boa vontade política do Estado do que do dinheiro propriamente dito — vide as federais que com menos dinheiro andam transformando muito mais e trazendo mais e mais gente pra dentro.

Mas suponhamos que a USP fosse um espaço cheio de gente, bem maior, menos elitizado. Ainda assim, ela jamais pode ser comparada, para efeito de análise política (sobre truculência policial ou não), a um bairro residencial seja ele a Rocinha ou os Jardins. A USP não é um bairro. A USP é uma instituição pública considerada autárquica na lei. Isso que dizer que, como as outras universidades públicas, a USP se auto-regula, embora responda à Constituição Federal.

A USP é, além disso, um dos maiores pólos de produção científica e intelectual da América Latina, seja na genética, na física ou na sociologia. A USP é uma instituição que serve e serviu de muitas formas ao povo brasileiro. A USP não é dos estudantes da USP. A USP é nossa, do Brasil.

Os recursos mobilizados pela polícia de Alckmin foram, sim, desproporcionais. Nem a metade destes recursos é ou foi jamais utilizado no Estado de SP pra conter rebeliões como aquela do PCC há poucos anos. Nem no massacre do Carandiru, onde eram pouco mais de cem policiais. Nem mesmo para desmontar o tráfico de drogas em nosso estado (e se você acha que o usuário é responsável pelo tráfico então sugiro parar de pedir pizza porque, né, pela mesma lógica você é responsável pela morte de noventa motoboys por dia em Sampa). Qual sentido então de mobilizar tantos policiais para “conter” setenta estudantes dormindo? Sem deixar os jornalistas cobrirem a ação? Com policiais não-identificados (e aí está uma infração perigosa da lei)?

O que está em questão na USP, e também no debate sobre segurança no campus, é o que a USP significa, o que vem se tornando, e como está estruturada em termos administrativos e políticos.

E esse, meus caros, não é um assunto a ser resolvido com polícia.


publicado em 07 de Janeiro de 2012, 07:54
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Marília Moschkovich

Socióloga, mestra em educação e doutoranda na mesma área. Militante do movimento feminista, escreve no site Outras Palavras e twitta como @MariliaMoscou. Defende um mundo com justiça de gênero e direitos humanos assegurados para todas e todos.


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