A minha lenda de Zelda

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Muitas pessoas sentem isso com a Copa do Mundo. Algumas outras, sei lá, com a Bienal do Livro. Deve ter quem sinta isso com as Eleições. Mas para mim o evento não-anual mais emocionante que existe é o lançamento de um novo jogo da série The Legend of Zelda.

Cada vez que eu pego um novo jogo dessa série, o ritual é o mesmo: sinto o cheiro da caixa, toco no disco, coloco no videogame pela primeira vez e vejo o imponente logo -- que ainda usa a mesma tipografia rústica e a mesma simbologia que me conquistaram quando conheci. A versão mais atualizada da familiar música-título está tocando. Nessa hora eu sinto vontade de jogar, sim. Mas, acima disso, eu sinto respeito. Eu olho para a tela por vários segundos antes de apertar Start.

Este é o Brasão de Hyrule. Quase uma bandeira nacional.

Os fãs dessa série, que não são poucos, gostam dizer que "muitos jogos têm uma história, mas só um é uma lenda". Reconheço que isso é um pouco de fanatismo exagerado, mas certamente a história do herói Link, da princesa Zelda e do reino de Hyrule é uma das coisas relacionadas a games que mais se assemelha àquelas histórias folclóricas que são passadas de geração a geração, e mantidas vivas apenas pelo amor e apego que às pessoas têm às suas lições ou valores.

Infância

O primeiro jogo da série, cujo nome era apenas The Legend of Zelda, foi lançado poucos dias depois que eu nasci, no início de 1986. Eu era muito novo para jogá-lo, mas sei que tratou-se de um jogo histórico. Por motivos criativos – foi um dos primeiros jogos "abertos", não-lineares – e também técnicos – foi o primeiro jogo da história a ter a opção de "Save". Antes dele, era tudo na base das passwords, quando muito.

A origem do jogo também tem tudo a ver com infância: o lendário designer Shigeru Miyamoto (mesmo criador de Mario e Donkey Kong, entre outros) quis recriar a experiência que teve quando, apenas um molequinho japonês, explorou a área rural perto da sua casa e encontrou uma caverna desconhecida.

Houve mais uma sequência enquanto eu era apenas um pirralho impossibilitado, chamada Zelda II: The Legend of Link. Mas de certa forma foi até sorte, já que esta sequência é bizarra, alterando o primeiro jogo de todas as formas possíveis. Imagine que fizessem O Poderoso Chefão 2 como uma comédia romântica. Foi mais ou menos assim. Mas tudo bem: a série estava se desenvolvendo e dando seus tropeços, assim como eu.

Crescendo com A Link to The Past

Quando o Super NES viu o lançamento do terceiro jogo, The Legend of Zelda: a Link to The Past, em 1991, eu ainda era um moleque completo. Mas algum tempo depois eu comecei a jogá-lo, e isso foi com certeza uma das coisas mais significativas que eu já fiz na vida.

Qualquer Zelda é difícil. São jogos de exploração. Você recebe pistas e precisa saber o que fazer com elas, para onde ir em um mundo sempre grande o bastante para intimidar. Não são jogos de habilidade com o controle, como o seu FIFA 12 ou Street Fighter. São jogos "cabeça", de ponderação e método científico. "Será que isso vai funcionar? Hm, vamos testar. Não, não deu certo. Melhor encarar esse problema de outra forma..."

Uma frase de cada vez...

Por isso eu, obviamente, não consegui ir muito longe no A Link to The Past. Mas não desisti. Eu queria muito saber o que fazer, e sabia que o jogo estava me dizendo isso nas entrelinhas. Mas eu não entendia inglês para compreender sequer as linhas, quanto menos as entre-. O que fiz foi pegar um dicionário para me acompanhar durante o jogo. Não raro eu passava mais tempo lendo o dicionário, procurando três ou quatro palavras diferentes para entender o sentido de uma única frase. Eu levava o maldito até para o banheiro, para aprender outros verbos que pudessem aparecer no jogo. O dicionário se tornou parte do desafio, tanto quanto o jogo em si. Só mais um quebra-cabeça a ser resolvido.

E foi assim que Zelda me ensinou inglês. E foi assim que eu pude, anos depois, assistir a seriados sem legenda, ser contratado como tradutor e viajar sozinho para a Europa.

A ocarina do ápice

Ocarina é um instrumento musical de sopro. Uma espécie de flauta bojuda. É também o objeto que dá nome ao melhor jogo da série até hoje: The Legend of Zelda: Ocarina of Time.

Aliás, melhor jogo da série é o caralho. Ocarina of Time é o melhor jogo de videogame da história.

Link YouTube | O ator Robin Williams concorda tanto comigo que batizou sua filha de Zelda.

Você começa jogando como um Link de cerca de dez anos de idade. No decorrer do enredo, algo importante acontece e o infantil herói é congelado no tempo, para ser acordado quase uma década depois e retomar a sua missão já como alguém "adulto".

Uma grande metáfora para mim, que estava no meio da adolescência quando joguei esse grande clássico. Uma história de crescimento, de responsabilidade pelos seus atos, bem quando eu precisava desse tipo de lição. Pode ser considerado babaca tirar lições de vida de uma obra de entretenimento, mas... por que levar a vida tão a sério?

Melhor ainda porque eu joguei isso em um Nintendo 64 emprestado, que tive que devolver assim que terminei o jogo. Sendo assim, só o joguei uma única vez. Tudo o que eu lembro a respeito é o que ficou muito gravado na minha memória. Se o grande jornalista Hunter S. Thompson dispensava o caderno de anotações, dizendo que somente aquilo que ele se lembrasse era o que valia a pena ser reportado, quem sou eu para discordar?

Wii are the new generation

Foram-se vários anos até que eu finalmente jogasse um novo Zelda. Majora's Mask foi lançado logo depois de Ocarina, mas eu não consegui outro Nintendo 64 emprestado para jogar, e o absolutamente lindoThe Wind Waker saiu para o GameCube, videogame que eu não tive e não conheci ninguém que tivesse à época.

Depois desses longos anos de férias forçadas da minha série favorita, a Nintendo se preparava para lançar a sua nova e misteriosa máquina, o Wii (que na época tinha o perfeito codinome de "Revolution"). Ele seria lançado já com um novo Zelda, no final de 2006. E este eu teria. Afinal, já era um adulto com o meu próprio dinheiro.

Da mesma forma que eu já era adulto, The Legend of Zelda: Twilight Princess também abandonou o visual colorido e os temas infantis, trazendo um universo bem mais sombrio e pesado. A alegria de estar de volta a Hyrule era semelhante a alegria de estar finalmente fora da casa dos meus pais, dando meus primeiro passos para uma vida independente.

A lendária Master Sword

Agora, em 20 de novembro de 2011, o Wii dá seus últimos suspiros com mais um Zelda, este com o subtítulo de Skyward Sword. Já comecei a jogar, mas ainda não terminei. Ainda não sei que lições e que paralelos ele vai traçar com a minha vida. Exceto por um: no início da história, a sensação que o enredo provoca em Link -- e no jogador, por consequência -- é a de uma inadequação incrível. Em mais de um momento é questionada a sua competência em ser o herói que supostamente vai salvar o mundo.

Como se eu já não questionasse a minha competência na vida sem precisar de um jogo para trazer essa sensação metaforicamente.

Zelda é foda.

Arte oficial do mais sombrio Twilight Princess

Cada edição do jogo é uma nova história. O personagem principal sempre se chama Link, a princesa em perigo sempre se chama Zelda, o vilão maior sempre se chama Ganon e o reino ameaçado sempre se chama Hyrule. Mas é sempre um Link diferente, uma Zelda diferente, uma outra versão de Ganon e de Hyrule. É sempre uma nova oportunidade de reescrever a mesma história. É sempre um tentar de novo. Como na vida.

O símbolo máximo da série, mais do que o herói dela, é a Triforce que você viu no brasão de Hyrule e na Master Sword: um triângulo formado por três outros triângulos, representando Sabedoria, Coragem e Força. O que mais um homem pode querer adquirir na vida?

Zelda é foda.


publicado em 31 de Dezembro de 2011, 07:09
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Fabio Bracht

Toca guitarra e bateria, respira música, já mochilou pela Europa, conhece todos os memes, idolatra Jack White. Segue sendo um aprendiz de cara legal.\r\n\r\n[Facebook | Twitter]


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