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A monogamia como processo econômico-cultural

Normal é o que é feito pela maioria. O Dicionário de Filosofia define “normal” como:


  1. Aquilo que está em conformidade com a norma.

  2. Aquilo que está em conformidade com um hábito, com um costume, com uma média aproximada ou matemática, ou com o equilíbrio físico ou psíquico.

Consequentemente, o normal é considerado certo e bom. No campo dos relacionamentos, a monogamia é o normal. E sexo no plural extingue o conceito de profundidade sentimental — sendo que é o sentimento que nos diferencia das demais espécies.

"A relação sexual sem amor tem valor mínimo e deve ser considerada uma primeira experiência, capaz de dar uma noção aproximada do amor." (Marriage and Morais, cap. IX, p. 118)

Sexo sem amor é, portanto, uma mera representação do amor ou, para os mais otimistas, o amor em potencial (no conceito socrático). E sem o sentimento, não somos nada além de primatas. O casamento é a sanção definitiva deste sentimento e desviar-se da monogamia conjugal é o pecado interpessoal definitivo:

"A moralidade consiste em suspeitar de quem não é legalmente casado." (George Bernard Shaw)

A fidelidade, por sua vez, é a grande via, o grande trunfo, mesmo que isso vá contra a natureza humana.

Não há infedelidade no país dos polígamos

A biologia da infidelidade

Fidelidade é a nossa forma de formatar o amor, apesar de não ser biologicamente natural. Até o Drauzio Varella sabe disso.

“Monogamia social é fenômeno raríssimo entre os animais. Monogamia genética, então, nem se fala. Até nos pássaros que formam pares amorosos, como o joão-de-barro (acusado injustamente de emparedar no ninho a fêmea infiel), o DNA dos filhos muitas vezes não bate com o do pai social (...) Um trabalho conduzido na Universidade da Geórgia com 180 espécies diferentes de pássaros cantores acasalados mostrou que apenas 10% deles eram sexualmente monogâmicos. Para a surpresa dos pesquisadores, nem os pássaros azuis americanos, tradicionais modelos de fidelidade conjugal, escaparam: 15% a 20% dos filhotes são concebidos em encontros fortuitos das fêmeas com machos da vizinhança.”

Mais perto de nós estão, claro, os chimpanzés. 99% de compatibilidade genética e mais de 60% de pulação de cerca. Principalmente entre as fêmeas, já que são menos atacadas quando em outros grupos. Agora, a pergunta óbvia: se na natureza os animais não estão biologicamente programados para a monogamia, por que o ser humano estaria?

A monogamia como farsa comportamental

A verdade é que o ser humano não é biologicamente programado para a monogamia. Sempre haverá o desejo por terceiros de ambas as partes. De maneira simplista, podemos apenas afirmar que este desejo é uma manifestação instintiva — ou seja, dos nossos antepassados — em prol da proliferação da espécie. É bom para a variabilidade genética.

Então por que nos atemos à monogamia?

Anthony Gideon, na obra Sociologia, reforça este questionamento com um dado antropológico:

“Nas sociedades ocidentais, o casamento e, por conseguinte, a família, está associado à monogamia. É ilegal que um homem ou uma mulher seja casado com mais de um indivíduo simultaneamente. Contudo, esta situação não se verifica a nível mundial.
Numa famosa comparação, que envolvia várias centenas de sociedades em meados do século XIX, George Murdock descobriu que a poligamia — que permitia que um homem ou uma mulher tivessem mais de um cônjuge — era permitida em mais de 80% delas.”

Um outro estudo — Patterns of Sexual Behavior, de Clellan S. Ford e Frank A. Beach — confirma a poligamia como padrão social. Segundo o trabalho que analisou 185 sociedades, menos de 16% restringem seus membros à monogamia, e só 5% inibem o sexo extraconjugal.

Volto à pergunta: por que nos atemos à monogamia? Talvez seja interessante revisarmos a história.

Cadinho não está muito feliz com essa discussão

A monogamia como processo econômico-cultural

Se olharmos um pouco o passado — e nem precisamos ir muito longe —, veremos que a monogamia é um instrumento social para inibir a procriação (o que, em termos econômicos, significa acumular riquezas). É o que aponta o estudo Ecological and social complexities in human monogamy. Seu autor, Bobbi S. Low, observou que durante os períodos de grandes transições econômicas, investir mais em menos filhos aumentou o sucesso da estirpe, pois 1) com mais incentivos, os filhos podem obter status social mais elevado, e 2) ao investir em poucos filhos, a riqueza não se pulveriza.

(Mas se quiserem ir mais além no passado, podem tomar César Augusto como exemplo. O herdeiro de Júlio César incentivava o casamento e reprodução para forçar a aristocracia a dividir riqueza e poder entre os vários herdeiros. A aristocracia não engoliu essa ideia, e se manteve com poucos filhos — mas muito sexo fora do casamento.)

O fator econômico também teve forte influência na decisão da Igreja em tomar a monogamia o padrão. Antigamente, a riqueza era herdada pelo parente vivo mais próximo, sempre do sexo masculino. Muitas vezes acontecia de esta riqueza pertencer a um homem ser irmão mais velho, o que fazia com que sua herança fosse deixada ao irmão mais novo, celibatário e, digamos, sem conhecimento dos pecados do mundo — ou seja, mais próximo da Igreja e por ela manipulável. É o que afirma Laura Betzig, no seu artigo Medieval Monogamy.

Não fosse o dinheiro, a poligamia seria padrão.

A monogamia como expressão de amor

Claro que não se pode ignorar os sentimentos. É o que nos diferencia dos outros animais, apesar de se confundirem com os instintos. É possível reprimir o desejo e ignorá-lo em nome da louvável, e talvez inútil, fidelidade. É o pilar central da monogamia que às vezes castra em nome de algo maior: o amor. Mas consumar o desejo pode ser só isso mesmo: apagar o fogo.

E a relação que criamos entre amor e monogamia é o que racha relacionamentos mundo afora. O que o amor tem a ver com isso? Vocês conseguem, com plena certeza, dizer que poliamoristas não amam de maneira tão intensa e verdadeira quanto vocês?

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Pensando a longo prazo, a repressão de desejos relativamente pequenos pode resultar numa frustração maior desembocando no fim de um relacionamento, apenas por causa de realizações sexuais. Isso não é um imperativo, mas frustrações desse tipo funcionam como catalizador de outros problemas. Também não é raro terminar um namoro apesar do sentimento porque um dos dois acha que não consegue explorar todo seu potencial sexual apenas com um parceiro ou parceira. Acontece.

A lealdade pensada além do físico, por outro lado, parece satisfazer melhor tanto o sentimento quanto o instinto. É a consciência de que o amor não precisa ser sacrificado e o desejo não precisa ser reprimido. Ambos podem coexistir desde que haja confiança e comunicação. Fidelidade não é sinônimo de ausência de desejo por outras pessoas. Pode soar estranho e até errado, mas é apenas admitir nossas limitações e lidar com elas de maneira que não atrapalhe o que realmente interessa: ser feliz


publicado em 20 de Julho de 2012, 14:53
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Mari Terin

Mari Teri é quase ex-estudante de ciências farmacêuticas, leitora de Drummond, ouvinte de Cazuza e fã de Stanley Kubrick. Quer conhecer o Uruguai só pra tomar mate com Eduardo Galeano, mesmo não gostando de mate. Não é louca, apenas curte uma realidade diferente da maioria. Inclusive a sua.


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