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A primeira HQ

— Senhor?

— Pois não.

— Adão na linha nove.

— Pode passar.

— Só um minuto.

— Alô?

— Oi, Adão, tudo bom?
— Oi, Adão, tudo bom?

— Tudo, e o Senhor?

— Tudo em ordem. Diga.

— Eu liguei para conversar com o Senhor sobre meu novo projeto.

— Projeto?

— Sim. O senhor sabe que eu faço desenhos, certo?

— Desenhos?

— Isso. Na parede da minha caverna.

— Aqueles bonequinhos que você faz com carvão?

— Bem... Não são exatamente bonequinhos, mas tudo bem. Enfim, eu estava fazendo uns desenhos semana passada e tive uma ideia.

— Qual?

— Vou transformar aquilo em uma história. Ocupando a parede inteira da minha caverna.

— História?

— Isso. Com começo, meio e fim. E um personagem principal. Mas, para isso, eu preciso da ajuda do Senhor.

— Espere, eu ainda não entendi. Como um desenho vai contar uma história inteira?

— Não é um desenho. Serão vários. Um vai ser continuação do outro. Por exemplo, o primeiro desenho mostra meu personagem, não sei, indo até a caverna. O segundo desenho mostra ele entrando na caverna. E por aí vai...

— Ah, entendi.

— Bem, eu já tenho minha história toda planejada e comecei a desenhar. Mas não estava ficando bom. Alguma coisa estava faltando.

— E aí você ligou para Mim.

— Justamente. Eu preciso inventar a escrita.

— ...

— Alô?

— Desculpe. Eu engasguei com o café. Você quer inventar o quê?

— A escrita. Os desenhos estão ficando ótimos... A Eva, no começo, não gostou de ver a parede da caverna toda desenhada, mas agora mudou de ideia. Ela tem até dado palpites sobre a história, sabe?

— Que bom.

— Mas sem a escrita, eu não estou conseguindo fazer. Estou empacado.

— Bem...

— Porque qualquer um consegue desenhar uma pessoa triste. Mas se puder escrever, eu consigo mostrar porque aquela pessoa está triste. Ou, melhor ainda, porque aquela pessoa está triste naquele momento. Vai ficar muito mais rico.

— Você tem pensado tudo nisso sozinho?

— Sim. Por quê?

— Nada. Bem, parece que está ficando muito bom. Mas eu não posso autorizar a escrita agora.

— Mas é só um alfabeto. Quantas letras o Senhor imagina que um alfabeto teria? Umas oito? Dez?

— Não, muito mais. A última vez que dei uma olhada nisso, o projeto já tinha mais de vinte letras. E ainda não está pronto.

— Eu me viro com essas vinte. Que tal?

— Não, Adão, nem pensar.

— É que sem a escrita, minha história vai ficar fraca. Igual a dos macacos.

— Os macacos fizeram uma história com desenhos também?

— Sim. Eles ficaram sabendo que eu estava fazendo uma história, correram e inventaram a história deles. Mas não ficou boa, não.

— Por quê?

— Bom, eles criaram um personagem... É um macaco que consegue fazer um monte de coisas diferentes. Ele voa e é mais forte que os outros macacos. É estranho, ele tem uma folha de palmeira nas costas. Nenhum macaco usa uma folha de palmeira nas costas.

— Nas costas?

— Sim. Fica presa no pescoço. Eles dizem que é o Super Macaco, encarregado de proteger o Paraíso.

— Mas defender o Paraíso de quê?

— De mim.

— Como assim?

— O tal do Super Macaco é o herói, e eu sempre sou o vilão. As histórias que eu vi sempre começam comigo tentando roubar alguma coisa do Paraíso. Aí o macaco com a folha de palmeira nas costas aparece e eu apanho.

— Não parece ser muito interessante.

— Concordo. Acho que é por isso que eles ficam tentando inventar coisas novas. Para o Senhor ter uma ideia, eles já fizeram três histórias mostrando a origem do tal do Super Macaco. E, em todas elas, têm algo diferente.

— Como assim?

— Na primeira, ele era um macaco que ganhou poderes depois de nadar num lago. Aí, fizeram contando que na verdade os seus poderes não vem do lago, mas sim do fato de que, quando estava nadando, foi mordido por um peixe poderoso.

— Peixe?

— Isso. Depois, lançaram outra história, mostrando que o Super Macaco veio de outro planeta depois que os pais dele foram assassinados e, chegando ao Paraíso, descobriu que seus poderes aparecem quando ele fica nervoso, graças a uma armadura que ele fez usando um tronco de carvalho.

— Eu não entendi nada.

— Eu também não. Mas vendeu bem.

— Vendeu?

— Isso. Eles desenham as histórias do tal do Super Macaco em folhas de bananeira e ficam vendendo para os outros animais.

— Vendendo?

— Vendendo. Todo dia eles têm uma história nova. Eles até bolaram um nome para essas folhas de bananeira. Chama Folhetim de Bananeira.

— Entendi. Bem, você Me ligou para pedir que a escrita seja inventada e sua história fique melhor.

— Isso.

— E, assim, você vai vender mais histórias que os macacos. E vai ficar rico.

— Não, não é nada disso.

— Então, por que você está pedindo para que eu invente a escrita? Não é para competir com os macacos?

— Não, Senhor. Posso ser sincero?

— Claro.

— Eu quero apenas contar a melhor história possível. Eu não estou preocupado com o tal do Super Macaco. Se os outros animais gostam... Bem, isso é com eles. Eu só quero trabalhar nessa história que criei para que ela fique o melhor possível.

— Adão, é difícil ser onisciente desse jeito. Você é imprevisível demais.

— Bem...

— Você Me dá um minuto?

— Claro.

— Voltei.

— Já?

— Sim. Fui até sua caverna e olhei os desenhos. Realmente, são muito bons.

— Obrigado.

— E gostei daquilo que você fez, de desenhar uma moldura ao redor de cada desenho. Ficam parecendo pequenos quadros pendurados na parede da caverna.

— A Eva disse a mesma coisa sobre esses quadrinhos que eu fiz. Disse que quando a história estiver pronta, vai parecer uma história em quadrinhos na parede.

— Eu gostei bastante.

— Obrigado.

— Adão, é o seguinte. Eu não posso autorizar a invenção da escrita ainda.

— Mesmo? Nem algumas vogais?

— Não. Mas Eu tenho uma ideia.

— Sua ideia não envolve anjos com espadas de fogo descendo até aqui, certo?

— Oi? De onde você tirou isso?

— Bom, é que isso sempre acontece quando eu tento algo novo.

— Adão, quer ouvir minha ideia?

— Sim.

— Você me conta o que quer que seus personagens pensem ou falem, e Eu escrevo. Assim, sua história será escrita. Mas a escrita ainda não será inventada.

— Como assim?

— Você desenha e Eu escrevo. Que tal?

— Perfeito!

— Mas com uma condição. Nós não poderemos usar nossos próprios nomes. Porque Eu ou você não podemos assinar uma história feita em quadrinhos numa caverna. Isso pode me dar uma dor de cabeça enorme daqui a alguns séculos. Você aceita?

— Claro! Mas quais nomes nós usaremos?

— Depois vemos isso. Vamos primeiro escrever a história.

— Certo!

Assim, Adão passou noites e mais noites desenhando. E, um dia, ligou para Deus e contou que sua história estava terminada. Contou o que era cada quadro e Deus se prontificou a escrever tudo. Antes de descer até a Terra, ligou para o departamento de linguística e pediu ao anjo encarregado que criasse duas palavras totalmente novas, usando símbolos aleatórios de línguas diferentes.

Depois de receber a resposta do anjo, Deus desceu até a caverna e passou a noite escrevendo os diálogos e narrações, seguindo as instruções de Adão. Pouco antes do amanhecer, o trabalho estava quase terminado, faltava apenas assinar. Desta forma, Deus escreveu, logo abaixo do último desenho:

“Uma história em quadrinhos na parede, feita por Will e Eisner”.

Releu a história inteira. Estava boa. Estava muito boa.

Subiu de volta aos céus e convocou dez anjos, encarregando-os de uma missão: cada um deles iria de madrugada até a caverna de Adão e copiaria a história em folhas de bananeira. E, quando tivessem folhas de bananeiras suficientes, entregariam uma cópia para cada animal do Paraíso. Um dos anjos chamou sua atenção.

— Mas nós somos apenas dez. Serão muitas cópias.

— Por isso que é importante que cada um de vocês avise outro anjo. Quanto mais anjos ajudarem, mais longe essa história pode ir.

— Mas, Senhor, por que logo essa história?

— Porque ela é boa. Porque ela foi feita com amor.

— Entendi.

— E não se esqueça de uma coisa: um dia, o Paraíso vai desaparecer. Eu sei disso. Então, é importante que todos já entendam uma coisa.

— O quê?

— Que o Paraíso nada mais é que uma história boa. Sempre que uma pessoa se apaixonar por uma história, ela terá descoberto um Paraíso só dela.

— Entendi. Para mim, então, o Paraíso seria aquela história que o Super Macaco precisa lidar com o retorno do verdadeiro Super Macaco.

— Oi?

— O Senhor não viu essa? O Super Macaco descobre que na verdade é um clone, e precisa...

— Isso não importa agora, Lúcifer. Vá fazer o que eu pedi.

— Sim, Senhor.

Ajude a webcomic Terapia a ser impressa!

Link Vimeo

Faz alguns anos que eu decidi seguir o exemplo do Adão e contar a minha história em quadrinhos.  Assim, em 2011, a webcomic Terapia começou a ser publicada na internet, com roteiros escritos por mim e pela Marina Kurcis, e arte do Mario Cau.

A história é bem diferente das minhas crônicas sobre Adão. Trata-se de um jovem comum que, sem conseguir se sentir feliz ou realizado, discute diversos detalhes do seu cotidiano e do seu passado com seu psicólogo. Desta forma, aprende mais sobre si mesmo e sobre a sua grande paixão (que funciona quase como uma válvula de escape na sua vida): velhas canções de blues.

Logo em seu primeiro ano, Terapia ganhou o HQMix de Melhor Webcomic (no segundo ano, foi novamente finalista na categoria) e colecionou elogios da crítica, tanto pela força e sensibilidade de seu roteiro, como pela arte de Mario Cau, que surpreende pelo seu caráter experimental e elegante. Assim, Terapia tornou-se uma sensação no mercado de quadrinhos independentes.

Agora, é hora de ir além.

Demos início a um projeto de financiamento coletivo para fazer com que Terapia seja impressa, em um álbum de luxo, com acabamento poucas vezes visto em uma HQ brasileira.

Mas, para isso, contamos com seu apoio: conheça a HQ Terapia e o projeto do Catarse. Se gostar da nossa história, contribua com o projeto comprando o álbum (e escolhendo seus brindes). E, tão importante quanto isso, divulgue aos seus amigos, tanto na internet como fora dela.

Adão contou com a ajuda de Deus e dos anjos para levar completar sua história.

Eu e meus parceiros pedimos com a sua ajuda para levar a nossa história – e o nosso sonho – adiante.

Terapia-(1)
Terapia-(2)
Terapia-(3)
Conto com você, vai lá no Catarse conhecer e apoiar!

Rob


publicado em 31 de Agosto de 2013, 21:00
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Rob Gordon

Rob Gordon é publicitário por formação, jornalista por vocação e escritor por teimosia. Criador dos blogs Championship Vinyl e Championship Chronicles.


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