Anderson Silva vence, em nome do entretenimento

Cada sociedade tem os heróis relativos ao que mais valorizam

Eu estava com frio na barriga ontem quando o Anderson entrou no ringue contra Nick Diaz, mesmo sem saber bem como me sentia sobre sua decisão de voltar aos ringues. 

O patrocinador exibia incessamente um comercial que misturava falas de Bruce Lee, uma cena do filme Batman e aquela musiquinha infantil da aranha. Até o UFC estava usando a hashtag oficial #THELEGENDRISES (algo como #ALENDARESSURGE). Nick Diaz era o azarão servido em uma bandeja de ouro para que "o campeão voltasse".

A luta parecia a cena (final?) de uma narrativa cujo pano de fundo havia sido meticulosamente planejado, ainda que os protagonistas entrassem em cena com o script em aberto.

Chuto, baseado na audiência do recente UFC on Fox 14, que mais de 3.000.000 de pessoas tenham sintonizado no combate de ontem.

As cifras e marcas não deixam que a gente se engane. Acima de tudo, ontem era um show

Há uma rede de contratos complexa em torno de um evento como esse, com altas expectativas de retorno.

Nick Diaz não foi chamado à toa. Talvez nenhum outro lutador tivesse a desfaçatez de provocar Silva se deitando no meio do ringue e fazendo dancinhas. O feitiço virando contra o feiticeiro.

Diaz tenta aplicar um pouco de psicologia reversa com o ex-campeão
Provoca um pouco mais | Foto por Esther Lin


Silva fecha os olhos e respira profundamente entre o primeiro e segundo round | Foto por Esther Lin


Foto por Esther Lin


Essa foi a tônica da luta: acirrada e distante, com ligeira vantagem para Silva na maioria dos rounds | Foto por Esther Lin


Diaz, no entanto, saiu bem mais machucado | Foto por Esther Lin

Após lutar sério (de guarda alta a todo momento e sem dar brechas), vencer na decisão por pontos, cair em prantos, agradecer sua família e a Deus, Anderson agradeceu aos fãs e disse que estava lá para dar um bom show

Elogiou seu oponente dizendo que ele deu um bom show, também.

Silva desaba e chora

O fio narrativo a la Rocky Balboa, de superação contra tudo e todos, foi a cobertura de chocolate do bolo.

"O retorno do super-herói tupiniquim" era o tom geral nas notícias hoje.

Mas o que é mesmo um herói?

São figuras arquetípicas capazes de superar desafios épicos, que os fazem transcender a condição de homem comum. Usualmente são motivados por ideais altruístas como paz, liberdade, fraternidade, paz e justiça.

Poucas coisas mexem tão forte com o imaginário masculino quanto se tornar um.

Às vezes são motivados por vaidade, orgulho, vingança, ganância, ódio. Nesses casos são chamados de anti-heróis. Eu arriscaria que muitos dos empresários hoje em capas de revista seriam anti-heróis de nossa época, por exemplo. 

Cada sociedade atribui heroísmo relativo a seus valores. Aquiles foi considerado herói por ser um grande guerreiro, em uma cultura de paz ele provavelmente não teria o mesmo status.

Anderson, a meu ver, é coroado herói pela cultura do entretenimento.

O ponto aqui não é desmerecer, mas sim olhar mais de perto a natureza de seu feito.

A vitória de ontem não foi pelos jovens carentes, pelos desempregados, pela paz mundial, pelo fim da violência contra as mulheres ou qualquer outra causa. Foi por ele, pelas pessoas próximas que o apoiam, creio, e pelo show.

Isso é perfeitamente legítimo. O tempo todo estamos lutando por nós mesmos mundo afora. Conseguimos sentir grande empatia pela superação pessoal de um sujeito com 39 anos que estava no centro de um octógono com a perna partida ao meio, um ano atrás. 

Sou fãzaço dele como lutador, vê-lo chorar foi emocionante pra caramba. O considero um combatente excepcional e uma figura carismática.

Mas não sei quem ele realmente é, assim como você também não. Não acredito que entrevistas nas quais 90% das perguntas se repetem nos ajudem a conhecer quem está por trás da imagem, ainda que uma ou outra reportagem possa começar com o mote de "conheça o fulano na vida real". O seu novo reality show não é a realidade, é um recorte bonito.

Anderson com a família no começo de 2014, iniciando a recuperação

Sei que ele parece ser um cara super família, brincalhão, determinado e religioso. Acredito que ele tem um dom para lutas e soube cultivar laços de amizade valiosos, como os que nutre com os irmãos Nogueira.

Porém, não posso dizer com segurança quais são suas motivações, como é seu mundo interno. Não tenho a menor ideia de como Anderson se relaciona com orgulho, ciúme, inveja, raiva, dinheiro. Talvez ele seja controlador e obssessivo em alguns contextos e relaxado em outros. Não o condenaria se soubesse que tomou decisões eticamente questionáveis ao longo de seus quase quarenta anos de vida.

Não acho uma boa nos relacionarmos com Anderson como se fosse um herói moral, semidivino, referência de sabedoria. Pelo modo como a mídia o retrata, essa parece ser a imagem construída. 

E a mídia, quer gostemos ou não, molda muitas das bússolas morais de nosso tempo.

Anderson é um baita exemplo como lutador, como alguém que superou adversidades pessoais monstruosas em sua carreira. E tem lugar cativo no panteão dos heróis do entretenimento.

Como homem além do octógono, não sei dizer, deve ser um cara legal. Teria todo prazer em conhecê-lo. 


Homens possíveis é uma coluna quinzenal, sai sempre aos domingos.


publicado em 02 de Fevereiro de 2015, 00:48
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Guilherme Nascimento Valadares

Editor-chefe do PapodeHomem, co-fundador d'o lugar. Membro do Comitê #ElesporElas, da ONU Mulheres. Professor do programa CEB (Cultivating Emotional Balance). Oferece cursos de equilíbrio emocional e escreve pequenas ficções no Instagram.


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