As menos óbvias preparações para uma viagem de fim de ano

  • Nossos atuais Mecenas:
  • Vivara130x50 jpg
  • Selo dorel jpg

Já falamos bastante por aqui sobre pegar estrada. Falei sobre sobre minha incansável busca pela estrada perfeita, onde quero devorar curvas com meu sonhado Porsche. Melhor ainda é quando podemos compartilhar toda a experiência com aqueles que nos são caros. Pode ser com os bróders, pode ser com a mulher, pode ser com a família inteira.

O lance é que essas viagens exigem uma preparação. Não, não estou necessariamente falando sobre fazer revisão completa no carango. Disso você, que é inteligente e responsável, já está ciente. Existem outras preparações das quais geralmente não se fala.

 

Você está devidamente preparado?

Sinto muita falta de viagens que provavelmente nunca mais se repetirão em sua versão original. Meu pai revisava por dias a velha Belina branca que chamávamos carinhosamente de ambulância. Óleo, filtros, freios, fluídos, tudo era verificado. Minha mãe cuidava dos quitutes. Personificávamos os farofeiros da Família Buscapé. Mais uma entre tantas famílias buscapés que pegavam estrada a cada feriado.

Não lembro de carros com insulfilme naquela época. Não era comum. Meus pais usavam ventosas para prender nos vidros aquelas telas semi-transparentes para bloquear o sol. Era horrível, mas o calor era pior, e carros com com ar-condicionado eram para poucos. Levávamos de tudo. Havia sacolas térmicas com garrafas de suco, isopores com as antigas garrafinhas de vidro de Coca-Cola e os sanduíches de presunto e queijo que minha mãe preparava. Éramos o inferno dos meus pais. As viagens duravam horas, e nossa bateria não acabava. Meu irmão e eu íamos trocando socos durante quase todo o percurso. A irmã mais velha por vezes sentava no meio para tentar colocar ordem na casa, e o pai se limitava a ameaçar: “na próxima vou parar no acostamento, hein!” Era muito divertido.

Certa vez, a caminho da praia, debaixo daquele sol escaldante que só parece acontecer durante um engarrafamento e nunca durante a praia em si, a "ambulância" ferveu. Teria meu sempre cuidadoso pai esquecido de colocar água no reservatório do radiador? Estando presos em um congestionamento no meio do nada, sem assistência por perto, com paciência limitada e estoque de suco de laranja em baixa, era uma tragédia anunciada: minha mãe ficaria brava a qualquer momento. Mas o velho não era bobo. Conduziu rapidamente o carro até o acostamento e ainda conseguiu encontrar uma sombra à beira de um matagal. Pegou algumas garrafas de suco vazias e sumiu por meia hora em meio aquele capim alto.

Reclamando, a mãe nos tirou do carro e todos sentados na sombra aguardavam enquanto ela nos preparava um lanchinho. Não nos queria no sol com medo da tal insolação. Éramos brega mesmo. Logo mais, meu pai apareceu com as garrafinhas cheia de água que encontrou em um córrego. Completou o reservatório e, pelo acostamento, logo chegamos a uma borracharia de uma pequena oficina na estrada. Uma mangueira estava furada. Substituímos a danada e poucas horas depois já estávamos mergulhando nas águas azuis de Santa Catarina.

Hoje, minha viagens são bem diferentes. Planejo algumas coisas, principalmente o horário. Fujo de datas complicadas e dos engarrafamentos. Não viajo sem manutenção em dia e um checkup básico completo. Raramente levo comidas e quitutes. Paro no caminho para fazer refeições civilizadas e de maneira mais, digamos, elegante. Mas admito, sinto muita falta da minha infância, das viagens com meus pais e dos programas de índio em família. Era ótimo. Lembranças que não se apagarão e que dificilmente se repetirão.

Ou será?

Na verdade, quem sabe não reedito minhas antigas viagens bregas na companhia da futura Sra. Almeida e da minha própria futura família com futuros pimpolhos estapeantes? Ou quem sabe não resgato meus irmãos, cada um do canto onde hoje vivem, trago junto as pessoas que ao longo desses anos entraram na família e arranjo um carro onde todos caibam? Uma road trip familiar em uma Kombi me soa... bem, soa brega para caramba, mas extremamente divertido. Juro que pediria para minha mãe levar uma sacola térmica de suquinhos e para preparar sanduíches para todos. Fora que a Kombi possuí motor a ar, e como dizia a velha propaganda, “ar não ferve”.

 

Todo mundo critica, mas ninguém recusaria uma dessas

Entretanto, caso você saia para viajar com a galera nesse final de semana lembre-se: nem todo motor é refrigerado a ar. Você precisar estar com o aditivo de arrefeicimento, com o óleo, pastilhas de freio e com os pneus em dia. Além de, claro, combustível no tanque. Certificando-se de que tudo está em dia, não precisará comer sanduíche de presunto e queijo no acostamento.

Lembre-se também daqueles itens tão vitais quanto os da manutenção: trilha sonora e passatempos para os congestionamentos. Vale tudo, jogos no celular, livros, revistas, chimarrão (se você, como eu, for do sul) ou simplesmente a companhia dos amigos para colocar o papo em dia. E lembre-se, não se apresse perguntando quanto falta. Como já dissemos, aproveite a beleza de cada quilômetro de estrada.

Eu terminaria este texto com um tradicional "boa viagem", mas com todos esses preparativos devidamente observados, isso não seria um desejo, mas sim uma inevitabilidade.


publicado em 13 de Dezembro de 2011, 05:08
3861595431ec39c257aee5228db3092a?s=130

Rodrigo Almeida

Engenheiro, apaixonado pela vida e por qualquer coisa com um motor potente, nostálgico entusiasta de muitas daquelas boas coisas que já não mais se fazem como antigamente.


Puxe uma cadeira e comente, a casa é sua. Cultivamos diálogos não-violentos, significativos e bem humorados há mais de dez anos. Para saber como fazemos, leianossa política de comentários.

Nossos atuais Mecenas: