Autoconhecimento pelo desafio

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"Quanto você pode conhecer sobre si mesmo se você nunca esteve numa briga?"
–Chuck Palahniuk

O filme Clube da Luta (Fight Club, 1999, de Chuck Palahniuk) muitas vezes foi mal interpretado como um filme sobre homens que brigam, quando fala simplesmente da descoberta pessoal do universo masculino e de como funciona essa realidade tão plástica.

Autoconhecimento é uma das maiores buscas de todo homem em sua vida. Saber do que é capaz e preencher o vazio que costuma ser disfarçado com o abuso de bebidas e drogas, mas que na verdade só diz uma coisa para você: você não sabe quem é, e uma hora vai descobrir isso.

Quando entramos num tatame, deixamos cair todo nosso histórico e nossos títulos. A nossa única opção é dar o melhor de si para tentar derrubar o oponente, caso contrário ele vai derrubar você. Em uma análise simples, não existe lugar mais democrático no mundo do que um ringue. Ali dentro a luta começa de pé para os dois lados, o rico e o pobre sangram do mesmo jeito. E se você não se cuidar sua roupa vai sujar de sangue independente de quanto tenha custado.

"Quer um conselho, menina Scarlett?"

"The more you know who you are, and what you want, the less you let things upset you."

“Quanto mais você sabe quem é, e o que você quer, menos você deixa as coisas te irritarem.”
–Bob (Bill Murray), em Lost in Translation(Encontros e Desencontros)

Um homem deve saber do que é capaz, quanto consegue suportar, até onde consegue ir. O ditado popular nos lembra "Só coloco meu chapéu onde eu alcanço", mas você primeiro precisa saber quão alto alcança. Rocky Balboa nos diria que ninguém vai nos bater mais forte do que a vida. Viver é uma grande briga cuja preparação não existe.

Obviamente essa analogia é extremista. Não precisamos enfrentar um homem para nos conhecer melhor, mas precisamos constantemente nos desafiar e saber quanto agüentamos. Criar metas e alcançá-las, metas que não signifiquem nada para ninguém mais do que para você mesmo. Seja em um tatame, levantando pesos, aprendendo um novo idioma ou criando sua própria empresa, você precisa testar quanta perseverança tem, quanta força de vontade consegue ter, achar sua causa e concluir, e quando falhar saber lidar com isso sem jogar nossa culpa na vida.

Todos nós chegamos a um ponto onde nos identificamos com o protagonista do Clube da Luta. Com o cotidiano é muito fácil se perder e não saber aonde quer chegar, o primeiro passo para sair disso é claramente procurar aonde quer chegar. Sem essas balelas de autoajuda, o homem de verdade sabe o que quer, “se você não sabe, tá tirando onda de mané”, diria o Marcelo D2.

No filme, o protagonista busca um sentido para a vida que leva – uma emoção a mais ou um propósito. Alguns acham isso em religião enquanto outros na busca por mais dinheiro, outros nos esportes, o importante é saber quem você é e onde você quer estar.

Minha primeira luta

Uma das maiores lições da minha vida aconteceu aos meus 19 anos e acabou refletindo em todos os outros aspectos da minha vida até hoje. Eu, um jovem com um trabalho razoável, morando com a mãe e com todo dinheiro para fazer o que quiser, acabei engordando. Não ganhando uma barriguinha, mas ficando mais de 30 quilos acima do meu peso aceitável.

Certo dia, em uma reunião de amigos para jogar videogame, um amigo me mostrou um vídeo de algo que mudaria minha vida: pessoas corriam e saltavam com agilidade por obstáculos, faziam saltos com precisão cirúrgica, qualquer falha poderia ser fatal. Eles se desafiavam o tempo todo e parecia que ignoravam tudo o que eu acreditava ser um limite humano.

Olhei aquilo e falei para meus amigos: “Vou treinar isso aí”. Eles riram e começaram a fazer piadas. Pela primeira vez eu me senti desafiado – as pessoas duvidavam do meu potencial e da minha capacidade de alcançar meus objetivos.

Eu fiquei puto.

"O que mesmo você falou que eu não consigo fazer?"

O que um homem tem de fazer, um homem tem de fazer

Naquela semana eu tinha visto meu peso na balança: 101 quilos. No momento em que vi aquele vídeo, esqueci a reunião de amigos, afundei no computador e vi todos os vídeos que existiam na internet sobre o assunto (na época, uns sete). Descobri que o que estava vendo se chamava Parkour. No único site caseiro que existia, as informações eram totalmente duvidosas, nada dava pra saber sobre o assunto direito.

No dia seguinte acordei e liguei para dois amigos (que tinham visto os vídeos na noite anterior comigo) e perguntei se não queriam sair pra tentar copiar os movimentos que tínhamos visto. Todos nós muito desajustados e sem coordenação, uma cena ridícula que resultou em tombos e boas risadas.

Decidi que não ia ter como e que perder peso era a minha única alternativa. Eu, que sempre falei “Não me preocupo com corpo”, agora começaria a correr e fazer dieta. Eu estava decidido.

Li tudo que encontrei sobre perda de peso, exercícios físicos e alimentação. Muita coisa ainda não fazia o mínimo sentido, então resolvi começar pelo básico: correr e fechar a boca. Eu precisava mostrar que eles estavam errados. Mais ainda, eu precisava me provar que eu estava certo.

Desse dia em diante aprendi a mastigar meu orgulho. Acordava às 6 horas da manhã e caminhava por uma hora. Foi assim até conseguir correr sem que as pernas doessem. Lembro da primeira vez que tentei fazer uma flexão nessa época: quando tentei me apoiar, meus braços falharam e caí de peito no chão. Chorei todos os dias durante meses. Pensava em desistir a cada segundo.

Eu comia muito pouco e minha dieta beirava o desespero. Passava alguns dias sem comer e quando comia era bem pouco. Fiz muita coisa da forma errada, mas não me arrependo, era o que eu tinha no momento e seria muito cômodo me apegar à desculpa de “Não tenho dinheiro pra academia” ou “Não posso pagar um nutricionista.”. Eu tinha de fazer o que dava pra ser feito.

Em três meses sai dos 101 e cheguei aos 70 quilos. Como fiz tudo isso sem contar pra ninguém (não deixei ninguém saber o que eu estava fazendo, nem mesmo eu me dava conta da diferença, quando me pesei tomei um baita susto), muita gente se assustou quando me viram ficando tão magro. Eu não tinha massa muscular, então a aparência ficou um pouco assustadora.

Menos de um ano depois já conseguia treinar e fazer alguns dos movimentos. Novas fontes de informação foram surgindo, fui me aprofundando cada vez mais e hoje tenho muito mais noção de como fazer esse tipo de coisa. Sei que o que fiz foi loucura, mas eu venci essa batalha, que por mais que eu relate aqui, não da pra retratar quão dura e pesada foi.

Link YouTube | Nosso grupo fazendo Parkour

Da rua para a vida

Esse processo impactou minha vida. Descobri que o único obstáculo no caminho de onde quero chegar sou apenas eu. Aprendi que não importa o quanto riam ou duvidem de algum dos meus planos. Seguir e provar do que sou capaz paga toda a vergonha.

No trabalho sou a pessoa que resolve problemas, que aceita os desafios e os projetos mais complicados. Se for preciso, viro noites, feriados e finais de semana. Saber se comprometer com uma causa e fazer o que for necessário para alcançar o resultado mais positivo possível faz com que você conheça novos limites. Em uma avaliação de perfil do trabalho fui definido como “auto-motivado”, mas mal sabem eles que minha motivação não vem de mim, vem dos desafios que procuro.

Acabei me tornando uma pessoa movida a desafios, metas e objetivos. No meu grupo de amigos temos treinos que chamamos de “Ideia imbecil”, nos quais cada um propõe ao grupo um exercício especifico em uma quantidade que seja impossível, muito difícil de alcançar. Ações como 500 barras, 1000 flexões e coisas do tipo. Não importam o tempo que demore, não importa a quantidade de séries, o importante é concluir o objetivo.

Quem é você?

“Eu vou mostrar para vocês como sou grande.”
–Muhammad Ali

Quantas vezes você não se vê trancado na rotina trabalho + casa + estudos? Quantas coisas são feitas por você e para você? Quantas pessoas olham para você e confiam uma dificuldade no seu poder de empenho e dedicação? Como você pode saber quem é e a que veio se não conseguiu parar até hoje?

No Clube da Luta o protagonista criou em sua mente Tyler Durden, alguém forte e confiante, capaz de fazer qualquer coisa, e tomar as mais extremas atitudes pelo que fosse necessário. Tyler é dentro da cabeça dele tudo o que ele sempre quis ser e nunca conseguiu.

Temos enraizado em nossa cabeça um conceito de humildade: acreditamos que se orgulhar do que conquistamos e de onde chegamos é errado, é arrogância, é orgulho. Ser humilde é reconhecer como foi difícil sua batalha para conquistar o que conquistou, agradecer e ajudar os outros a alcançar seus objetivos.

Você sempre pode se esconder atrás do “Não preciso provar nada para ninguém” ou pode provar para você mesmo como você pode ser grande.

Agora pergunte-se: "Quem é você?"

“Ser perfeito não é pontuação no placar, não é vencer. É sobre sua relação com você mesmo, sua família e seus amigos. Ser perfeito é poder olhar nos olhos dos seus amigos e saber que você não os decepcionou porque falou a verdade. E a verdade é que você fez tudo o que podia, e não tinha mais nada que pudesse ter feito.”
–Treinador Gary Gaines, em Friday Night Lights

* Inspirado pelo texto "Inner conflict: sport as a tool of self-discovery", de Mark Twight.

Quer colocar isso em prática?

Para quem está cansado de apenas ler, entender e compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar, criamos o lugar: um espaço online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação.

veja como entrar e participar →


publicado em 01 de Março de 2011, 10:19
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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