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Barcelona faz virada histórica e nos ensina que um jogo só acaba quando termina | Mais que um jogo #21

Depois de perder por 4 a 0 no primeiro jogo, Barcelona protagoniza uma virada histórica

Uma virada inédita na história do maior campeonato de futebol do mundo. Foi isso que acaba de acontecer na tarde de hoje, em Barcelona, na Espanha.

Depois que o time catalão perdeu para o Paris Saint-Germain por 4 a 0 na partida de ida das oitavas de final da Champions League, muitos deram a fatura por consumada. Mas os jogadores do Barcelona acreditaram e protagonizaram um dos momentos que com certeza entrarão para aquele clipezinho de melhores momentos do esporte no ano.

Uma história e tanto

É preciso dizer que quem joga com as costas na parede da maneira como o Barcelona se viu obrigado a fazer acaba se tornando muito mais perigoso. Com uma desvantagem tão grande, você acaba percebendo que tem muito pouco a perder e aí, amigo, você se torna capaz de arriscar muito mais.

Também é preciso dizer que, hoje, talvez não haja no mundo uma equipe sequer mais qualificada do que o próprio Barcelona para protagonizar uma virada como essa. A equipe espanhola tem o que muitos consideram o melhor ataque do mundo com Messi, Suárez e Neymar, além de outros jogadores excepcionais como Iniesta e Piqué. Ou seja, qualidade técnica não lhe falta.

Apesar disso, a equipe catalã parecia não viver seu melhor momento. Com atuações abaixo da média desde o começo da temporada, Luis Enrique, o treinador, convivia com as críticas e já não nutria uma boa relação com a imprensa espanhola. Os analistas diziam que a equipe não era bem treinada, que a estratégia toda da equipe era baseada em dar a bola para o trio de atacantes e esperar que eles resolvam e que uma equipe tão qualificada como essa deveria render mais.

Diante de tudo isso e com a goleada em Paris, o tom das críticas aumentou e, apesar de ostentar o maior percentual de vitórias da história do clube, Luis Enrique pareceu de fato ter sentido o golpe. Se no Brasil, seria provável que um treinador na mesma condição fosse demitido, na Espanha, ele resolveu anunciar que não continuaria no clube após o fim da temporada, que, com a eminente não-classificação para a próxima fase da Champions, estaria sensivelmente mais próxima.

Mas os dias foram passando e parece que o peso sobre a comissão técnica e o elenco do Barcelona foi começando a se dissipar pouco a pouco. A equipe espanhola mudou o modo como jogava e passou a aplicar sonoras goleadas no Campeonato Espanhol. Os torcedores, por sua vez, passaram a apoiar mais o time diante da missão dificílima que se apresentava e o treinador e os jogadores compraram o discurso de que, sim, era possível uma virada.

Quem acredita

E acreditar foi a palavra de ordem no Barcelona desde então. O que, diga-se de passagem, não é uma grande novidade. Fãs de futebol ao redor do mundo estão acostumados a ouvir isso. A grande diferença é que, nesse caso, deu certo.

Minutos antes da partida, Neymar twittou:

Pouco antes, na entrevista coletiva na véspera do jogo, Luis Enrique disse:

"Se eles fizeram quatro, nós podemos fazer seis"

Dito e feito.

Link Youtube - Veja os melhores momentos da partida e acompanhe a narrativa toda a partir daqui 

Mesmo com alguns erros de arbitragem e outros lances questionáveis, o Barcelona conseguiu. Empurrado por uma torcida que lotou o Camp Nou e empurrou o time incondicionalmente do começo ao fim, o Barcelona abriu o placar com Suárez, de cabeça, logo aos 2 minutos de jogo, num lance confuso no qual os parisienses ficaram reclamando da bola não ter cruzado totalmente a linha do gol. A arbitragem confirmou (eu daria) e não teve jeito: 1 a 0.

Só assim, com o placar já aberto, pudemos começar a analisar o que estava acontecendo. As propostas logo ficaram claras: o Barcelona, com Messi mais recuado jogando pelo meio de campo, Rafinha aberto por uma das pontas, Neymar na outra e Suárez pelo meio, tentava marcar a saída de bola do PSG e recuperá-la o mais rápido possível para seguir pressionando o rival. Enquanto isso, a equipe francesa se fechava, apostava na sua grande vantagem e tentava encaixar contra-ataques.

Longos minutos se passaram até que aos 39 minutos do primeiro tempo, Iniesta, então o melhor em campo, insistiu numa bola quase perdida, tocou de calcanhar quase dentro da pequena área e contou com a colaboração estabalhoada do zagueiro Kurzawa que desviou para o gol. 2 a 0.

O intervalo veio e muita gente cética resolveu passar a acompanhar a partida. O Barcelona já estava na metade da missão para, pelo menos, levar a partida pros pênaltis. Faltavam 2 gols. Desde que a equipe não tomasse nenhum.

Já na volta para o segundo tempo, o mesmo roteiro. Em pênalti bastante discutível (eu daria) sofrido por Neymar com menos de 3 minutos de jogo, cobrança de Messi e bola na rede. 3 a 0.

O Camp Nou ia à loucura. Torcedores na arquibancada eram enquadrados pelas câmeras de transmissão e representavam uma mistura entre esperança e incredulidade. Mas logo veio o banho de água fria.

Num anticlímax tremendo, bola esticada na área do Barcelona, toque de cabeça pra trás e chegada soberana de Cavani, atacante uruguaio da equipe francesa, pra marcar um belo gol para o PSG: 3 a 1.

O cronômetro marcava 'apenas' 17 minutos do segundo tempo, mas aquilo parecia pouco tempo para a missão que acabara de se tornar significativamente mais difícil. Os pênaltis já não eram mais uma opção. Agora seria preciso marcar 3 vezes antes do apito final para garantir a classificação.

Era hora de mostrar que o discurso não era só da boca pra fora. Era preciso acreditar muito. Mais do que nunca. Mas era difícil. O tempo passava. E o PSG se tornava mais perigoso e confiante. Até que o menino Neymar resolveu assumir definitivamente o protagonismo que já ganhava ao decorrer da partida.

Aos 42 minutos do segundo tempo, ainda com o mesmo placar de antes, falta na entrada da área para o Barcelona. Mesmo com Messi, o dono do time, em campo, Neymar pediu pra bater. E bateu com perfeição. Como pouco. O goleiro pareceu não acreditar que a bola ia entrar, mas entrou. 4 a 1.

Poucos minutos depois, novamente ele. Em pênalti ainda mais duvidoso (eu não daria) cometido por Marquinhos em cima de Suárez, Neymar mais uma vez pediu pra bater. E fez. Era o rascunho do impossível. 5 a 1.

Nessa hora, o momento mental das duas equipes estava completamente invertido. Mesmo com a classificação nas mãos, o PSG parecia amedrontado, sem confiança. Do outro lado, o Barcelona, franco atirador, parecia que tinha tudo que precisava para fazer acontecer. E tinha. Era Neymar.

Depois de fazer 2 gols num intervalo de três minutos, Neymar cobrou uma falta na intermediária do campo direto pra área. Àquela altura até o goleiro catalão já estava por lá. A defesa francesa, no entanto, rebateu. Neymar pegou a bola de novo, teve frieza para cortar um marcador e jogar lá dentro novamente para que Sergi Roberto aparecesse nas costas da zaga e se jogasse na bola antes da chegada do goleiro para desviar e marcar: 6 a 1.

Fato consumado. Depois do gol não houve tempo para praticamente mais nada. Mal foi dada a saída de bola e o árbitro encerrou a partida. O Barcelona fez aquilo que ninguém na história tinha conseguido fazer: reverter uma desvantagem de 4 a 0.

Por isso, deixe por um momento suas restrições ao Barcelona, esqueça que em muitas vezes eles são protegidos pela imprensa, guarde o rancor pelo torcedor brasileiro que gosta do Barça e que você considera modinha, para apreciar um espetáculo difícil de ver. No fim das contas, se você não quiser aceitar que o Barcelona é mais que um clube, pode pelo menos aprender passar a acreditar que o futebol é mais quem um jogo.

Link Youtube - Os ex-jogadores Rio Ferdinand, Steven Gerrard e Michael Owen se preparavam para um programa pós-jogo quando a virada aconteceu.

E isso é só oitavas de final, amigos.

***

Mais que um jogo é uma coluna de autoria de Breno França publicada quinzenalmente às terças-feiras que usa acontecimentos esportivos para propor reflexões sobre aspectos de nossas vidas.


publicado em 08 de Março de 2017, 21:04
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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