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Boletim Final da Papo de Homem sobre o Pan Americano Rio 2007

Continuando a saga do relato anterior, desta vez fui designado para dar dois plantões na Vila Panamericana.

O que me gerou muita expectativa, pelos relatos da imprensa sobre a putaria desenfreada que supostamente estaria acontecendo por lá, e também porque queria muito conhecer tão famigerado local.

O que me aguardava?

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A gloriosa Vila do Pan

Na quinta-feira, 19 de Julho, cheguei na Vila pontualmente às 7 da manhã. Mas devido ao rígido esquema de segurança, só pude entrar às 7:30h, meia hora encarando a fila da revista. Ótimo, sabia que minha credencial não iria me causar problemas... ainda.

Cheguei ao meu posto de trabalho, uma Policlínica instalada nos domínios da Vila, bem em frente aquela praça que sempre aparecia na TV. Como não havia atendimento cedo, eu e dois colegas resolvemos ir para o refeitório tomar café, onde tive o primeiro problema.

Problema com as credenciais... de novo

Nossa credencial não nos permitia sequer CIRCULAR pela Vila, tampouco usar o refeitório. Além disso, havia um refeitório só para os atletas e um só para os voluntários e funcionários, classe da qual eu fazia parte. Fomos informados que precisaríamos pegar uma outra credencial, bem pra dentro da Vila, e perdemos pelo menos uma hora nesse trâmite.

Ainda tendo que aturar um cara organizando a fila da credencial que parecia aquele Coronel Boris Tutchenko do anuncio da Net (Skavurska!!) botando ordem. Ninguém merece. E enquanto isso o nosso posto estava lá, desguarnecido. Se alguém passou mal naquela hora, morreu ou ficou mal mesmo, um exemplo de organização. Médico e fezes nesse país são coisas parecidas. Tudo bem, voltamos.

Já portando a credencial, eu e um colega, em uma hora na qual não havia atendimento, demos uma circulada na Vila. O clima era surreal. Gente de países que nunca havia sequer ouvido falar, todo mundo de agasalho da delegação, aquela história do tráfico de pins rolando solta, enfim, algo que provavelmente nunca mais verei.

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Os quartos são até bem bacanas

Pela localização, em frente a uma via expressa, achei que o condomínio era uma furada, mas não foi isso que vi. As instalações eram muito boas (para quem não sabe, a Vila Panamericana foi vendida na planta, e após os Jogos, os donos poderão usar seus apartamentos). Vai ser um bom lugar para morar.

Encontros e medalhas

Não havia muito trabalho naquele dia, e em minhas incursões à praça da Vila, pude ver vários atletas famosos. O primeiro foi nosso super medalhista da natação, Thiago Pereira. Depois também vi o João Derly, do judô, que me impressionou pela altura. Ou melhor, pela falta dela, um verdadeiro nanico.

Dois jogadores da seleção de futebol masculino, um deles o Lulinha, do Corinthians, foram atendidos pelo meu colega ortopedista. Atendi uma ginasta (rítmica) brasileira, a Ana Paula Schaefer, que ganhou medalha de bronze. Conversando com o médico da delegação, descobri que ele achava que teria que cortá-la, pois tinha um músculo rompido nas costas.

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Ajudei o Brasil a faturar algumas dessas

Pedi uma ressonância e não tive mais notícias, mas depois soube que ela competiu e ganhou medalha. Uma medalha para mim, que a ajudei! Também atendi o Lenísio, do futsal, com suspeita de ruptura do músculo gastrocnêmio (panturrilha). Ele também acabou jogando e ganhando ouro. Mais uma medalha para mim!

A turma do vôlei

Quando retornei do almoço, encontrei o médico da seleção de vôlei, que já conhecia por ser meu staff na época da especialização na UFRJ. Ele trouxe o Anderson, que tinha suspeita de fratura por stress no tornozelo. A radiografia confirmou o diagnóstico, e perguntei o que seria feito. A resposta foi: "Ele vai jogar, depois a gente vê".

E jogou mesmo, o resultado vocês viram na TV. Aproveitei e perguntei por que o Ricardinho foi cortado, e obtive a seguinte resposta : “Digamos que o copo transbordou.” Mistério...

Atletas quebrados e médicos negligentes

Algo que me impressionou foi como os atletas são submetidos a esforços sobrehumanos e maltratam o próprio corpo. E também como os médicos nesses paisecos do Caribe são mal-preparados.

Exemplo maior: uma atleta jamaicana do futebol de campo, que eu atendi, queixava-se de dores no joelho e falta de firmeza ao correr. E isto aconteceu ainda na preparação, na Jamaica. Ao examinar o joelho dela, constatei que esse tempo todo, o ligamento cruzado anterior estava rompido!

Um ligamento rompido requer cirurgia e 6 meses de recuperação, e se não for feito, pode causar seqüelas irreparáveis. Não é possível que algum médico jamaicano não tenha simplesmente examinado a atleta - teria ele fumado um baseadinho?

Um outro exemplo surpreendente foi um atleta do caratê argentino, que havia fraturado o braço 45 dias antes dos jogos. Ele veio para competir, sentiu dor, e, ao radiografa-lo, constatei que a fratura não havia colado. Será que ninguém viu isso na Argentina? O pior é que o cara ia competir mesmo assim.

Finalmente, a boate. Ou não.

Chegando a noite, mais precisamente às 19 horas, a tal boate abriria. Só que justo naquele dia, o prefeito da Vila decretou que apenas os atletas poderiam freqüenta-la. Tentei entrar lá e não teve jeito, tive que olhar de fora.

Pelo pouco que vi, sinceramente, me levou à conclusão de que a imprensa aumenta muito o que realmente acontece. São coisas que acontecem em qualquer boate normal. Claro que em se tratando de atletas, com os hormônios em ebulição, a coisa esquenta.

Algumas pérolas da Boate...

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Mais uma bela imagem do Pan

- O tal fechamento foi motivado por uma voluntária, que levantou sua blusa para 4 americanos, digamos, investigarem se ela sofria de câncer de mama.
- Uma faxineira foi expulsa da Vila, porque foi encontrada dormindo. No quarto de um atleta cubano.
- Havia um banheiro coletivo próximo à boate. Relatos dão conta que ali se tornou uma espécie de abatedouro, se é que me entendem.
- Um bar ali dentro da Vila vendia cerveja e outras bebidas. Não raro, víamos atletas enchendo a cara. Uma delas foi uma americana lindíssima. Depois descobri que se tratava da Jennie Finch, do softball, uma das deusas do Pan. E era mesmo uma deusa.
- A recepcionista da Policlínica fez sucesso com alguns atletas argentinos. Nunca vi tanto argentino ir lá pra jogar conversa fora com a menina, que por sinal estava se achando. Viva o Mercosul.
- O prefeito da Vila proibiu a venda de cerveja. Os atletas então, atravessaram a Linha Amarela e foram para um posto de gasolina em frente, encher a cara. Só que consumir bebida em posto de gasolina é proibido por lei aqui no RJ, e algum estraga prazeres denunciou. O posto foi fechado. Pobres “atletas”.

Antilhas Holandesas

Já haviam me falado que as atletas do hóquei das Antilhas Holandesas eram lindas, mas não tinha visto nenhuma. Às 3 horas da manhã, fui acordado para um atendimento. Normalmente fico puto da vida quando isso acontece, mas eu não estava no SUS.

Quem era a paciente? Uma louraça de olhos azuis, do hóquei das Antilhas Holandesas, que estava com um hematoma embaixo da unha e não conseguia dormir. E a primeira coisa que me disse foi : “Desculpa te acordar essa hora”.

Fiquei imaginando isso no SUS, no mínimo seria um analfabeto mal-educado dizendo que era ele quem pagava meu salário e não era mais do que minha obrigação atendê-lo. Vou sentir saudade do Pan. Assim dá até gosto atender! Totalmente surreal.

Aí vocês vão me perguntar, mas você não fez nada? Tenho um defeitinho. Sou profissional demais, e eu estava ali a trabalho. Apesar de que ela não me deu muita idéia mesmo. Quem me deu mole foi uma atleta venezuelana que atendi, que começou com aquele clássico bombardeio de perguntas sobre mim. Ah, as mulheres quando se interessam...

Só que ela era do LEVANTAMENTO DE PESO. Já imaginou o biotipo da figura, né? Declinei. Falando em coisa feia, as campeãs de feiúra, para mim, eram as cubanas e dominicanas. Não salvava uma ali. São Jorge faria a festa por lá.

A partida e meu último dia de atendimento

Na manhã seguinte, fui embora pra casa. Meu próximo plantão estava marcado para a Segunda-feira seguinte. Não houve nada demais, tirando os atendimentos mil, foi muito mais puxado do que na quinta.

Por exemplo, o fisioterapeuta das Ilhas Virgens levou time inteiro de basquete, de uma vez só, pra ser atendido por mim. Um dos atletas viu uma garota passando por ali, e me pediu para traduzir o termo “beautiful” para o português, e eu mandei ele dizer “bo-ni-tah”. Não é que o cara começa a correr atrás da mulher gritando: “Bonitah, bonitah!”.

Bom, isso foi o que aconteceu na Vila. Ainda trabalhei depois no Velódromo (Patinação de Velocidade), e no Riocentro (tênis de mesa, futsal e luta greco-romana). Tirando a parte boa de poder assistir aos esportes, o resto do dia era tedioso, nada a fazer.

Ah, sim, eu participei da pesagem das atletas da luta greco-romana, pois a presença de um médico era obrigatória. Mas definitivamente não são o meu tipo de mulher, se bobear me davam porrada.

Olimpíadas?

Para encerrar em grande estilo, um vinho edição especial do Panvinho-pan

Se o Rio está pronto para sediar uma Olimpíada, a resposta a meu ver é: ainda não. O acesso aos eventos era muito ruim, havia muita desorganização e o famoso jeitinho brasileiro ainda imperava.

Sem contar a falta de educação do público em alguns eventos. Muito a melhorar. Da minha parte, estou dando graças a Deus por ter terminado. Apesar das experiências interessantes que tive no evento, prefiro é fazer cirurgia mesmo.

Aliás, questionados se iriam participar do Para-Pan, os funcionários foram unânimes ao dizer que não. É para pensar!


publicado em 04 de Agosto de 2007, 13:18
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Mauricio Garcia

Flamenguista ortodoxo, toca bateria e ama cerveja e mulher (nessa ordem). Nas horas vagas, é médico e o nosso grande Dr. Health.


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