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O pôquer e o mercado financeiro

Retorno médio de investimento, lucro, buy-in médio por torneio, média percentual de zona de premiação, média de field, rake pago, percentual de rakeback... Conforme eu já disse em outros textos, o pôquer é um esporte cujo placar é o dinheiro. Avaliamos a qualidade de um jogador (ou a falta dela) por seus resultados financeiros, e os dados utilizados para análise de resultados são muito parecidos com os utilizados em mercado de ações. Aliás, vários operadores da bolsa de valores são jogadores de pôquer, e também vários jogadores de pôquer operam na bolsa.

Em recentes artigos divulgados na web, diretores de empresas e trading disseram que o mercado de pôquer é extremamente competitivo, e que uma pessoa que é boa o suficiente para sobreviver no mercado de pôquer durante longo prazo provavelmente é boa o suficiente para operar na bolsa. Uma matéria do Los Angeles Times informou que empresas que atuavam em Wall Street estavam recrutando jogadores de pôquer. Danon Robinson, um dos sócios da Toro Trading, chegou a afirmar que um operador de ações que não se interessa por pôquer lhe causa estranheza. "É como se ele não lesse o Wall Street Journal”.

Tem mais chances de domar este touro quem é do Texas. Melhor: do Texas Hold'em

O livro The Professor, the Banker and the Suicide King conta com impressionante riqueza de detalhes as aventuras do banqueiro texano Andy Beal, que enfrentou os maiores nomes do pôquer mundial nas mesas em Las Vegas em diversas sessões. Andy jogava tão caro contra eles que esteve a ponto de quebrar os profissionais, que se juntaram seus bankrolls para jogar contra o banqueiro.

Mas quais características fazem do jogador de pôquer uma pessoa com perfil apropriado para trabalhar no mercado financeiro?

Em primeiro lugar, jogadores de pôquer trabalham sob pressão o tempo inteiro. Este é um jogo onde para um ganhar, o outro tem que perder, de forma que o profissional sempre deve estar atento às oportunidades. Ele não pode perder a chance de tomar o stack do adversário, pois este mesmo “inimigo” pode se voltar contra ele na mão seguinte e tomar tudo que tem à sua frente.

Além disso, ele desenvolve a capacidade de trabalhar com informações incompletas, já que não sabe as cartas do seu adversário, e ainda tem que mudar sua decisão a cada nova ocorrência na mesa, seja ela uma carta virada no bordo, uma aposta ou um tell físico. O operador de ações também trabalha com probabilidades e deve saber quando investir e quando sair de um negócio.

O mercado de ações e o pôquer não são meios de ganhar dinheiro rápido. Em ambos, o retorno aparece em longo prazo, o que naturalmente privilegia o bom negociador. Se um apostador ou operador se apavorar com resultados ruins em curto prazo, é melhor ele mudar de profissão.

E, por último, a principal ferramenta de trabalho do jogador é o dinheiro. Sem cifras, ele é obrigado a ficar fora das mesas, de forma que é essencial que ele controle quais torneios e em quais mesas de cash game pode sentar, ciente de que, se o dinheiro acabar, ele se tornará um “marceneiro sem o serrote”. Trabalhar com dinheiro dos outros, se por um lado reduz o risco, por outro diminui drasticamente o lucro da operação.

O que o pôquer tem a ensinar ao mercado financeiro

Uma forma importante de investimento no meio do pôquer é o staking, também conhecido como cavalada. A cavalada consiste um jogador vender uma parte da sua ação nas mesas a outro, seja pelo buy-in completo do torneio, seja por meio de trocas de percentuais entre dois jogadores, ou ainda por meio do pagamento de despesas relacionadas a um torneio, como viagens, alimentação e hospedagem.

Observe que quando um investidor está investindo em um jogador, ele deve levar em conta que, para ter lucro, seu "cavalo" terá que vencer os outros jogadores, ganhando valores acima da soma da taxa cobrada pelo organizador do torneio e o percentual que vai ficar com seu cavalo em caso de vitória. O maior caso de sucesso em cavaladas no País é o dos administradores do 4Bet. Eles investem em diversos jogadores em torneios ao vivo, on-line e em torneios sit and go, e mantêm uma casa com sete monstros do pôquer nacional que jogam sem risco algum, com todas as despesas pagas, e percentuais pré-definidos sobre os seus lucros.

Steven Begleiter, ex-executivo de Wall Street e atual jogador de pôquer

Em 2010, eu joguei para eles. No meu deal eles pagavam as minhas despesas em torneios (entrada, viagens e hospedagem) e ficavam com 75% do lucro final do projeto, que durou uma temporada do campeonato brasileiro, o BSOP. Eu fazia parte de um time de 15 jogadores que eram chamados de 4Bet Team. Ao fazer este investimento eles conseguiram atingir o longo prazo em um tempo menor, pois tinham vários players jogando por eles. O projeto terminou o ano no lucro, depois de primeira colocação em nove torneios e diversas mesas finais. Cada jogador jogava por percentuais em cima do seu lucro, não havendo trocas entre os cavalos do time.

Como não quebrar no pôquer?

Em primeiro lugar, caso o jogador tenha outra fonte de renda, ele deve manter o “dinheiro de pôquer” separado do seu “dinheiro de vida”. Isso vale para o mercado: há o dinheiro para investir e o dinheiro para o fluxo. Claro que de tempos em tempos é importante consolidar o lucro do pôquer para comprar algo que se queira muito ou para fazer aquela viagem sensacional com a namorada (o que facilita o habeas corpus quando for jogar). Jogadores profissionais que vivem do bankroll devem saber que se viverem acima de sua realidade nas mesas, eles vão quebrar quando a fase ruim vier. E ela virá.

Em segundo lugar é essencial ter a humildade necessária para jogar mais barato quando o bankroll diminuir. O pôquer é um jogo de egos, e vários jogadores já quebraram por não reconhecer que o jogo está duro demais para eles, ou por jogar mais caro quando perdem uma porção significativa do seu dinheiro de jogo. Observe que, teoricamente, quanto mais caro se joga, maior o nível dos jogadores, de forma que a atitude citada aqui é em geral desastrosa.

Por último, ganhar 15 mil dólares em um torneio on-line não qualifica o jogador para encarar as feras nos cash games de 1 mil dólares de buy-in. É importante que a subida de nível seja gradual, que se tenha bankroll o suficiente para fazê-la, e que ela só seja feita quando o jogador estiver destruindo há um tempo considerável os adversários em seu nível atual.


publicado em 12 de Agosto de 2011, 05:08
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Guilherme Kalil

É narrador do programa Poker Show na rede BhNews e continua viciado em Coca Zero.


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