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Breaking Bad e o Decálogo Diabólico

Obs: esse texto contém spoilers das temporadas anteriores.

Você me conhece por muitos nomes, mas todos são difamatórios.

Não me imagine como um sujeito de pele vermelha ou escamada, com chifres e cauda pontuda. Imagine minha figura como aquele que você olha no espelho quando acorda do sonho em que você se acredita um bom menino. Não, você não é um bom menino. Estou em você, e pense duas vezes antes de me tirar aí de dentro. Como disse Nietzsche, “cuidado ao exorcizar seus demônios, pois eles podem ser a melhor parte de você”.

Outra difamação consiste em dizer que minha especialidade, o mal, não compensa, é dizer que aqui se faz e aqui se paga. Acontece que os canalhas, criminosos e larápios que são punidos pela lei ou pelo destino não acabam assim por força de alguma regra moral metafísica: são punidos por serem incompetentes. São punidos, em suma, por não obedecerem meus 10 mandamentos.

Sim, também os tenho. E quais são meus dez mandamentos?

Leia com atenção, pode ser a diferença entre uma vida medíocre ou a realização de todo seu potencial como ser humano.

I – Verás Breaking Bad

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É bom sempre se manter atualizado em relação a meus mandamentos, pois mudam com frequência, adaptando-se à evolução (e, vocês sabem, essa história de evolucionismo é coisa do capeta). Não espere um conjunto de regras rígidas e milenares. Ao contrário de outros mandamentos por aí, os meus são sempre antenados no que está acontecendo atualmente.

Por isso, meu primeiro mandamento atual é: veja Breaking Bad.

Breaking Bad é a mais criativa e engenhosa série americana produzida até hoje, e se você discorda, sua opinião não importa. Simples assim. Breaking Bad não é apenas uma série, mas um longo ensinamento sobre o que se deve ou não fazer para conseguir aquilo que se quer da vida, segundo o meu manual.

Na série, temos Walter White (“branco”, símbolo da inocência), um sujeito que é bom pai de família, humilde professor secundário e respeitável cidadão. E sua recompensa por tudo isso é um grande escarro do destino na sua cara -- o que não me surpreende, já que o “lá de cima” tem um senso de humor estranho. Walter White é tão correto que apenas cede à tentação de se desviar do caminho do bem quando a sobrevivência futura de seus familiares é colocada em risco.

E ele toma essa decisão crente de que, quando quiser, poderá retornar à sua vida de bom moço. Mas o problema é que ele desconhece que basta um pequeno pecado original para que o pecador seja expulso do Éden para sempre.

Em Eichmann em Jerusalém, livro que conta o julgamento de um grande criminoso nazista por um tribunal judeu, Hannah Arednt tenta investigar “quanto tempo leva uma pessoa mediana para superar sua repugnância inata pelo crime, e o que exatamente acontece com essa pessoa quando chega a esse ponto”.

Pois bem, Breaking Bad é minha resposta a essa investigação.

II – Fugirás de toda pureza

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Em Breaking Bad, você não torce para os puros, para aqueles que buscam fazer o que é correto e bom em suas vidas. O protagonista produz metanfetamina, com a qual alimenta o vício autodestrutivo de seus clientes. Você não se dá totalmente conta disso, mas, durante a série, acaba torcendo por um sujeito cuja atividade é produzir uma substância que leva jovens à morte por overdose, que destrói famílias e que deixa crianças orfãs, quando não mortas após se envolverem com o tráfico nas ruas.

Os personagens mais interessantes são os mais sujos. E não demora muito para você começar a simpatizar com um advogado corrupto que lava dinheiro de criminosos, um assassino profissional que ama sua netinha e um jovem traficante, que entra em um grupo dos Narcóticos Anônimos para conseguir mais clientes.

A cena mais reveladora é quando conhecemos os pais de Jesse Pinkman e seu irmão. São pais obsessivamente preocupados com a retidão e a pureza do filho mais novo, que não suporta a pressão e começa a fumar maconha ainda quando criança. É quando nos perguntamos até que ponto essa mesma postura dos pais em relação a Jesse não o levou a tornar-se uma ovelha negra.

Por isso, quando alguém propagandear alguma pureza de princípios e ideais, sempre que alguém afirmar que não se vende, desconfie. Pois a verdade é que a pureza é a perversão da inocência, e o vício moderado é preferível à virtude exagerada.

Como nos ensina o Michel Tournier, mesmo a água totalmente pura não existe na natureza, pois sempre possui bactérias e sais minerais. Aliás, a água pura é venenosa para os organismos vivos.

III – Destruirás a inocência

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Se a pureza é uma deturpação maligna da inocência, a inocência é apenas o estágio inicial de um ser humano, cujo crescimento e desenvolvimento depende da perda dessa inocência para a aquisição de maturidade.

Em Breaking Bad, Walter White aproveita a inocência de seu filho, que criou um site destinado a angariar fundos para o combate ao câncer, e utiliza-a como fachada para a lavagem do dinheiro obtido com a produção de drogas. O poderoso Gustavo Fring usa a ingenuidade da comunidade local para passar-se por filantropo e construir um perfil acima de qualquer suspeita. Walter White perde sua suposta inocência repetidas vezes e chega a envenenar uma criança para manipular Jesse Pinkman.

Por isso, não se iluda. Para crescer, você tem que sujar suas mãos, você tem que ser impuro, você tem que perder sua inocência e aprender a usar as melhores expectativas dos inocentes.

IV – Furtarás as ovelhas

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Quando somos expulsos do paraíso das ovelhas e passamos a viver no mundo dos lobos, percebemos o quanto tempo perdemos do lado dos puros. Quando Walter White compreende que vai morrer em breve, percebe que ninguém lhe recompensará por ter sido justo e honesto toda a vida (pior, seus filhos ficarão desprotegidos), e que a verdadeira retribuição de quem fica esperando alguma recompensa por boa conduta é ser atropelado pela fatalidade.

Walter White aprende que, se você deseja algo, não pode ficar esperando alguma retribuição dos Céus: vá e pegue o que quiser. É assim que ele rouba um insumo necessário à produção de metanfetamina com a mesma facilidade com que sua cunhada rouba sapatos e jóias como passa-tempo.

Nietzsche, aquele bigodudo que disse preferir ser lembrado como sátiro do que como santo, ensinou a vocês que há duas morais; a moral das ovelhas e a moral dos lobos. As ovelhas acreditam em alguma forma de pensamento mágico, no qual ou suas boas ações se justificam por si mesmas ou serão recompensadas em outra vida.

Os lobos compreendem que o mais perto que alguém pode chegar de algo semelhante ao paraíso é se comprar ilha particular no pacífico -- ou ser o Luciano Huck (e torcer para a opinião pública não lhe forçar a vender sua casa em Angra dos Reis!).

Os lobos compreendem a grande verdade que há na frase de Albert Camus, de que “só se é livre às custas de alguém”, e ficam satisfeitos com o fato de que as ovelhas acreditem piamente na moral das ovelhas, pois isso afasta a concorrência de novos lobos e mantém o rebanho reunido e pronto para o abate. Todo lobo, na verdade, sabe que há grande vantagem em usar pele de cordeiro.

V – Serás eficiente e discreto na maldade

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Muitos imaginam que se sujar e viver sob a moral dos lobos exige cara de mau, urros guturais, gestos de machão e ameaças grandiloquentes. Pura bravata. Breaking Bad está cheio de exemplos de pretensos malvados e gangsteres fodões que acordaram com a boca cheia de formiga, como Tuco Salamanca e os Gêmeos.

Quem ensina Walter White como ser realmente mau é um mestre no assunto, que oculta seus negócios ilícitos sob uma fachada de negociante pacato. Ser “mau” é ser impiedoso em suas decisões, econômico em seus gestos, discreto em sua aparência e eficiente em suas táticas: é abdicar totalmente da vaidade que faz fanfarrões ostentarem sua suposta perversidade.

E o exemplo disso é Jesse Pinkman: como todo garoto maconheiro que jogou demais GTA e gosta de Gagsta Rap, o que lhe atrai não é tanto a maldade como os adereços de maldade. Ele gosta de pensar em si mesmo como um sujeito esperto e fodão, mas acumula desatino atrás de desatino e só é salvo de si mesmo em várias situações graças à intervenção de Walter White. Já Gustavo Fring não possui vaidade, pois a vaidade é inimiga da clareza e da eficiência: ele assume uma aparência de cidadão comum e sem graça, dirige um carro popular e ultrapassado, trabalha em um escritório modesto e sem decoração. É praticamente impossível adivinhar que se trata de um assassino frio e um dos maiores traficantes dos Estados Unidos.

Use o menosprezo equivocado de alguém por você como escudo e disfarce, não ceda a tentação de, por vaidade, desfazer a impressão. Esse foi o grande erro de Walter quando, ofendido pela opinião externada por Hank de que Gale Boetticher seria Heinsenberg, incutiu em sua cabeça que Heisemberg ainda estaria vivo.

VI – Cederás a toda tentação

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O único pecado da minha cartilha é o da omissão. É não deixar de fazer alguma coisa que quer fazer. Walter White poderia ter largado sua carreira de criminoso quando todas as desculpas formais para produzir metanfetamina já não existiam mais. Porém, prosseguiu por uma única razão: era a única forma que lhe restou para expressar seu talento e sua vocação. Walter White também não tinha razão alguma para matar Mike Ehrmantraut, exceto o desejo de desforra.

Como o psicanalista Contardo Caligaris afirmou, a culpa que os seres humanos sentem por satisfazer um desejo antiético ou imoral é resolvida em uma ou duas sessões de terapia, mas a culpa que alguém sente por recusar-se a satisfazer um desejo antiético ou imoral só é resolvida após décadas de terapia.

A mente humana é naturalmente pagã, naturalmente imoral: a moralidade é sempre um fardo tortuoso para o animal que vocês realmente são, os conceitos de certo e errado são sempre uma jaula apertada demais para seu espírito.

VII – Não terás amigos

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Em Breaking Bad, Jesse Pinkman tentou usar amigos para distribuir metanfetamina, o que se revelou sempre um desastre. Ainda quando jovem, Walter era amigo dos colegas com os quais criou a substância que revolucionou a indústria química, e eles o traíram duplamente.

Além disso, a maioria das encrencas de Walter White na série tem origem em Jesse, pois insistia em tratar o rapaz como um irmão mais novo ou filho que devia ser protegido. Essa postura paternal, curiosamente, deixava Jesse cada vez mais hostil. A verdade é que os seres humanos, no fundo do seu inconsciente e por mais que recusem a admitir, detestam ser ajudadas e receber favores. Como dizia Tacitus há dois mil anos atrás: “os homens estão mais prontos para retribuir uma injúria do que um favor, pois a gratidão é um fardo e a vingança um prazer”.

E Voltaire dizia rezar dessa maneira: “senhor, proteja-me dos meus amigos, pois dos meus inimigos posso me encarregar”. Reconheça que seus sentimentos de confiança cegam você para os defeitos de seus amigos e o tornam mole quando eles vacilam. A regra de ouro é não ter amigos – mas, se os tiver, jamais negocie com eles ou os inclua em algum empreendimento. Prefira negociar com inimigos, como Gustavo Fring fez a vida inteira: você não espera nada de bom deles, então estará sempre alerta para qualquer traição e também não pestanejará quando tiver de puni-los.

VIII – Amarás teu talento acima de todas as coisas

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Sinto muito informar: Deus não escreve por linhas tortas. Há linhas tortas e ponto final. Se você quiser ver algo escrito, terá de fazer por si mesmo e precisará escrever errado, a fim de acompanhar a tortuosidade das linhas do destino.

Walter White começa a trilhar o caminho dos lobos usando desculpas como assegurar a vida de seus filhos ou afastar ameaças à sua família. Mas logo se nota que o verdadeiro motivo para ser um traficante é que, dessa forma, pode dar expressão a seu grande talento e vocação para a química.

Sua recompensa por ter sido sempre um cidadão justo e correto foi uma vida medíocre, e a única brecha que encontrou para realizar-se profissionalmente foi através da produção de uma droga pesada.

Jamais esqueça a razão pela qual você escolheu seguir o meu caminho. Lembre-se de que você não escolheu a vida de predador por dinheiro, poder ou status: você faz o que faz porque a única forma de você se realizar totalmente enquanto ser humano é através daquelas frases erradas que precisa escrever nas linhas tortas do destino.

IX – Levantarás falso testemunho

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Nisso Saul Goodman é meu melhor aluno: aprenda a mentir até mesmo para sua sombra. Sempre que Walter White tentou falar a verdade, sua sinceridade só lhe trouxe problemas, como a separação de sua esposa e as desconfianças de Jesse Pinkman sobre suas verdadeiras motivações.

Se você quer seguir meus mandamentos, terá de perceber que as outras pessoas não enxergam quem você realmente é, e também são incapazes de escutar o que você realmente quer lhes dizer. Conheço sua raça há milênios e garanto: cada um de vocês está mergulhado em um sonho semidesperto e que contamina sua percepção da realidade e sua verdadeira comunicação com os outros.

É um sonho no qual vocês confundem a realidade e as outras pessoas com aquilo que vocês gostariam que as coisas fossem, com seus medos, ansiedades, desejos e paixões.

Por essa razão, trate de acordar do seu sonho e reconheça a realidade como ela é: hostil; e reconheça os outros como são: sonâmbulos. Desista de ser reconhecido pelas pessoas tal como você realmente é, desista de tentar se comunicar com elas: tudo o que você pode fazer é manipulá-las utilizando elementos dos sonhos em que elas estão mergulhadas. Alguns chamam isso de mentir – no meu dicionário, chamo de ser prático.

É assim que Walter White engana sua família quando precisa se ausentar para preparar metanfetamina: ora é o enterro de um parente, ora é um colapso nervoso que o fez ter amnésia. É assim que Walter explica à sociedade sua riqueza: ganhou dinheiro jogando cartas. É assim que Gustavo Fring manipula toda uma cidade, ostentando uma vida de pacato e bem-sucedido empresário.

E Walter apenas conseguiu a colaboração de Jesse contra Gustavo Fring quando desistiu de convencê-lo da verdade através de argumentos e resolveu manipulá-lo.

X – Matarás

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Se Gustavo Fring houvesse eliminado Hector Salamanca rapidamente, assim que o tinha nas mãos, ao invés de tortura-lo movido por ressentimentos e por vingança, não haveria um ponto fraco para Walter White explorar e preparar uma armadilha. Se Walter houvesse eliminado Jesse Pinkman assim que se tornou dispensável, teria se livrado de diversos problemas no futuro.

Um bom criminoso precisa aprender a ser eficiente e rápido quando se trata de lidar com um obstáculo ou aliado que já pode descartar: a lógica exige que o descarte imediatamente. Walter percebeu isso quando notou que seria necessário matar o antigo auxiliar de laboratório, Gale, por esse deter o conhecimento técnico que o tornava dispensável a Gustavo.

E Gustavo Fring, por seu turno, percebeu que deveria eliminar Victor quando soube por Hank que testemunhas haviam visto esse no local do assassinato de Gale. A lógica de Breaking Bad é inescapável. Aprenda essa lição ou aceite as consequências.

"Todas as coisas ruins chegam a um final". Assim como as coisas boas, meninos. Não caiam nessa.
"Todas as coisas ruins chegam a um final". Assim como as coisas boas, meninos. Não caiam nessa.

Esses são meus mandamentos. Siga-os com atenção, mas esteja atento à qualquer posterior atualização.

Se tiver alguma dúvida, leitor, por favor não me procure, pois já expliquei até demais. Você pode, porém, me procurar caso queira pactuar um contrato comigo – só não esqueça de trazer uma caneta tinteiro e uma lâmina para obter a tinta necessária. Nessa hipótese, procure meu advogado: você pode entrar em contato com ele clicando aqui.

Você sabe: better call saul!


publicado em 12 de Agosto de 2013, 07:57
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Victor Lisboa

Não escrevo por achar que tenho talento, sequer para dizer algo importante, e sim por autocomplacência e descaramento: de todos os vícios e extravagâncias tolerados socialmente, escrever é o mais inofensivo. Logo, deixe-me abusar, aqui e como editor no site Ano Zero.


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