Caetano além de Caetano: um breve garimpo pelos seus discos iniciais

Da sua estreia ao exílio e depois saudoso retorno, o cantor e compositor tem uma obra que merece ser revisitada sempre

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Caetano Veloso é sem dúvida um dos maiores compositores e artista brasileiro. Os álbuns citados aqui são apenas uma parte do seu vasto repertório, registros esses que se mostram essenciais para compreender um homem que vai muito além da voz mansa e violão.

Vanguardista, produziu músicas que estavam a frente de seu tempo, encarou a ditadura militar e um longo exílio em Londres, nunca deixando de lado suas raízes nordestinas.

Sem mais delongas, vamos garimpar!

Debut

"Eu organizo o movimento, eu oriento o carnaval, eu inauguro o monumento, no planalto central do país".

Lançado em 1967, o album Caetano Veloso abre  com a canção Tropicália, mensagem carregada de versos enfurecidos que viria a ser o hino de uma geração. Letra pra deixar muito punkzinho de butique se remoendo de inveja:

O monumento é bem moderno / Não disse nada do modelo / Do meu terno / Que tudo mais vá pro inferno / Meu bem

Outra faixa que merece destaque é Alegria, Alegria, a quarta track do álbum, recebeu uma versão polêmica e virtuosa no  Terceiro Festival de Música Brasileira.

Acompanhado pela banda argentina Beat Boys, Caetano apresentou sua canção em meio as vaias e estranhamento do público. Naquela noite de 67, Veloso e Gil introduziam aos olhares ariscos o que viria a se tornar um dos mais influentes movimentos culturais brasileiros.

O álbum é composto por doze faixas, e está disponível no Spotify.

Destaque para as brilhantes ilustrações e trabalho tipográfico do designer Rogério Duarte , que expiram os ares psicodélicos da década de 60.

Manifesto

"Tupi, or not tupi that is the question."

Estamos em 1968, ao lado de Gilberto Gil, Os Mutantes, Tom Zé, Gal Costa e Nara Leão, e Veloso lança uma das obras mais impactantes, vanguardistas e pé na porta, soco na cara que o Brasil já vivenciou.

Tropicália ou Panis Et Circenses é o manifesto de uma geração que buscou novas perspectivas para os rumos não só da música, mas da cultura brasileira. Influenciados pelas movimentações literárias (poesia concreta) e cinematográficas (cinema novo, cinema marginal), os tropicalistas misturaram o le big mac com a feijoada e resgataram o antropofagismo de Oswald de Andrade para criar uma nova estética sonora e visual, onde berimbau e guitarra elétrica se mesclam numa porradaria só.

As contribuições de Veloso no disco são ilustres, entre as mais expressivas está Coração Materno, originalmente de Vicente Celestino: Chega à choupana o campônio / Encontra a mãezinha ajoelhada a rezar / Rasga-lhe o peito o demônio / Tombando a velhinha aos pés do altar / Tira do peito sangrando / Da velha mãezinha o pobre coração.

E a enérgica faixa título, Panis Et Circenses, música que Caetano ofereceu de bom grado aos Mutantes e que veio a integrar tanto o disco Tropicália quanto o primeiro álbum da banda:

Mandei fazer / De puro aço luminoso um punhal / Para matar o meu amor e matei / Às cinco horas na avenida central / Mas as pessoas na sala de jantar / São ocupadas em nascer e morrer.

O movimento teve grande peso em nossa cultura, e é preocupante que muitos brasileiros não tenham conhecimento desse marco. Apesar de sua curta duração, com auge nos anos de 1967 à 1968, seu impacto foi e ainda é imensurável. Muitos artistas não só do campo da música, mas também design, literatura, moda e fotografia, se apropriam de conceitos e estéticas tropicalistas.  

O álbum possui mais dez faixas pra você devorar. Esqueça o Sgt. Pepper´s, abra o Spotify e conheça mais sobre esse registro psicodélico-antropofágico-tupiniquim!

Exílio

"Mas eu não sou daqui. Marinheiro só. Eu não tenho amor. Eu sou da Bahia. De São Salvador. Eu não vim aqui. Para ser feliz. Cadê meu sol dourado. E cadê as coisas do meu país".

O ano é 1971, Tropicalismo não mais atua como movimento e a ditadura impera num Brasil nem tão distante do que vivemos hoje. Caetano está exilado em Londres e na terra da rainha esculpe o álbum mais triste e denso de sua jornada musical.

London, London é um dolorido registro de um artista escurraçado de seu próprio país, sofrendo o choque cultural e todos sintomas que a saudade e solidão podem causar.

Caetano nunca foi tão brasileiro cantando em língua inglesa, o album possui interpretações maravilhosas, além de mostrar muitas das qualidades que viriam a integrar seu sucessor no ano seguinte.

Destaque para as faixas London, London, If You Hold a Stone e a bucólica interpretação de Asa Branca, respectivamente listadas.

Magnum Opus

"Eu agradeço ao povo brasileiro. Norte, centro, sul inteiro. Onde reinou o baião."

Em 1972 sai pela Polygram um dos álbuns mais importantes da música tupiniquim, no qual Caetano  converte todas as suas mágoas, raivas e saudades em uma obra prima.

Miscigenando folk, raggae e ritmos regionais brasileiros,  Transa é uma jornada selvagem, experiência essa que o próprio artista chamou de ''trabalho orgânico, espontâneo, e meu primeiro disco de grupo, gravado quase como um show ao vivo''.

O álbum integrou o décimo lugar na lista dos 100 Maiores Discos da Música Brasileira  e é considerado por muitos entendidos (e desentendidos) como um dos mais poderosos registros do baiano.

Destaque para as faixas: You Don't Know Me, Nine Out Ten e Mora na Filosofia, nessa ordem dispostos aqui.

Pós Exílio

" Com fé em Deus. Eu não vou morrer tão cedo. Araçá Azul é brinquedo’’

Ainda em 1972, Caetano volta definitivamente ao Brasil com propostas vigorosas e experimentais. Complexo e incompreendido, Araçá Azul (1973) é uma incógnita. Hoje considerado cult, causou grande indignação e reprovação por parte do público, que ansiava um sucessor a altura de Transa. O disco foi um verdadeiro recorde de devoluções devido a sua sonoridade concretista e repleta de elementos e ruídos  abstratos.

Fugindo de qualquer padrão estético e sonoro, o álbum vale pela experiência do trabalho artístico de Caetano após as fases conturbadas em Londres.

Destaque para as faixas Araçá Azul e Sugar Cane Fields Forever.

Fade Out

Recentemente Caetano finalizou a turnê  Dois amigos, Um Século de Música na qual ele e Gilberto Gil comemoraram os 50 anos de carreira com um setlist intimista e recheado de boas canções, algumas citadas aqui.  

Para encerrar o garimpo deixo pra vocês um registro com a participação do artista no Isle of  Weight – uma espécie de Woodstock europeu. As imagens foram captadas pelo documentarista Murray Learner e exibe um Caetano e Gil totalmente imersos na atmosfera peace and love que contagiava a juventude nos anos 70.   

 


publicado em 25 de Maio de 2016, 10:41
Perfil pdh

Cláudio Vinícius Ramos

Futuro jornalista, fixurado em música nacional, literatura e cinema. Escritor de poesias e listas de supermercado nas horas vagas. Também estou no Facebook .


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