Como funciona o sexo na velhice? | #ID 41

O psicólogo Frederico Mattos responde a um jovem que tem medo de envelhecer e perder a sua vida sexual

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"Fred,
Meu nome é J. e sou uma pessoa que encara o sexo de forma bastante natural (ou pelo menos eu acho). Não tenho nenhum tipo de problema de ereção, ejaculação precoce ou tensões muito grandes, exceto aquelas que acabam surgindo no decorrer de cada relacionamento e são comuns a todas as pessoas.
Mas uma coisa me tira o sono: o que vai acontecer quando eu envelhecer?
Acho que tenho bastante medo de me tornar um velho e não conseguir ter ereções, meter e satisfazer uma mulher (ou mesmo me satisfazer) sexualmente. Fico apavorado de imaginar meu corpo feio, incapaz de gerar desejo, de não ser visto como alguém pronto para transar.
Sei que existe viagra e outros medicamentos que podem gerar ereções e facilitar a hora do sexo, mas tenho medo de ser ridículo tomando esse tipo de pílula - que de certa forma deixa a coisa pouco natural - não poder mais aproveitar o calor do momento e do tesão.
Imagino que você atenda pessoas de diferentes idades e gostaria muito de ter esse meu pânico de envelhecer e perder o sexo na minha vida esclarecido.
Como funciona o sexo na velhice?
Abraços,"

Caro J.

Durante alguns anos, trabalhei num grupo de terceira idade e foi uma das experiências mais incríveis que eu tive. Mudei muito minha concepção sobre essa fase da vida que é envolvida em crenças que supõem que as pessoas mais velhas tem uma vida emocional e sexual pouco interessante.

Esquecemos que as pessoas mais velhas têm nuances. Em geral, achamos que a velhice nivela todo mundo, bastou branquear o cabelo e todos viram anjos.

Existem velho(a)s diabólicos, ruins como qualquer jovem e com o agravante que estão fantasiados de velhice. Lembro de um senhor que estava em recuperação de uma cirurgia, com uma bolsa de coloscopia (recipiente das fezes) e ele, por raiva, arrancava a bolsa e se fingia de senil. Resultado, bosta para todo lado. Ele me confessou que se divertia ao causar brigas e ver o genro limpando o sofá todo.

Pessoas velhas, portanto, carregam os traços de personalidade que tinham na juventude. A única diferença é que alguns velhos são mais invisíveis e outros mais dominadores dependendo de dois fatores: dinheiro e carisma.

Pessoas velhas sem carisma e/ou dinheiro tendem a ser tratadas de uma maneira menos atenciosa pelas filhos e netos. Portanto, J., se você é uma pessoa que não vive para garantir boas condições para si mesmo, seja do ponto de vista emocional ou financeiro, isso deveria estar nos seus planos.

Mas por que estou falando disso? Porque isso vai afetar diretamente no seu senso de importância como pessoa e, consequentemente, na sua libido. 

Idosos que são socialmente valorizados têm chances maiores de garantir um apetite sexual de maior qualidade e durabilidade.

Há que lembrar de algo simples: a velhice de hoje é diferente da velhice de amanhã. Cada geração terá uma concepção própria conforme o que cultivou ao longo da vida. Se temos uma geração de jovens pouco familiarizados com frustração, é bem possível que o mesmo se aplique quando o tempo passar e eles envelhecerem.

O mito da decadência senil

Segundo Erik Erikson, o idoso enfrenta o dilema entre integridade e desespero. 

Se construiu valores pessoais que se apoiam em riqueza interna, ele olhará para sua vida com satisfação e estará menos propenso a falar "no meu tempo…", como se já estivesse morto. 

Mas se apoiou sua vitalidade em torno da beleza, da juventude, do constrangimento psicológico, no prestigio profissional, então é possível que as pessoas o ignorem ou sejam falsamente simpáticas. 

Isso desemboca no desespero existencial de quem gastou energia em ser um profissional sênior, mas não uma pessoa sênior.

Ainda que o dinheiro garanta que você será bem tratado e receberá belos presentes de aniversário ou ajuda para a reforma da casa, seus contatos serão superficiais, caso você não dedique cuidado e esforço às suas relações.

Suas relações na velhice terão as qualidades que você cultivar ao longo da vida.

O mito do Viagra perpétuo

O que seu pinto depende para ficar ereto é o conjunto testosterona + vigor geral + boas condições cardíacas. 

Na velhice, a testosterona tem um decréscimo, é fato, mas há formas de recompor esse hormônio. 

O vigor geral e um bom sistema cardio-respiratório, no entanto, dependerá do que você faz exatamente hoje. Sua comida, seu sono, seus vícios, influenciarão muito mais sua libido do que pensa. A bisteca que você come sem pensar no amanhã combinada com uma vida de porres pode detonar uma bomba em você.

É fato, muitos idosos recorrem ao viagra, mas eles, como qualquer jovem, também são apanhados pelo temor da broxada. Nem todos ficam impotentes como se imagina, mas a maioria se autoriza emocionalmente a falhar com o pressuposto da velhice. 

Teremos autorização moral para broxar, há quem vá aproveitar a há quem não vai. Mais uma vez, tudo dependerá da personalidade da pessoa.

Quem for rígido, provavelmente terá mais problemas com o viagra, afinal, não será possível deixar o sabor do momento evocar o desejo. O viagra precisa de certa previsibilidade para ser usado com eficácia. 

Tomar o viagra minutos antes não deixará as coisas mais divertidas, não é como uma camisinha, que basta abrir. Se a pessoa perde o humor porque não consegue ser espontânea, provavelmente vai ficar irritada em ter que marcar um horário para transar ou pelo menos abrir um espaço para contratempos. 

Nessa fase, portanto, a última coisa que pensará é em se sentir ridículo, a menos que siga pensando como um Peter Pan. Se conseguir criar uma sincronia sexual já será ótimo.

O mito da ausência de sexo

Nem todo casal faz muito sexo em todas idades, portanto, existem casais e casais de idosos. A nossa geração tem um ponto que causará mais problemas do que a geração antiga, não nos preparamos para amar ou desejar um corpo enrugado. 

Até uma certa idade é ainda possível simular jovialidade, mas certas áreas do corpo são bombardeadas pela falta de colágeno, irão despencar.

É possível que existirão poucos casais de velhos legitimamente casados há décadas como fantasia a nossa geração e é mais provável que vários casamentos com pessoas de idades diferentes aconteçam. 

Os homens de imaginação mais pobre precisarão de corpos femininos mais jovens, pois estarão condicionados com uma autoimagem que não fez update no sistema. Para aqueles que conseguirem desejar o enrugado haverá alegria em qualquer idade.

Os casais hiperssexuais seguirão com uma frequência, os menos sexuais poderão rarear e até extinguir a vida sexual, mas também descobrirão no companheirismo outra fonte de expressão.

A libido não é um componente meramente químico, então dependerá de vários fatores se manter ou defasar. A totalidade dos homens depende essencialmente da validação vaginal da mulher para seguir numa boa performance, em resumo, saber que ela está molhada.

A geração passada, machista em sua totalidade não se importava com esses detalhes, e a obrigação da mulher era fazer sexo e ponto. 

A geração atual é mais exigente e terá uma velhice com as mesmas expectativas, muitas vezes irreais. 

Todos precisarão encontrar os seus espaços de prazer dentro de uma nova realidade.

Convocar uma vagina a se derreter em suas mãos exigirá dos velhos dessa geração muito mais desenvoltura pessoal e, nem sempre, esse regulador existirá. Muitas mulheres diminuem a lubrificação vaginal por causa da menopausa. Será no espírito de parceria, confiança mútua e alegria sexual que a validação acontecerá. O desafio será maior.

Se um idoso tem mais dores no corpo, menos fôlego, saúde abalada (diabetes é um dos maiores inimigos do sexo, pois causa perda de circulação nas extremidades/pinto) certas posições serão impossíveis de se realizar. 

O sexo na terceira idade respeita outros ritmos, mas safadeza é um estado de espírito e rompe fronteiras. Sua avó faz sexo oral gostoso no seu vô e ela adora. Não se engane que isso não existe.

O maior preventivo, J., será manter uma mente e um corpo equilibrados para reconquistar sua companheira numa fase onde os truques baratos nem sempre funcionarão.

E reforço: o sexo (em qualquer idade) começa muito antes da cama e termina muito tempo depois.

* * *

Nota: A coluna ID não é terapia (que deve ser buscada em situações mais delicadas), mas um apoio, um incentivo, um caminho, uma provocação, um aconselhamento, uma proposta. Não espere precisão cirúrgica e não me condene por generalizações. Sua vida não pode ser resumida em algumas linhas, e minha resposta não abrangerá tudo.

A ideia é que possamos nos comunicar a partir de uma dimensão livre, de ferocidade saudável. Não enrole ou justifique desnecessariamente, apenas relate sua questão da forma mais honesta possível.

Antes de enviar sua pergunta olhe as outras respostas da coluna ID e veja se sua questão é parecida com a de outra pessoa e se mesmo assim achar que ela beneficiará outras pessoas envie para id@papodehomem.com.br.


publicado em 12 de Março de 2015, 19:53
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Frederico Mattos

Sonhador, psicólogo provocador, autor dos livros "Relacionamento para Leigos" e "Como se libertar do ex". Adora contar e ouvir histórias de vida. Nas demais horas cultiva a felicidade, lava pratos, oferece treinamentos online em A Mente Humana e escreve no blog Sobre a vida.


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