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Como matei meu pai cozinhando

Já li em muitos lugares e já conversamos na Cabana sobre "matar pai e mãe" e sobre como isso pode ser decisivo na boa relação com os nossos velhos.

Como a maior parte dos homens, em algum momento tive desavenças com meu pai. Discutimos e ficamos estranhos um para o outro durante algum tempo. Foi nessa fase que me senti meio revoltado, meio perdido, fugindo a todo custo de um modelo que achei que só existia para ser seguido.

Link YouTube | A relacão nada delicada entre pai e filho

Essa fase durou algum tempo. Na época eu tinha uns 23, 24 anos.

Hoje, com 29, quase 30, entendo um pouco melhor o que foram os erros do meu pai e o que não foram. E há coisas que não importam. E há coisas que foram problemas meus, do meu olhar.

A cozinha só entra para coroar um período de muitas mudanças.

Em algum momento, meu pai, que bebia e fumava, resolveu parar com os exageros. Recomendações medicas e a preocupação crescente da família foram determinantes. Primeiro ele parou de fumar. Um ano depois, de exagerar na bebida. Ao mesmo tempo, começou a fazer natação (meu pai sempre foi gordo, trabalhando muito e estressado à beça).

Uns três anos depois de parar de fumar resolveu fazer um curso de vinhos e se animou a fazer aulas de culinária com um amigo na casa de outro amigo. Nessa fase, meu relacionamento com meu pai era burocrático. Quando precisávamos de alguma coisa, nos falávamos. Geralmente o assunto era dinheiro ou trabalho. No entanto, convivíamos pelo menos duas vezes por semana.

Animado com as novas habilidades culinárias, meu pai passou a preparar um jantar, toda segunda-feira (véspera do dia da faxina). Após o trabalho, eu e minha esposa íamos na casa do meu pai e jantávamos com ele e minha mãe. Foi assim que vimos que cozinhar tem algo de maravilhoso.

Para ser um bom chef (coisa que não somos, falta muito!), os comensais têm que gostar da comida, só. Para isso não importa se eles são agradáveis, se concordam com você, se estão brigados ou se te entendem. É só a comida e o paladar de cada um.

Ao nos reunirmos toda segunda, precisamos superar algumas diferenças. Como um bom desastrado, ele precisava de ajuda em quase todas as receitas. O maestro era ele, mas eu ia picar, refogar, descascar e ajudar no que podia. Como tínhamos habilidade em falar de assuntos práticos, falávamos de coisas práticas. Reclamávamos das facas da minha mãe (na semana seguinte, meu pai comprava novas facas); eu implicava com os potes de plástico (meu pai comprava novos potes); ele xingava a frigideira (e novamente, adivinhem, comprava umas 3 novas).

Era assim que interagíamos. Eu chegava e queria saber como podia ser útil. Como nao sabia cozinhar, fazia o que ele mandava e assim, pude voltar à uma posição que não imaginei que assumiria, a de aprendiz.

Ao mesmo tempo, eu opinava. Afinal, nem sempre o resultado era como esperado. Sugeríamos novos ingredientes, novos preparos...

Aos poucos nos percebemos numa dinâmica nova. Ele me mostrava novos utensílios e novas receitas que estava disposto a experimentar. E eu me mostrava mais aberto e mais à vontade em criar um novo relacionamento. Meu pai era outro homem ali. Mais calmo, mais interessado, com brilho no olho. Eu também podia ser outro homem, menos rancoroso, mais humilde, mais interessado e mais presente.

Criar oportunidades de dizer na cara do meu pai que ele errou e que a carne passou do ponto foi um passo gigante em nossa relação, por mais simples que possa parecer. Ver a sensibilidade no meu pai, em perceber a diferença entre grelhar e fritar, entre cozinhar e assar, entre aipo e alho poró, foi ver uma grande mudança. Uma mudança grande mesmo!

Meses se passaram e cada vez que nos encontrávamos já não tínhamos mais só trabalho e dinheiro para falar. Podíamos falar de cozinha! Se almoçávamos fora, pensávamos em novas ideias para experimentar ou trocávamos e-mails sobre novos utensílios para a cozinha (ele até conseguira uma gaveta exclusiva na cozinha da minha mãe).

Com a cozinha vieram as conversas sobre vinho.

Com as conversas, ampliamos os assuntos.

Link YouTube | As coisas mudam de hora pra outra

Sentados à mesa ou de pé, na frente do fogão, fomos nos sentindo à vontade para conversar sobre amenidades, sobre nossos dias e sobre qualquer outra novidade que as mulheres contassem.

Foi à mesa que falamos de problemas de saúde com minha mãe;

Foi à mesa que falamos de como o humor estressado do meu pai lhe faria mal e de como ele precisava mudar;

Foi à mesa que pudemos perceber como minhas mudanças de humor, de visão e de postura me fizeram avançar;

Foi comendo também que bolamos viagens maravilhosas;

Foi legal ver que mesmo nos dias em que estávamos mais cansados e estressados e só fazíamos um misto-quente, a dinâmica era a mesma.

Pouco a pouco, nesses mais de 100 jantares, eu matei meu pai.

Ele deu lugar a esse outro cara, um amigo com quem cozinho às segundas-feiras, em quem dou bronca quando não quer fazer um exame, que exagera na pimenta e às vezes no vinho. Não preciso ter orgulho dele. Nem ele de mim. O barato é ter orgulho da comida que fazemos e daquelas 4 horas divertidas que temos. Só se precisa disso, afinal.

Foi ao trazê-lo para a mesma condição dos meus amigos do peito, que passei a aproveitar o melhor que meu pai tem a oferecer e pude oferecer mais a ele.

E isso aconteceu na cozinha, onde fizemos e erramos um bocado.

Fizemos e comemos esse pratos e mais tantos outros. Sempre que pudemos e a fome permitiu, produzimos um prato e fotografamos.

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  • Costela suína com batatas e alho (mas foi daquelas prontas, fazer o quê?)

  • Salada nicoise (com a nora esfregando alho na vasilha com as unhas recém feitas...)

  • Batatas ao murro (com murro tão forte que jogou batata no teto)

  • Cherne assado sobre batatas com perfume de ervas

  • Risoto de camarão

  • Risoto de alho poró (quando descobrimos esse ingrediente que hoje adoramos)

  • Fritatta Caprese

  • Risoto de alho poró e linguiça toscana

  • Pomme paillasson (com convidados que esperaram 1h30 além do previsto)

  • Salmão ao molho de maracujá, geléia de laranja e mostarda dijon e ervas.

  • Linguado ao forno com maionese e palmito

  • Rosbife em crosta de especiarias (aquele cheio de anis estrelado, que nem conhecíamos e ficou forte demais).

  • Borboletinhas com salada de vegetais grelhados

  • Filet mignon folhado (apelido CSI, pois parecia um cadáver aberto)

  • Filet com geléia de laranja e queijo brie

  • Filet mignon kobe style (meu pai fez um filé mignon ficar duro como pedra!)

  • Quadradinhos de tapioca com coalho

  • Trufão (quando minha mulher destruiu uma colher de pau no liquidificador e perdemos uma receita inteira)

  • Hambúrguer de picanha (que assustou o açougueiro que moeu uma peça de picanha)

  • Feijão tropeiro (que rendeu um fogareiro industrial, uma panela de 60cm e muitos convites dominicais de trabalho)

  • Bife à parmegiana de forno

  • Purê de 3 batatas com alho poró

  • Cestinha de parmesão (com massa) (que minha mulher descobriu o macete para enformar o queijo num pote de vidro)

  • Moqueca capixaba (o grande orgulho)

  • Filet em cama de caracol de batatas fritas (levou séculos para cortar as batatas em filetes finos, espiralados e depois fritar)

  • Fetuccine ao pesto (o molho preferido da nora)

  • Medalhão com arroz a piamontese

  • Paillard (um filet mignon esmurrado até ficar fino como uma panqueca) com fetuccine

  • Camarão frito com coentro

  • Risone de bacalhau (outra descoberta, essa massa que parece um arroz)

  • Macarrão com brócolis, alho e parmesão, feito no forno.

  • Bruschettas (outro coringa dos dias sem paciência)

  • Piadina (um pão feito na frigideira)

  • Salmão grelhado com arroz de amêndoas

  • Steak au poivre com arroz à piamontese (prato que minha mãe considera inigualável. Se bem que é ela quem faz o arroz...)

Hoje, só há trocas.

Quer colocar isso em prática?

Para quem está cansado de apenas ler, entender e compartilhar sabedorias que não sabemos como praticar, criamos o lugar: um espaço online para pessoas dispostas a fazer o trabalho (diário, paciente e às vezes sujo) da transformação.

veja como entrar e participar →


publicado em 19 de Junho de 2012, 12:04
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Vítor Barreto

Editor da Lúcida Letra/2AB Editora, mora em Teresópolis, participa d'O Lugar e se interessa por meditação, comunicação não-violenta e como as pessoas podem se ajudar a viver melhor. No instagram: @vitbarreto.


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