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Como me tornei o editor da pior revista do mundo

Quando o pessoal do Papo de Homem me pediu para escrever um texto sobre minha experiência como editor da MAD, fiquei ofendido. Por acaso, vocês já pediram para um pasteleiro fazer uma resenha de seu próprio pastel? Como a grana que eles me pagam é altíssima (cerca de R$ 0,05 por lauda, quase 10 vezes mais do que ganho na MAD), decidi escrever qualquer coisa e mandar – afinal, eles nunca lêem nada do que é publicado por aqui.

Claro que não vou subestimar a burrice de vocês... e fingir que todo mundo sabe o que é a MAD!

A MAD é uma revista de humor norte-americana com quase 60 anos de existência e é publicada no Brasil desde 1974. Ela ficou famosa por aqui graças ao trabalho do cartunista Ota, que editou a revista por mais de 30 anos. Dentre suas seções mais famosas estão o humor sem falas de Sergio Aragonés, a insanidade de Spy vs. Spy, as sátiras de filmes e séries e a inesquecível Dobradinha na última página.

Voltando ao que realmente interessa. No caso, eu. Entrei nessa de editor de quadrinhos por mero acaso. Depois de uma fracassada carreira como professor de História e Geografia no ensino público (ser professor exige um grau de insanidade bem maior do que pra editar revistas retardadas e anárquicas), decidi tentar fazer algo que realmente gostasse. E o que mais gosto nessa vida... é ler gibi. Nossa, como isso soou depressivo de repente.

Aproveitei uma oportunidade que surgiu durante uma aula de “Oficina de Leitura Crítica de Histórias em Quadrinhos” do Professor Waldomiro Vergueiro. (Não me perguntem como ele conseguiu vender esse curso pros caras lá da USP.) O editor da Marvel, Fernando Lopes, estava procurando um editor assistente para trabalhar na linha de super-heróis da Panini. Fiz o melhor currículo que minha imaginação poderia criar e mandei pro cara. Fui aprovado!

Imagina a minha alegria, de total desempregado e historiador frustrado, eu seria pago para ler quadrinhos! Meu mundo caiu! Quando entrei na empresa, era tão imaturo que nem sabia fazer café ou mandar um e-mail direito. Felizmente, encontrei um grupo fenomenal na redação a quem praticamente devo tudo o que sei hoje. Bem, não sei muita coisa, mas queria demonstrar alguma gratidão por me tirarem daquelas crianças assustadoras do Ensino Fundamental.

Mas como diabos fui parar na MAD?

Tudo aconteceu por acaso, como sempre! Nunca fui um leitor obcecado da revista, como o Matheus Batima e o Welberson, mas sempre que encontrava uma nas bancas da Zona Leste (raridade total) levava pra casa. Certo dia, o chefão Helcio de Carvalho estava fechando uma edição da MAD Especial e ao passar por perto, percebi que ele ia publicar uma página que havia saído no número anterior. Em toda a minha empolgação, falei na frente de todo mundo que ele tava cometendo aquele pequeno erro (pra não dizer, grande cag$%¨¨&*&).

No dia seguinte, o Helcio me chamou na sala dele e fiquei pensando que finalmente seria mandado embora. Foi aí que o Helcio me disse que, a partir daquele momento, eu seria responsável pela MAD Especial. Lembrando que na época, a MAD era publicada pela Mythos Editora, que faz o trampo de redação da Panini (relaxa, eu mesmo nunca entendi isso).

Dei pulos de alegria, mas depois fiquei sabendo que a revista era uma espécie de purgatório para funcionários que precisavam ser testados. A maioria dos editores que trabalham por lá pegaram a revista por um ou dois meses para terem seu desempenho avaliado no que era considerado o título mais difícil e sacal de todos. Porém, havia algo de errado comigo, eu simplesmente amei fazer aquilo! Aposto que senti a mesma coisa que a Rita Cadilac sentiu ao dançar seminua a primeira vez num presídio... eu havia nascido pra fazer a MAD!

Tanto que quando a MAD foi cancelada para ir pra Panini, fiquei na geladeira da editora por um ano, só editando livros de autoajuda e romances bregas de banca (daí minha insanidade). Só que o melhor estava por vir, fui chamado para editar sozinho o título e teria a grande chance de mostrar meu trabalho. O problema é que, naquele momento, eu não conhecia a revista tão bem assim e nem tinha muito contato com humoristas e cartunistas. Tava altamente ferrado!

Pra evitar o suicídio, fui até o Helcio e disse que seria incapaz de fazer esse trabalho e que poderia dividir o fardo com o Ota. E foi assim até o sétimo número da revista, quando o memorável editor preferiu sair da revista para dar continuidade a seus próprios projetos. Ou seja, eu tava ferrado novamente!

Pedi ajuda para três pessoas, que simplesmente me tiraram da forca: Gualberto Costa, Franco de Rosa e Marcio Baraldi. Sem o auxílio deles, não teria conhecido metade dos cartunistas que trabalham comigo. Por sinal, o Baraldão também é um dos cartunistas mais recorrentes da revista até hoje.

Acabo de completar três anos a frente da revista MAD e percebo que já não sou mais a mesma pessoa (minhas dívidas são muito maiores agora). Praticamente aprendi a ser gente fazendo algo que se tornou vital em minha vida, trabalho fazendo todo mundo dar risada (ou morro tentando). Conheci artistas incríveis que me mostram a cada mês que o Brasil não deve em nada para a versão gringa (se bobear somos bem melhores e mais engraçados, mas não contem isso pra eles).

Essa nova fase da revista tem conquistado leitores de várias idades, apesar de ter muita gente das antigas que odeia até o fato da MAD ser colorida agora. Temos um Twitter (@revistamad) com um grande número de seguidores e de tempos em tempos colocamos alguma babaquice nos trending topics do Brasil.

Consegui trazer grandes nomes do humor nacional para escrever pra ela, como Nizo Neto (Escolinha do Professor Raimundo), Danilo Gentili (CQC) e Fábio Rabin (Comédia MTV e Pânico). Sem falar que somos a última revista em quadrinhos de humor na banca.

Vendo por esse ângulo essa é uma boa hora pra pedir um aumento. Espero que o Helcio esteja lendo esse texto!

Sou uma das poucas pessoas nesse mundo que ganham a vida fazendo o que mais gosta. No entanto, jamais teria chegado até aqui sozinho, por isso, dedico esse texto a todos que me apoiaram, trabalharam comigo e até mesmo me criticaram. Sem vocês, eu provavelmente teria uma carreira de sucesso que me pagaria o dobro do salário, mas não seria tão divertido.

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Ilustrações: Elias Silveira, Raphael Salimena e Alves

 


publicado em 20 de Abril de 2011, 13:35
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Raphael Fernandes

Formado em história na USP, decidiu jogar seu diploma fora trabalhando como editor da revista MAD. Atualmente, também é analista de mídias sociais, roteirista e redator. Perde mais tempo lendo e escrevendo do que contando dinheiro. Twitter: @raphafernandes. Blog: www.contraversao.com.


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