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Como pedir favores sem ser o chato da galera

Pedir é um dos passos mais difíceis na relação entre duas pessoas. Principalmente para gente que, como eu, acha que pode fazer tudo com as próprias mãos.

Segundo o Dicionário Informal, favor é aquilo que se faz de maneira voluntária, sem imposição.

s.m. 1. Aquilo que se faz de maneira voluntária a alguém; sem imposição; gentileza, obséquio.
Pedido de misericórdia atribuído por indulgência; mercê: favor espiritual.
Auxílio oferecido a alguém; proveito: vivia em favor da mãe.
Defesa, proteção: vive dos favores do padrinho.
Encantamento, simpatia, respeito: almejava o favor do gerente.
Graça, obséquio: pedir um favor.
Retribuição dada a alguém por uma relação de preferência ou de influência exercida sobre a pessoa que retribui: nunca se esforçava porque sabia que ele lhe devia um favor; tudo o que conseguiu foi lhe dado de favor.

A maioria de nós falha ao entender como pedir um favor, esquecendo os dois pontos principais da definição pontuada acima.

Logo de início, a definição nos diz que favor é uma ação que fazemos por vontade própria. Este trecho deixa claro que, manipular, criar joguinhos e fazer chantagens para alcançar um possível favor, está longe da proposta.

Em seguida, vem a parte mais importante, não devemos impor um favor. Neste caso, de forma ainda mais séria, observamos que pressionar a pessoa, fazendo ela se encontrar numa sinuca de bico, apenas para conseguir o que queremos, também é algo longe do saudável numa relação.

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O que normalmente vemos é a intenção – muitas vezes - proposital de pressionar, a ponto de ser impossível negar a execução do favor. Aquele que pede o favor, até por desespero, apresenta argumentos cada vez mais afiados, tornando praticamente impossível de se ouvir um não. Quem está recebendo o “pedido” de favor, no fim das contas, termina por ceder sem ter a chance de dizer o que realmente gostaria. Neste tipo de situação não é raro que a pessoa que executou o favor termine no ônus, apenas por ter sido pressionado a “agir”. O resultado desse tipo de situação normalmente é o afastamento de uma das partes.

Quando pedimos algo, é importante que tenhamos compaixão suficiente para ouvir não como resposta. Entender que a outra pessoa tem sim boas intenções e que, se a resposta foi negativa, existe algum motivo maior para isso, que não nos cabe julgar. Com essa postura, assumimos o cuidado para não coagir o outro buscando apenas o interesse próprio. O que é egoísmo, camuflado na necessidade de alcançar algum desfecho.

Peça ajuda, não favores

A postura que assumi para transformar o pedido de um favor em algo mais legítimo, menos egoísta e que traga maiores aprendizados, foi não focar num favor em si, mas num pedido de ajuda mais amplo.

Uma amiga recentemente estava enfrentando enormes problemas e isso acabou prejudicando o pagamento da faculdade. Ela me escreveu um email pedindo uma luz sobre o assunto, apresentando algumas soluções. No relato ela dizia que uma das saídas que evitariam o abandono do curso seria pedir o dinheiro para sua avó, mas que não tinha coragem. Disse para ela não pedir o dinheiro, mas pedir ajuda diretamente. Explicar o que estava acontecendo em detalhes, sem uma agenda oculta de ganhar o dinheiro, apenas compartilhar a aflição que estava sentindo e pedir um conselho sobre como deveria seguir.

Nesse caso, vejam como fica nítida a diferença entre os dois pedidos:

No primeiro temos: “Vó, estou precisando de seis mil reais para pagar minha faculdade se não vou precisar trancar o curso”.

Na segunda, existe um pedido de ajuda, na forma que o socorro queira tomar: “Vó, aconteceram alguns problemas [...], com isso acabei ficando sem o dinheiro para pagar a faculdade. Estas são as opções que encontrei [...], mas nenhuma me parece boa a longo prazo, o que você acha que eu devo fazer? O que faria no meu lugar?”

Na segunda situação, existe a liberdade para escolher ajudar, caso sinta-se confortável para isso, sem pressão, sem ser colocada numa situação onde termina responsável pelo sucesso ou falha do problema.

Existem muitas formas de se resolver um mesmo problema. Ouvir opiniões aumenta o leque de opções, mesmo que essas sugestões sejam mais demoradas e trabalhosas, elas costumam ser mais concretas e definitivas. O fato é que fica bem difícil ver as coisas claramente quando se está dentro do furacão, e a saída pode ser mais simples do que parece.

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Entretanto, é preciso assumir posições claras para que este modelo funcione sem frustrações:

1. Você é responsável – Ninguém além de você é responsável por resolver esta situação. Se a pessoa, independente do motivo, não pode ajudar, cabe a você entender que precisa ter paciência e procurar outra saída. Essa pessoa não é mais ou menos amiga e, mais importante, não é um motivo para negar uma ajuda futura. A relação de vocês deve ser indiferente da disposição em ajuda num momento específico. Pode ser difícil absorver este ponto, mas é muito importante.

2. Ajudas não são recorrentes – Já vi isso acontecer algumas vezes. A pessoa oferece uma ajuda e, antes mesmo que perceba, essa ação se tornou um fardo, uma obrigação. Por ter feito uma vez, o beneficiado considera que o outro lado deverá ajudar novamente, repetidas vezes, se mostrando chateado e aborrecido quando não alcança o resultado esperado.

3. Favores não são trocas – Apesar do termo “troca de favores” ser comumente utilizado, ele na verdade é algo que enfraquece as relações. Se eu levanto algo que fiz, criando um peso extra no favor que estou pedindo, o nome disso é cobrança, e provavelmente afastará a outra pessoa assim que a chantagem terminar.

Existe também um tipo de comportamento que podemos adotar para reduzir ao máximo as chances de ter um pedido de ajuda negado. Assumir como padrão uma postura prestativa e que exercite a compaixão, acaba eliminando o peso de seus pedidos. Não pela questão de acumular favores, mas por transmitir uma energia constante de cooperação, sendo reconhecido como alguém que vale a pena ajudar. Essa não é uma postura que surge da noite para o dia, exigindo vigilância e prática, até que se torne uma forma natural de se relacionar.

É importante lembrar para quem está ajudando que, a expectativa de um retorno vai, muitas das vezes terminar em decepção. Quantas vezes não ouvimos a frase “Fiz tanta coisa para fulano e agora ele não quer retribuir”. Favores, devem ser livres de interesse – a menos que não seja um favor, mas uma clara troca de interesses, neste caso, deixando evidente a contra partida esperada.

Por sua origem léxica, a palavra “Obrigado” implica que o favorecido é obrigado a retribuir o favor no futuro, mas criar estes mecanismos de troca constante não apenas enfraquece, como torna as relações mais fechadas.

Pedir de maneira consciente não garante um maior sucesso em ter o que busca, mas o objetivo não deve ser conseguir tudo a qualquer custo. Tentamos com isso conseguir uma abertura mais honesta para declarar uma necessidade e se mostrar receptivo as oportunidades de ajuda, evitando prejudicar a relação entre as pessoas envolvidas.


publicado em 13 de Outubro de 2014, 16:09
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Alberto Brandão

É analista de sistemas, estudante de física e escritor colunista do Papo de Homem. Escreve sobre tudo o que acha interessante no Mnenyie, e também produz uma newsletter semanal, a Caos (Con)textual, com textos exclusivos e curadoria de conteúdo. Ficaria honrado em ser seu amigo no Facebook e conversar com você por email.


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