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Construindo a paz, um homem de cada vez

Um dos relatos mais sinceros, honestos e emocionantes que já passou pelas traduções do PapodeHomem

Poucas vezes encontramos um artigo para traduzir tão conectado com o que fazemos e pensamos aqui quanto este. Um relato honesto e sincero de alguém com experiência de causa que fala em primeira pessoa como quem passou por isso. E não como alguém que está de fora.

Por esse motivo, não quero me estender muito aqui na abertura para que todos vocês cheguem até o final. Quero apenas contextualizar dizendo que o artigo foi escrito num contexto pré-assinatura do acordo de paz entre o governo colombiano e as FARC. Ainda assim, sugiro uma leitura profunda no cenário colombiano seguida de uma reflexão que trace uma paralelo com nossas próprias realidades.

O artigo é de autoria de Sebastián Molano, autora de uma belíssima e altamente recomendada página no Facebook, foi publicado originalmente em inglês no excelente Words in the Bucket e traduzido para o português por Julia Barreto com exclusividade ao PapodeHomem.

Construindo a paz na Colômbia, um homem de cada vez

Qual é sua primeira memória sobre viver num país em guerra?

Toda vez que eu fazia essa pergunta aos meus companheiros colombianos, havia uma longa pausa. Depois, memórias começavam a surgir. A magnitude e o escopo de décadas de conflito afetou cada um de nós de diferentes maneiras, mas profundas, modelando como vemos e vivemos o mundo. Mais do que isso, o conflito infelizmente passou a ser a linha primária que liga nossas histórias como nação.

Minha primeira lembrança da guerra é de agosto de 1988. Era sete da noite quando a única TV colorida da casa da minha avó transmitiu a notícia. Luis Carlos Galán, um candidato progressista à presidência , foi assassinado enquanto fazia um discurso. Minha mãe e minhas tias começaram a chorar. Minha avó permaneceu em silêncio, ainda assimilando a ideia. Eu tinha sete anos. Mas eu já havia sido avisado que “meninos não choram”, então não chorei. Engoli as lágrimas. Exibi esse traço da minha nova masculinidade como um pavão exibindo suas penas.

Vinte e seis anos depois, enquanto escrevo essas palavras, ainda sinto o gosto amargo da guerra. Nos últimos onze anos, vivendo num exílio autoimposto, pude refletir criticamente sobre a maneira que o demorado conflito colombiano me moldou como pessoa, e especialmente como homem.

Na superfície, eu era um dos colombianos que navegou pelos anos 1980, 1990 e começo de 2000 em águas relativamente calmas. Fui dispensado do serviço militar obrigatório por ser filho único. Nunca peguei numa arma. Minha família não foi afetada por sequestros, extorsões ou minas terrestres. A guerra civil não me desalojou e não tirou a vida de nenhum dos meus amigos ou familiares. Eu tive o imerecido benefício de viver o conflito da confortável cadeira do privilégio num país onde a guerra era regra e rei.

No entanto, esses anos deixaram uma marca indelével em mim. Me tornei cauteloso, desconfiado dos outros e sempre na defensiva. As experiências contínuas de violência roubaram minha habilidade de confiar e empatizar. Roubaram minha capacidade de ter como meu o peso de sonhos despedaçados de outros. Dia após dia eu perdia a capacidade de ver meus conterrâneos como 100% humanos. Me acostumei com o número cada vez maior de pessoas pedindo dinheiro nos semáforos. Me acostumei com as histórias de matanças e sangue em áreas remotas de uma geografia vasta e desconhecida. Me tornei amargo graças à mídia de massa ordinária e às promessas vazias de uma elite política egoísta. A guerra me desumanizou lentamente. Somente a distância e o tempo permitiram que aos poucos eu recuperasse essa necessidade por empatia, por gentileza.

Depois de sessenta anos de conflito, a Colômbia está selando a oportunidade de acabar com a guerra. Isso significa erradicar a violência armada como um meio válido de fazer política, incluindo o uso de uma violência baseada no gênero como arma de guerra. É ingênuo pensar que o voto bem-sucedido no iminente referendo seja o ponto final. O desafio é construir a paz num contexto em que a maioria de nós não a vivenciou. É como se mandassem você nadar no oceano mesmo quando você só viu o mar pela TV.

Como fazemos isso? Como podemos nos reinventar para construir a paz e torná-la nossa única opção?

Construir a paz exige repensar o que significa ser colombiano. Criar um novo significado do que representamos como nação, num contexto de alta desigualdade, diferenças regionais e mobilidade social rígida, significa aceitar o que nós somos e o que fizemos, não importa o quão doloroso seja o processo. Precisamos reconhecer que a violência e a masculinidade estão intrinsecamente conectados e como essa relação vem definindo o modo como criamos meninos para se tornarem homens. E também como construímos ideais nocivos de masculinidade que favorecem e alimentam a violência numa cultura machista.

Tradicionalmente, a noção do que significa ser homem na Colômbia vem sendo relacionada com a habilidade de sobrevivência, tirando proveito de qualquer oportunidade que surja, mesmo que isso signifique “flexibilizar” as regras. Isso levou a uma glorificação de indivíduos perspicazes ou avispados. Temos a tendência de admirar homens que quando possível levam vantagem sobre os outros, em círculos sociais ou programas de TV. Às vezes como traficantes, às vezes como empresários ou políticos.

Adoramos aqueles que fazem justiça com suas próprias mãos usando seus punhos, suas balas ou suas palavras – incluindo a expressão inglória “você sabe quem eu sou?”. Mas também os odiamos. Desprezamos-os. Esses homens representam o pior lado de nós mesmos. Sua individualidade se sobrepõe à coletividade e o preço de suas ações é imposto a todos nós. Eles tiram vidas, destroem sonhos e alimentam mais violência.

Nossa ideia tradicional de masculinidade também está relacionada com a habilidade de nos proteger e proteger os outros. Essa característica ganha diferentes dimensões quando a violência é o prato do dia, como é o caso da Colômbia. A cada 13 minutos uma mulher é vítima de violência em nosso país. Violência física, verbal e psicológica se manifesta de maneiras numerosas e marcantes. Criamos homens para serem fortes e estarem no controle, mas sem exigir que troquem fraldas, limpem banheiros ou cuidem de suas crianças. Achamos normal que os homens só expressem seus sentimentos quando o álcool está envolvido. O que significa intoxicar o corpo como uma maneira aceitável de desintoxicar a alma. Tendemos a ser mais tolerantes com a violência do que com a “fraqueza”, sem perceber que a violência é a expressão máxima de fraqueza.

As classes são o fator central que diferenciam os colombianos. Para os homens, isso significa uma forte pressão social para ser bem-sucedido financeiramente e sustentar a família. Numa economia de guerra, os meios são menos importantes que os objetivos. Como resultado, o dinheiro vem das drogas, indústrias ilegais, corrupção e propinas em contratos estatais. E esses recursos se fundem com empresas lícitas, concursos de beleza e times de futebol. Nesse contexto de desigualdade desenfreada, reforçada pelo conflito armado, mobilidade social é algo raro. Os homens são deixados para trás, pressionados para alcançar um modelo de masculinidade impossível numa sociedade onde o “vale tudo” se tornou um mantra nacional.

Naturalmente, a violência ganhou um lugar preferencial na caixa de ferramentas dos homens colombianos. Provar sua masculinidade significa justificar o uso e o exercício da violência como um meio válido. Isso vai de assassinatos, tortura e violência extrema usada pelas forças do Estado, guerrilhas, milícias e gangues até a violência normalizada do dia a dia, que, exemplificada nas canções, incluem violência contra mulheres, assédio e discriminação de comunidades LGBT. Ela também se manifesta de maneiras mais sutis, ainda que marcantes: para emascular garotos e homens, insultamos os outros comparando-os a mulheres ou homens gays. Normalmente funciona.

Como resultado, a violência se tornou um elemento-chave em nossa experiência de nos tornarmos homens. Ela ocorre em trocas de socos no parquinho ou no campo de futebol. Ela é parte da nossa experiência em cidades onde a fúria dos homens no trânsito é uma ameaça constante. Ela é parte do que é esperado de nós homens, porque ninguém quer ser o cara que deixa os outros o explorarem. Não somos violentos, mas normalizamos a violência de modo que não notamos mais sua presença como parte do cenário, assim como ignoramos aquele móvel imenso no meio da sala.

Como homens, temos um papel-chave para representar nesse processo maravilhoso mas complexo de construir a paz na Colômbia. Isso exige que a gente tenha uma diálogo sincero e aberto sobre quem somos como homens, para repensar quais ideais e traços da masculinidade precisamos estimular e quais precisamos erradicar feito erva-daninhas no nosso novo jardim.

Pra começar esse processo, precisamos rejeitar o uso da violência de qualquer tipo. Precisamos torná-la inaceitável nas salas de aula, nas ruas, no transporte público, no governo e em todos os lares. A violência precisa ser passível de punições sociais, legais, culturais e morais. Precisamos incentivar ideias de masculinidade em que chorar, expressar seus sentimentos abertamente e fazer tarefas da casa são coisas normais, e cantadas. Assédio e beber e dirigir não são.

Essa não é uma tarefa fácil. Ela exige um compromisso sólido para refletir constantemente como normas e papéis de gênero ultrapassados e prejudiciais podem definir o tipo de homens que somos. Como nossas noções de o que significa ser homem definem nossos relacionamento com mulheres, minorias de gênero e outros homens. Como nossa cultura reforça mensagens que justificam e alimentam a violência. É também um belo convite para avaliar nossas atitudes, comportamentos e práticas e como eles contribuem — ou não — para construir a paz.

Ao construir a paz, o resultado final é tão importante quanto o processo. O mesmo caso de tornar-se um homem. E cada um de nós pode começar agora esse processo, transformando a si mesmo e aos outros, um homem de cada vez.


publicado em 02 de Outubro de 2016, 00:05
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Breno França

Editor do PapodeHomem, é formado em jornalismo pela ECA-USP onde administrou a Jornalismo Júnior, organizou campeonatos da ECAtlética e presidiu o JUCA. Siga ele no Facebook e comente Brenão.


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